Agronegócio, conhecimento e inovação tecnológica
Com o aumento da complexidade dos processos produtivos no agronegócio e mesmo na fase agrícola desse setor econômico, cada vez mais se ouve falar em tecnologia e inovação tecnológica. É surpreendente, no entanto, a confusão que se faz quanto ao significado dessas palavras. Toda vez que um produto agrícola passa por algum percalço de mercado ou uma redução de disponibilidade de crédito, os agricultores e mesmo comentaristas especializados sugerem que a situação vai provocar uma redução no uso de tecnologia.
Uma leitura mais atenta do problema mostra que, de fato, o que se quer dizer é que vai haver uma redução no uso de agroquímicos. Esse tipo de comentário, repetido à exaustão, tem levado a se confundir tecnologia agrícola com agroquímicos, ou seja, toma-se a parte pelo todo.
Embora seja perigoso tentar definir o que é tecnologia, pode-se dizer que a palavra, segundo o Aurélio, é o conjunto de conhecimentos, especialmente princípios científicos, que se aplicam a um determinado ramo de atividade. Essa definição permite que se considere como tecnologia agrícola todo o tipo de conhecimento utilizado pelo produtor rural, quer seja uma máquina, uma cultivar de trigo ou simplesmente a definição de espaçamento entre plantas ou a escolha de época de semeadura.
Aceitando-se essa definição de tecnologia, fica mais fácil discutir o que é inovação tecnológica. Neste caso a palavra fundamental é inovação. Em um sentido amplo, uma inovação tecnológica seria o resultado da aplicação de conhecimento, científico ou não, obtendo-se algo novo na forma de um produto, processo ou serviço com valor de mercado.
No âmbito do agronegócio uma inovação tecnológica, ou uma tecnologia já em uso há muito tempo, pode tomar diversas formas. Um bom exemplo da diversidade com que a tecnologia pode se apresentar o resultado da Mostra Competitiva da RUraltech 2001, promovida pela Associação do Desenvolvimento Tecnológico de Londrina (Adetec), realizada durante a 41ª Exposição Agropecuária de Londrina, em abril último.
As três propostas vencedoras são didaticamente interessantes para mostrar o conceito abrangente de tecnologia agrícola. O terceiro prêmio coube ao trabalho Influência da forma de disposição das plantas na área sobre a produtividade e agregação de valor em lavouras de café, um estudo cujo resultado permite definir o melhor espaçamento e disposição das plantas de café no campo, de forma a se conseguir não só uma boa colheita, mas também um produto final de melhor qualidade. Uma típica tecnologia de processo, quase conhecimento puro, pois não implica no uso de nenhum novo insumo ou equipamento. Para o uso dessa inovação tecnológica, basta o conhecimento sobre os efeitos do espaçamento e disposição das plantas sobre a qualidade do produto, conhecimento esse originado de pesquisas conduzidas durante um longo tempo pelo Instituto Agronômico do Paraná (Iapar).
O segundo prêmio foi concedido a um equipamento muito simples, uma máquina que permite a utilização de mucilagem de sisal na alimentação animal. O trabalho premiado, com o nome de Peneira rotativa CNPA - Uma alternativa para o aproveitamento da mucilagem do sisal na alimentação animal, incorpora o conhecimento obtido pela Embrapa/Algodão a uma máquina, ou seja, é fisicamente concreto, embora não sofisticado.
Finalmente, a inovação que obteve o primeiro lugar está muito próxima do conceito de processo, mas incorpora uma tecnologia sofisticada já disponível. Trata-se de um sistema de identificação de gado utilizando um chip eletrônico que facilita a constituição de um cadastro individualizado de cada animal de um rebanho. O trabalho, apresentado pela empresa Korth Eletro-Mecânica, de São Carlos, SP, com o nome de Sistema de identificação eletrônica e rastreabilidade de animais inova em relação à tecnologia tradicional de uso de marcas ou brincos nos animais, visando coletar e armazenar informações. Dessa forma, ao serem introduzidos no sistema marcadores e instrumentos eletrônicos, a tecnologia obtida passa a aparentar maior proximidade do conceito (errado) de que tecnologia é sempre algo sofisticado e incorporado a um produto.
Assim, as três inovações vencedoras formam um painel muito interessante sobre o que é tecnologia agrícola, permitindo que se aprecie toda a diversidade do conceito e desmistificando sua obrigatória associação com produtos químicos, máquinas, equipamentos, eletrônica, informática ou algo assemelhado. O que se observa, ao analisar as três inovações premiadas é, sim, o fato de que todas partem de algo básico e essencial a esse conceito que é o conhecimento.
O autor é engenheiro agrônomo, pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná





