AGRONEGÓCIO RESPONSÁVEL - O difícil aumento da produtividade na soja
A partir da década de 1970, o Brasil experimentou grande avanço na produção de soja, em razão do grande aumento da área plantada, mas, também, da produtividade. Contudo, na última década, os ganhos de produtividade foram modestos. A produtividade média nacional da cultura está há vários anos patinando em cerca de 3.000 kg/ha, apesar de melhorias tecnológicas em variedades, máquinas e insumos. É verdade que o concurso de máxima produtividade, do Programa Soja Brasil, identificou produtores com rendimentos superiores a 6.000 kg/ha, chegando a incríveis 8.500 kg/ha, mas em áreas pequenas, que não representam lavouras conduzidas em escalas comerciais.
Esses produtores não se valeram de tecnologias secretas para alcançar tais produtividades e provaram que é possível colher mais de 6.000 kg/ha, o que, em termos de lucratividade, pode significar mais do que duas safras normais (3.000 kg/ha de soja, mais 5.000 kg/ha de milho).
Não sabemos claramente quais fatores inibem o crescimento da produtividade da soja, mas tudo indica para a qualidade do solo, no sistema soja/milho em sucessão. Essa produção intensiva dos mesmos cultivos ano após ano intensifica os problemas fitossanitários, alguns facilmente percebidos, como a infestação de buva e a proliferação de fitonematóides, mas outros ainda não são percebidos.
O solo é a alma de uma lavoura. Bem manejado, é o fator de produção que melhor responde em aumentos de produtividade. Mas solo de qualidade não se constrói do dia para a noite. Precisa de anos ou décadas de investimento em manejo antes de apresentar elevado teor de matéria orgânica, fruto de uma produção abundante de palhada e raízes, obtida via rotação de culturas num Sistema de Plantio Direto bem feito. Solos ricos em matéria orgânica têm maior capacidade de reter água numa eventual estiagem, não compactam e têm baixa erosão, além de conferir menor resistência ao desenvolvimento de raízes, o que facilita o crescimento e a expressão do potencial genético das culturas.
O sistema de cultivo soja/milho em sucessão deve ser economicamente rentável, pois cresceu ao longo das últimas décadas. Mas talvez precise ser repensado, visando manter a capacidade produtiva da lavoura. O uso racional de todas as ferramentas tecnológicas disponíveis pode indicar que uma única cultura anual bem estabelecida pode render mais dividendos financeiros do que duas ou até três safras meia boca.
Produtores de café da região de Londrina são testemunhas de que é possível ganhar mais com área menor, mas bem conduzida. Antes da geada negra de 1975, a produtividade do café na região era 10 sacas/ha. Os poucos cafeicultores que restaram reduziram a área, mas melhoraram o manejo do solo e da cultura e hoje colhem 25 sacas/ha.
Amélio DallAgnol é pesquisador da Embrapa Soja





