É notória a preferência que o agricultor brasileiro dá ao cultivo da soja e do milho. Juntas, essas duas culturas constituem 80% da área cultivada e mais de 86% da produção de grãos no Brasil. Soja e milho são grãos cujas cadeias produtivas estão bem organizadas e os produtos são fáceis de vender nos mercados externo e interno, porque alimentam humanos e animais e são matéria-prima para a produção de biocombustíveis.
A rotação da soja (leguminosa) com o milho (gramínea) é uma combinação altamente desejável, preferencialmente quando realizada em anos diferentes. Mas a alternância da cultura da soja com a do milho mais praticada no Brasil, infelizmente, não é rotação, mas sucessão de culturas na mesma área e dentro do mesmo ano agrícola, o que poderá não ser sustentável no longo prazo, dada a possibilidade de intensificação de problemas vinculados ao manejo do solo e das pragas e doenças de ambas as culturas.
A grande demanda do mercado por soja e milho sempre esteve vinculada à cadeia de produção de carnes e, mais recentemente, à produção de biodiesel e etanol. Com a decisão do governo brasileiro de produzir biodiesel a partir de óleos vegetais (o governo pensou na mamona, mas o mercado optou pelo óleo de soja - mais abundante, barato e garantido), a ameaça de uma sobreoferta de óleo, produzido em grande quantidade como consequência do esforço para produzir mais farelo, desapareceu. O biodiesel é capaz de absorver qualquer quantidade de óleo disponível, o mesmo ocorrendo com o etanol de milho.
Cerca de 70% do farelo proteico utilizado na formulação das rações que alimentam os animais domésticos produtores de carne provêm da soja. Outros farelos proteicos (girassol, caroço de algodão, amendoim, canola...) são utilizados no Brasil, mas sua quantidade é pequena e sua riqueza em proteína é muito menor que a da soja. O farelo de milho, por sua vez, rico em carboidratos, é tão indispensável na formulação de rações quanto o farelo de soja, que, também, pode ser substituído pelo farelo de outros cereais. Mas não no Brasil, onde a pequena produção é integralmente utilizada na alimentação humana.
A demanda mundial por soja e milho continua aquecida e nem mesmo as últimas supersafras das Américas do Norte e do Sul foram capazes de derrubar os preços aos níveis anteriores à crise de 2008. Os estoques de passagem estão altos, mas os preços de mercado continuam estimulantes.
Mesmo com preços menores, a soja e o milho continuam sendo a melhor alternativa de cultivo para o agricultor brasileiro. O mercado interno consome a maior parte do milho e o externo, da soja. É urgente a necessidade de melhorar a infraestrutura de transporte e armazenagem dos nossos grãos. O agronegócio cresceu mais do que o Brasil e o governo não percebeu.

Amélio Dall’Agnol é pesquisador da Embrapa Soja

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