SOJA

Alta supera 100% em seis meses

Os preços da soja no mercado interno continuaram registrando fortes altas até o meio desta semana, em linha com a expressiva desvalorização da taxa de câmbio no Brasil observada nesta segunda quinzena de setembro. Nesta semana, o dólar comercial rompeu pela primeira vez na história a barreira dos 3,50 reais já na segunda-feira, para em seguida atingir 3,78 reais no final da tarde de terça-feira (quando passou a valer menos do que o peso argentino), e depois recuar a 3,67 reais no final da quarta-feira, 25 de setembro.
A atual desvalorização e instabilidade da taxa de câmbio no Brasil é fruto, principalmente, de expectativas e incertezas sobre o processo eleitoral e as possíveis mudanças que um novo governo de oposição poderia implantar na economia.
Como o processo eleitoral ainda não está definido segundo apontam as pesquisas, o mercado de câmbio deve continuar instável nos próximos dias, pelo menos até a realização do primeiro turno das eleições, dia 6 de outubro. Na mesma direção, os preços da soja no mercado de lotes também devem registrar oscilações para cima e para baixo nos próximos dias.
No momento, a soja acumula uma invejável valorização de mais de 100% nos últimos seis meses. Isso representa uma extraordinária rentabilidade para o armazenamento da produção este ano, com as vendas atuais gerando um resultado financeiro quase duas vezes maior em relação as vendas feitas logo após a colheita da safra 01/02, já descontados os custos de armazenagem e de oportunidade do capital. A grosso modo, seria o mesmo que obter duas colheitas com apenas um plantio.
No Paraná, o preço médio ao produtor esteve ao redor dos R$ 41 por saca esta semana, a maior cotação nominal do produto desde o lançamento do Plano Real. Há um mês a cotação da soja ao produtor paranaense era de R$ 33 por saca e há apenas uma semana de R$ 38 por saca, conforme mostra o gráfico.
A valorização semanal do preço da soja é de quase 8% e a mensal de quase 24%. No mesmo período o dólar subiu cerca de 14% e 19%, respectivamente. A tabela mostra esses valores, e também as variações semanal, mensal, semestral e anual dos preços da soja, do milho, do dólar, e da relação soja/milho dos respectivos períodos até esta semana.
Início de colheita nos Estados Unidos
A colheita da soja e do milho safra 02/03 nos Estados Unidos atingiu, respectivamente, 6% e 13% da área total no último domingo, dia 22 de setembro, segundo o USDA - Departamento de Agricultura daquele país. No momento, a maior parte das lavouras de soja (65% do total) está em fase de maturação (queda das folhas da soja), sendo o mesmo percentual apontado como em fase de maturação para as lavouras de milho. A colheita destas culturas nos Estados Unidos se concentra em outubro.
No último relatório semanal do USDA sobre a situação das lavouras nos Estados Unidos houve manutenção, em relação a semana anterior, do percentual de área considerado em boas e excelentes condições, que é de 44% para a soja e de 42% para o milho.
O avanço da colheita de soja e milho e a manutenção das condições das lavouras tem pressionado para baixo o preço destes produtos na Bolsa de Chicago. De 11 de setembro (que registrou a maior cotação do ano) a 25 de setembro, o contrato do milho para primeira entrega (atualmente dezembro) desvalorizou-se 8,0%, passando de 281,00 para 258,50 centavos de dólar por bushel. No mesmo período, o contrato da soja para primeira entrega (atualmente novembro) desvalorizou-se 5,5%, passando de 591,50 para 558,75 centavos de dólar por bushel.
José Roberto Canziani - Prof. da UFPr
e-mail: [email protected]
MILHO
Na onda do câmbio
Os preços dos produtos agrícolas estão subindo na esteira da desvalorização cambial, ao menos aqueles produtos transacionados externamente. O milho, até poucos anos atrás não tinha esta característica, mas com a realização de exportações nos últimos dois anos e importações em anos anteriores, tem seu preço influenciado, em parte pelo mercado externo e pelo poder de compra da moeda brasileira.
Esta semana foi mais um período de alta nos preços agrícolas brasileiros, entre eles, do milho, com valorização de 6,5 % (1,00/sc) em relação à semana anterior. Nos últimos 30 dias, o campeão de alta foi o trigo (31,2%), seguido pelo café (25,0%), soja (23,9%) e milho (15,4%).
Esta semana havia compradores para o milho no porto, mas saíram poucos negócios por falta de vendedores. Períodos de alta como esse levam os vendedores a esperar por novas altas. Evitando vender, há pouco produto disponível, que resulta em preços altos pela escassez, o que leva os vendedores a esperar ainda mais. Esta semana foi um bom exemplo disto: poucos negócios realizados no mercado de lotes e mais compradores do que vendedores no mercado.
Relação soja/milho
A desvalorização cambial vem favorecendo os preços internos (pelo menos do ponto de vista dos produtores) dos produtos transacionados externamente, incluindo o milho. A tabela mostra o que aconteceu com os preços da soja, do milho e da taxa de câmbio, tendo esta semana como data base e períodos anteriores para comparação.
Em 12 meses o Real desvalorizou 35,2% (lembrando que em setembro do ano passado ocorreram os ataques terroristas aos Estados Unidos e o câmbio subiu naquele momento). O preço da soja no mesmo período subiu 57,7% e o do milho, 66,7% , reduzindo a relação de preços soja/milho de 2,63 para 2,48.
Há seis meses era período de safra (final de março) e o milho estava valorizado frente à soja, tendo a relação soja/milho atingido apenas 1,79. De março para cá, o preço da soja mais que dobrou e o do milho cresceu 46,7%, conforme mostra o gráfico. A relação soja/milho desta semana foi de 2,48, valor próximo ao observado na semana passada, dada a recente valorização dos dois produtos em proporções semelhantes.
O interessante nesta análise é que a alta do milho não vem apenas da desvalorização cambial. Na soja, cerca de 75% da produção é exportada (em grão ou em equivalente grão quando se exporta farelo e óleo) e, assim, o mercado interno tem grande relação com os preços externos e a taxa de câmbio. Mas no milho a situação é diferente.
No ano passado quando o País exportou o recorde de 6 milhões de toneladas, este volume representou apenas 14% da produção nacional. Este ano as exportações devem somar cerca de 1,5 ou 1,7 milhão de toneladas, representando entre 4,2 e 4,7% da produção. O efeito do câmbio existe, mas em menor intensidade no milho. A valorização atual do milho nesta entressafra é, portanto, fruto da menor oferta interna do produto (devido a quebra da safrinha no sul/sudeste e da realização de exportações) e da retenção das vendas por parte dos produtores, que seguem retendo a produção à espera de melhores preços.
Vania Di Addario Guimarães - Prof da UFPR
e-mail: [email protected]

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