BOI GORDO


O efeito das geadas
sobre os preços

As geadas que ocorreram neste início de setembro nos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, além da região oeste de São Paulo e partes do Mato Grosso do Sul, danificaram sensivelmente as pastagens perenes, que são a base para a alimentação do gado bovino na grande maioria das propriedades rurais destas regiões. O fato já provocou alteração nos preços do boi gordo nos mercados físico e futuro, em direções opostas.

Neste ano, as pastagens já se encontravam em início de recuperação neste final de inverno, que até então vinha apresentando temperaturas amenas para a época do ano e precipitações próximas a média histórica. Até o final de agosto, a boa condição do clima para a época do ano vinha favorecendo as pastagens e a consequente retenção do gado no pasto em muitas propriedades no atual ano eleitoral, o que contribuía para uma elevação dos preços do boi gordo nos mercados físico e futuro. Com as geadas dos últimos dias houve uma reversão de expectativas quanto ao fluxo de animais a serem enviados ao abate no curto e médio prazo.

A queima das pastagens pelas geadas deve atrasar um pouco o seu desenvolvimento e comprometer o ganho de peso dos animais nos próximos meses. Isso faz aumentar a oferta no curto prazo (reduzindo os preços no mercado físico) e diminuir a oferta no médio prazo (aumentando os preços no mercado futuro).

Indicador ESALQ/BM&F

Nos últimos dias, a evolução do indicador diário dos preços do boi gordo ESALQ/BM&F confirma a tendência de redução dos preços no curto prazo. O gráfico mostra a evolução dos preços do indicador nos últimos 30 dias e aponta para uma queda das cotações do boi gordo de 2,5% (ou R$ 1,30/@) entre 27 de agosto e 4 de setembro. Entre 1º e 27 de agosto, vale lembrar, os preços do boi gordo, segundo o indicador, haviam subido 9,2% (ou R$ 4,30/@), passando de R$ 46,54 para R$ 50,84/@.

No mercado futuro do boi gordo, representado pelos contratos negociados na BM&F, os efeitos das recentes geadas sobre os preços foram distintos nos últimos dias. Comparando o valor de fechamento de alguns contratos em 30 de agosto e 04 de setembro, tem-se: (a) o valor do contrato outubro caiu de R$ 52,20 para R$ 51,70 por arroba; (b) o valor do contrato dezembro subiu um pouco, de R$ 51,60 para R$ 51,65 por arroba.

Relembrando o passado

As últimas duas fortes geadas ocorridas nas regiões citadas ocorreram durante os invernos de 1994 e 2000. Diferente deste ano, essas geadas ocorreram principalmente em julho, contribuindo para significativas elevações de preços do boi gordo durante os respectivos meses subsequentes. O gráfico mostra o declínio ou estabilidade dos preços logo após as geadas e o significativo aumento nas cotações nos meses subsequentes. Em 1994 (ano do Plano Real, quando houve expressivo aumento no consumo de carnes) os preços saltaram de R$ 21/arroba no final de julho para R$ 33/arroba no início de novembro. Em 2000, os preços passaram de R$ 37,50/arroba no meado de julho para R$ 42,50/arroba no final de outubro.


José Roberto Canziani - Prof. da UFPr
e-mail: [email protected]

FEIJÃO

Geadas e a produção do Sul

As geadas na região sul do País neste início de setembro causaram perdas às lavouras de feijão já plantadas. A estimativa do Deral para a área plantada com feijão no Paraná na safra das águas do ano agrícola 2002/2003, do último dia 28 de agosto, é de 417,56 mil hectares, dos quais 30% (125,7 mil ha) haviam sido plantados até a ocorrência das geadas no início da semana. O mesmo órgão estima que 56% desta área (ou 70 mil hectares) foram perdidos e não devem ser replantados, segundo a mesma fonte. Com esta redução a área plantada (mantido o restante a ser plantado) fica em 347,56 mil hectares, 10,6% a menos do que na safra passada. Assim, ao invés de um aumento de 7,4% na área de feijão das águas no Paraná haverá redução.

Na safra do ano passado, quando foram cultivados 389 mil hectares, a cultura estava se recuperando no Estado depois de ocupar apenas 326 mil hectares em 2000. Os bons preços de 2002 estimularam o aumento de área que agora não vai mais ocorrer.

Em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul ainda não há estimativas de perdas. Na média dos últimos cinco anos safra, a região sul produziu 53,2% da produção nacional de feijão de primeira safra (ou das águas) sendo que o Paraná respondeu por 32,5%. Santa Catarina é o quarto maior produtor com 11,4% (o segundo é Minas Gerais com 15,6% e o terceiro, a Bahia com 14,3%). O Rio Grande do Sul é o quinto maior produtor com 9,4% do total da primeira safra. A quebra de parte da produção sulista tem, portanto, impacto potencial sobre o mercado, mas restrito à magnitude das perdas no total.

