Agronegócio quer participar do mercado de carbono
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sexta-feira, 27 de maio de 2005
Rakelly Calliari<br>Especial para Folha 
Foz do Iguaçu Mais de uma década após a intensificação dos debates sobre o aquecimento global, uma nova commoditie desponta no mercado agropecuário internacional e promete tornar-se um negócio rentável, não só para o bolso dos produtores, mas também para o meio-ambiente: o carbono. Negociações ainda são limitadas, mas experiências norte-americanas estão apresentando bons resultados.
Mas, os produtores rurais ainda não foram contemplados como possíveis vendedores no mercado de carbono criado por Kyoto e o protocolo só expira em 2012, quando poderá ser reformulado. Por enquanto, iniciativas paralelas mostram que é possível a inserção da agropecuária na comercialização dos créditos. Uma das principais experiências nessa área está sendo realizada há dois anos nos estados de Iowa, Nebraska e Kansas, nos Estados Unidos, e foi apresentada no I Simpósio sobre Plantio Direto e Meio Ambiente, na semana passada, em Foz do Iguaçu.
Assim como no mercado criado pelo protocolo, dirigido principalmente às indústrias, a iniciativa americana transforma o carbono que deixa de ser emitido ou é sequestrado através de boas práticas no campo em créditos a serem vendidos a agentes poluentes, como uma ''compra de indulgência''. Chicago já possui uma bolsa de valores para a comercialização dos créditos, a Chicago Climate Exchange (CCX), com cotação média de U$ 1,35 por tonelada de carbono. É um mercado experimental criado para durar quatro anos, mas que já tem entre os investidores empresas como Ford, Bayer e IBM.
Para disponibilizar os créditos, os produtores devem obter uma certificação técnica. No caso do Kansas, o documento é emitido por um grupo de instituições liderado pela Kansas State University. De acordo com o diretor do consórcio, Charles Rice, agricultores dos três estados participam do projeto, totalizando 100 mil hectares de área. Nelas, se praticam o plantio direto, rotatividade de cultura e o preparo mínimo do solo.
''Nós começamos há dois anos em Iowa com apenas 50 contratos. Agora temos 260 agricultores em três estados. O pagamento ainda é simbólico, mas os produtores estão mais interessados nos benefícios que o projeto está trazendo para as propriedades'', afirmou Rice. A fiscalização destas propriedades e feita anualmente por um grupo de voluntários, por meio de amostragem.
O objetivo desta fase do projeto, segundo o diretor do consórcio americano, é reduzir a emissão de carbono em 1% ao ano, mas os números poderiam ser bem maiores. Ele calcula que o sequestro de carbono pelo solo poderia atender as necessidades de redução de emissões de CO2 dos Estados Unidos entre 20 e 40%.
Os pesquisadores que participaram do simpósio, disseram que a absorção de carbono pelo solo funcionaria como uma recuperação de um estoque perdido em um período de 50 a 100 anos de cultivo do solo, avaliado em até 50%. A maior parte das propriedades está longe, portanto de atingir a capacidade máxima de armazenagem do material no solo que, conforme as propriedades da terra, pode variar entre 40 e 60 tonelada de carbono por hectare.
O preço pago aos produtores americanos é simbólico, 10 vezes menor do que na Europa, que integra o protocolo de Kyoto. Uma propriedade de 50 hectares receberia em média R$ 168 ao ano, mas ao que parece a iniciativa está funcionando e já há acordos formais de intercâmbio com a Austrália, Nova Zelândia, Canadá e Brasil, aqui através da Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul.


