Gostaria de ser produtor rural, mas não sou. Se fosse, acho que eu não seria diferente de boa parte dos agricultores que, com a chegada dos cultivos transgênicos e outras novas tecnologias, tiveram a vida facilitada. A complexa estratégia de controlar as plantas daninhas, por exemplo, ficou mais simples com o uso da tecnologia Roundup Ready (RR).
Por causa dela, o agricultor foi dispensado das pulverizações com inúmeros herbicidas para o controle das plantas daninhas que infestam as lavouras. Agora, tudo pode ser controlado com a pulverização de um único herbicida, que mata folha larga e estreita por igual e em qualquer estágio de desenvolvimento da cultura transgênica. Não falemos, por enquanto, das plantas daninhas resistentes ao herbicida Roundup Ready.
A facilidade de manejar os cultivos transgênicos não termina com o controle das plantas daninhas. O controle de pragas e doenças também é facilitado com a transgenia. Já temos a soja, o milho e o algodão que, além da tecnologia RR, já incorporam a tecnologia Bt, a qual dispensa a aplicação de inseticidas. Além dessas, outras maravilhas da engenharia genética muito provavelmente estão a caminho. Só não sabemos quais são e nem quando chegarão ao mercado, porque são, ainda, segredos que as empresas de biotecnologia só revelam quando prontas para usar.
Mas essas maravilhas tecnológicas podem embutir um risco para o agricultor: dispensá-lo de pensar nos custos e benefícios da adoção de tais tecnologias, que vêm acompanhadas de outros insumos na forma de pacotes prontos, um para cada fabricante. Esses pacotes não são, necessariamente, a melhor opção para aquilo que o produtor mais busca: maior produtividade e maior eficiência econômica.
Os melhores defensivos agrícolas, em termos de princípios ativos, não fazem parte do portfólio de um único fabricante. Por isso, cada fabricante monta um pacote com os seus próprios produtos e os distribuidores de insumos são estimulados, através de significativos descontos, a vender o pacote de um único fabricante.
O ideal para o produtor seria montar seu próprio pacote de insumos com o auxílio dos órgãos de assistência técnica e, com isso, adquirir os melhores produtos de fornecedores diferentes. Mas isso é trabalhoso e nem sempre o agricultor está consciente da necessidade de buscar as melhores opções, razão pela qual pode ser facilmente induzido pelo seu fornecedor tradicional a aceitar passivamente o pacote do fornecedor A, B ou C e não gastar o cérebro fazendo contas sobre os ganhos potenciais de produtividade que ele teria se montasse o pacote mais adequado para as condições de sua propriedade.
A cada ano, a semente que o produtor planta chega acrescida de aditivos tecnológicos. Desse modo, por comprar o pacote completo de seu fornecedor, ele acaba sendo induzido a não buscar a assistência prestada pelos órgãos de extensão rural. Para quê? Ali, com a semente está o inoculante, o fertilizante, o enraizante, o bioestimulante, o promotor ou redutor de crescimento, o nematicida, o fungicida, o inseticida, entre outros.
Precisa mais?! Talvez não precise de tantos aditivos tecnológicos pelos quais estará aumentando os seus custos de produção, mas essa é outra história e o produtor que não mais precisa pensar, também é induzido a não perguntar.
Amélio Dall'Agnol é engenheiro agrônomo

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