Agronegócio Responsável - A coinoculação em soja
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sexta-feira, 03 de abril de 2015
Amélio DallAgnol é pesquisador da Embrapa Soja 
A prática de inocular as sementes de soja com bactérias diazotróficas (Bradyrhizobium) capazes de aproveitar o nitrogênio (N) da atmosfera, dispensando o N mineral na adubação, já é bastante aceita e praticada no Brasil, por causa dos benefícios representados pela redução nos custos de produção e ao ambiente. O N mineral é caro e se é possível substitui-lo pelo inoculante que custa uma fração do custao do fertilizante nitrogenado, para que gastar mais? Além disso, a produção e uso de fertilizantes nitrogenados leva à produção de gases de efeito estufa que poluem a atmosfera, além de nitrato, que contamina águas subterrâneas e superficiais.
Há os que acreditam que um pouquinho de N mineral na semeadura ajuda a alavancar as plantas na fase inicial do desenvolvimento, o que é verdade. Também é verdade que as folhas apresentam um verde mais escuro. Mas qual a vantagem? Isto não se traduz em mais rendimento, porque as bactérias fixadoras de N estabelecidas nas raízes das plantas inoculadas recuperam essas aparentes desvantagens, quando elas começarem a atuar, o que ocorre cerca de 10 a 15 dias após a emergência.
Também há produtores argumentando que só inocular não é suficiente para se alcançar altas produtividades, o que é desmentido pela pesquisa. Produtividades de 4, 5 e até 6 toneladas de soja/ha, apenas com o uso do inoculante, são rotina nos experimentos.
Outra crença existente é que o solo preserva as bactérias e as disponibiliza às plantas de soja a cada novo ciclo, dispensando a inoculação todo o ano. Sim, é verdade em parte. Mas para que isto aconteça, o solo precisa estar em excelentes condições para mantê-las vivas e em número suficiente para promover uma boa nodulação na soja da safra seguinte.
O solo é um ambiente hostil, onde há uma grande competição entre os organismos que nele habitam. As bactérias fixadoras de N, para sobreviverem de uma safra para outra, têm que competir com outras bactérias do solo por alimento e espaço, além de serem caçadas por protozoários, inibidas por fungos e infectadas por vírus que podem levá-las à morte. Por isso, é importante colocar células novas a cada safra e na quantidade recomendada para que promova uma boa nodulação: 1,2 milhões de células para cada semente de soja.
Não é difícil concluir que esse número só pode ser alcançado pelo uso de um inoculante de boa qualidade. Por causa disso e do baixo custo da reinoculação, a pesquisa recomenda inocular todos os anos ou quase todos os anos, mesmo sabendo que a operação é trabalhosa. Resultados de pesquisas indicam um ganho médio de produtividade de 8% com a reinoculação.
Para garantir o sucesso da inoculação, o agricultor precisa ter certeza de que manejou o inoculante corretamente. O inoculante precisa ter sido transportado e armazenado adequadamente na revenda ou na propriedade, protegido de altas temperaturas até o momento da inoculação antes do plantio, além de estar dentro do prazo de validade.
Mais recentemente, a pesquisa tem identificado a possibilidade de adicionar outra bactéria (Azospirillum), além do Bradyrhizobium, num processo chamado coinoculação. O Azospirillum é capaz de incrementar o sistema radicular das plantas de soja (também de milho ou trigo) e dessa forma adicionar mais 8% na produtividade da soja. Muitos produtores já experimentaram e não gostaram porque não viram sinais de maior rendimento. No entanto, é bom salientar que um aumento médio de 8% não é percebido a olho nu e que sendo um valor médio, ele pode variar desde zero até mais de 10%. Assim, além dos 8% a mais já alcançados com a reinoculação com Bradyrhizobium, a coinoculação de Bradyrhizobium mais Azospirillum pode resultar em aumento total de 16% na produtividade da soja.


