Agronegócio e armazenagem de grãos
Paulo Varela Sendin
Quem já ouviu falar de Agronegócio e Cadeias Produtivas, com certeza sabe que competitividade, qualidade e preço são palavras, necessariamente, inseparáveis. É também inerente ao conceito moderno de Cadeia Produtiva, especialmente no âmbito do Agronegócio, que a demanda por qualidade está intimamente relacionado com os desejos e necessidades do consumidor final, refletindo-se por todos os elos da Cadeia.
No caso específico da Armazenagem de Grãos, a situação desse elo da cadeia produtiva, como elemento intermediário entre o produtor rural e a indústria e, também, entre esta e o consumidor, faz com que o setor tenha uma importância estratégica na identificação e solução dos problemas derivados do atendimento às demandas do usuário final. O setor é, ainda, palco privilegiado para a observação dos possíveis efeitos que as mudanças tecnológicas ocorridas na lavoura e na indústria possam vir a provocar no produto final que chegará à mesa do consumidor.
Assim, ao se enfocar a problemática da armazenagem de grãos, não se pode deixar de lado o conjunto de expectativas do consumidor, nem se desconsiderar que esse processo (armazenagem) é parte integrante de uma Cadeia Produtiva e, por isso, as soluções têm de ser buscadas de forma sistêmica.
Foi com uma visão muito clara desse contexto que mais de 60 técnicos que atuam nesse setor reuniram-se em Londrina, de 1 a 3 de dezembro, no workshop Avaliação das Práticas e das Condições de Armazenagem de Grãos no Brasil. O evento, realizado no Centro de Difusão de Tecnologia do Iapar, foi promovido pela Fapeagro, Iapar e UFPR, como parte do projeto de mesmo nome que é financiado pelo CNPq e coordenado pela Fapeagro, sob a gerência direta do Prof. Flávio Lazzari, renomado especialista no assunto.
O workshop abordou os aspectos tecnológicos mais importantes do segmento de armazenagem das cadeias produtivas de grãos, enfocando temas como recebimento, secagem, qualidade física, sanitária e nutricional, aeração e termometria, amostragem, monitoramento e controle de insetos, detecção e quantificação de fungos e micotoxinas, detecção e quantificação de insetos e fragmentos, tecnologias alternativas e exigências qualitativas de processadores e consumidores.
Mapeamento da armazenagem Dessa extensa listagem de tópicos abordados, poder-se-ia imaginar a ocorrência de mais um evento de alto nível acadêmico, com perspectivas de resultados a longo prazo. Quem esteve presente, no entanto, pode observar que, se de um lado manteve-se o alto nível, de outro a praticidade das apresentações e a composição do grupo de participantes garantiram o atingimento do objetivo proposto, que foi o de mapear o estado da arte no que se refere às práticas do setor de armazenagem.
Contando com a presença preponderante (mais de 70% dos participantes) de técnicos atuantes no setor empresarial, responsáveis por praticamente todas as apresentações feitas, obteve-se realmente uma fotografia nítida do que está acontecendo nos armazéns do País, identificando-se problemas tecnológicos e discutindo-se o encaminhamento de soluções. Os quatro grupos de trabalho que se desdobraram durante dois dias, após a apresentação dos palestrantes, analisaram os temas de recebimento, secagem, aeração e termometria; amostragem, monitoramento e controle de pragas/presença de fragmentos; avaliação de fungos, micotoxinas, qualidade e legislação; alternativas para armazenamento a nível de propriedade. A partir desses quatro grandes tipos de problemas, mais de 40 gargalos tecnológicos específicos foram identificados, visando a formulação de soluções e a definição de possíveis ações práticas a serem desencadeadas.
No âmbito das ações futuras ficou claro que o caminho mais importante para a solução dos problemas passa pela ampliação da interação dentro do setor, tanto no que se refere à cooperação das instituições de pesquisa com a área empresarial, como também na dinamização do intercâmbio entre as empresas, mostrando que a comunidade envolvida com os problemas de armazenagem no Brasil já está suficientemente madura para, mantendo o nível de competição empresarial inerente ao sistema capitalista, promover concomitantemente ações cooperativas na busca de soluções para os problemas comuns.
Do ponto de vista de ações de Governo, além da identificação de deficiências em relação à legislação e fiscalização, surge como opção muito pertinente a possibilidade de formulação de Projetos Cooperativos, envolvendo empresas e instituições de pesquisa, propondo o desenvolvimento de tecnologias que permitam superar gargalos tecnológicos identificados. Nesse sentido espera-se em futuro próximo a apresentação de propostas ao PADCT III / CDT (Programa de Desenvolvimento Científico e Tecnológico/Componente de Desenvolvimento Tecnológico), cujo objetivo central é justamente o apoio a parcerias do tipo das discutidas neste workshop e para o qual o MCT (Ministério de Ciência e Tecnologia) destina recursos substanciais através de um processo competitivo de apresentação de propostas.
Há também que se destacar que o evento se constituiu apenas no início de um processo de articulação dentro do setor, já que além do encaminhamento das primeiras idéias de Projetos Cooperativos de desenvolvimento tecnológico, já foi definido que no início do próximo ano outras reuniões do grupo ocorrerão, visando dar sequência aos trabalhos a partir do nível de evolução já conseguido. Outro ganho, da maior importância, foi a distribuição de um questionário com cerca de 80 itens, através do qual se pretende quantificar e qualificar a situação do setor de armazenagem no Brasil. Muitos dos participantes não só se comprometeram a responder o questionário como vão distribuí-lo a outros técnicos que não estavam presentes, contribuindo assim para uma maior fidedignidade nas respostas a serem obtidas.
Em resumo, este workshop com certeza pode ser considerado um marco histórico muito relevante para o desenvolvimento tecnológico do setor de armazenagem no Brasil, pois seus impactos positivos para a maior competitividade do Agronegócio de grãos vão se fazer sentir em breve, caracterizando também a importância da cooperação entre Governo, Instituições de Pesquisa e a Iniciativa Privada, pois só essa interação sinérgica pode garantir competitividade e sustentabilidade para todos os elos da Cadeia no atual cenário de competição globalizada.
O autor, engenheiro-agrônomo, é coordenador-adjunto de Planejamento do Iapar e diretor administrativo da Fapeagro).

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