Na safra 2001/2002 a produção nacional de feijão das águas alcançou cerca de 1,33 milhão de toneladas, 15,1% a mais do que na safra anterior. A perspectiva é de que a produção possa voltar aos níveis de 2001. Confirmado este cenário os preços, que em 2002 foram melhores do que em 2001, possam se manter atrativos para os produtores.

Se isto acontecer, é possível esperar aumento na área plantada na segunda safra que pode compensar a redução na produção da safra das águas. Culturas de ciclo mais curto têm esta vantagem/desvantagem: preços altos estimulam o plantio e podem repor déficits de oferta e curto prazo, mas não impedem que os preços subam enquanto a oferta é restrita. Para quem colher os preços prometem bons retornos.


Francisco C. Guimarães
e-mail: [email protected]


AGRONEGÓCIO


Exportações reduzem 5% em agosto

Analisando-se os resultados da balança comercial do agronegócio brasileiro em agosto de 2002, notamos que a mesma apresentou superávit comercial de US$ 2,05 bilhões, resultado de exportações de US$ 2,41 bilhões e importações da ordem de US$ 358 milhões, conforme pode ser observado na tabela. A participação dos produtos do agronegócio na pauta de exportações representou 41,9% do total arrecadado no mês de agosto (US$ 5,75 bilhões).

As exportações apresentaram uma queda de 3,44% em relação a agosto de 2001, com a receita cambial variando de US$ 2,49 bilhões para o atual volume de US$ 2,41 bilhões. As importações também apresentaram um recuo da ordem de 8,37% em relação aos volumes importados em igual período do ano passado. Apesar das exportações do agronegócio apresentarem recuo de 5% em relação à julho de 2002, os volumes apurados representaram a terceira melhor marca do últimos 60 meses, reflexo da estagnação do consumo do mercado interno, que não tem condições de renda para adquirir mais produtos.

Analisando de maneira geral o comportamento das exportações do agronegócio brasileiro, podemos destacar o desempenho de alguns setores. No caso do complexo soja, principal produto da pauta de exportações brasileiras, observou-se queda de 24,4% no valor das exportações de soja em grãos (de US$ 445,4 milhões para US$ 336,6 milhões) e de 9,2% no valor das exportações de óleo de soja em bruto (de US$ 58 milhões para US$ 52,8 milhões). A receita de exportação de farelo de soja cresceu 7%, aumentando de US$ 193,2 milhões para US$ 206,7 milhões. O óleo de soja refinado apresentou variação positiva de 68,9%.

No complexo carnes, os resultados também refletiram comportamentos opostos de preços e volumes. Em agosto de 2002, o volume exportado do setor cresceu 23,4% em relação ao mesmo mês do ano anterior. Os baixos preços do mercado internacional, entretanto, contribuíram para uma queda de 3,6% na receita com exportações do setor.

O valor exportado de carne bovina ''in natura'' diminuiu 28,7%, resultado da redução tanto de preço quanto de volume. Deve-se ressaltar o desempenho positivo das carnes de suíno, cujo crescimento em termos de volume exportado, 92%, mais que compensou a queda dos preços, resultando em aumento de 33,2% no valor das exportações.

No complexo do açúcar, as receitas de exportações de açúcar e álcool registraram queda de 21,5%. Embora o volume exportado tenha crescido em bom ritmo (em torno de 7%), os preços do produto no mercado internacional continuam abaixo dos registrados no mesmo período do ano anterior.

No setor de couro e calçados, as receitas com exportações apresentaram queda 8,1%, resultado da redução de 18,9% no volume exportado de calçados, com o valor das exportações de couro mantendo-se praticamente constante. Os setores cujas exportações apresentaram variação positiva no mês agosto em relação ao mesmo período de 2001 foram papel e celulose (39,8%), madeira (17,5%), sucos de frutas (65,7%), fumo (17,7%) e pescados (16,3%).

As importações do agronegócio em agosto alcançaram a cifra de US$ 358 milhões, cerca de 8,4% abaixo do valor registrado no mesmo período do ano anterior. Este montante representou 8,6% do total das importações brasileiras. Dentre os setores em que o Brasil é importador líquido, foram destaques os aumentos com as importações, em relação a agosto de 2001, de cereais (+4,8%), lácteos (+82,7%) e borracha natural (+28,3%).

José Batista Padilha Jr - Prof. da UFPr
e-mail: [email protected]

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