AGROMERCADO
SOJA
Preço instável
Os preços da soja ao produtor paranaense vêm registrando significativas oscilações nos últimos dias. Os principais motivos para este comportamento instável dos preços são: 1) significativas variações na taxa de câmbio do real frente ao dólar; 2) incertezas e especulações quanto ao futuro desenvolvimento das lavouras de soja nos Estados Unidos, em fase final de plantio; 3) fluxo instável das exportações brasileiras de soja e do ritmo de vendas por parte dos produtores e atacadistas; 4) postura demasiadamente cautelosa de gerentes de comercialização de empresas atacadistas na fixação de preços de balcão aos produtores rurais.
Os dois gráficos mostram, respectivamente, a evolução dos preços da soja em reais e em dólares por saca em vários níveis de mercado nos últimos dois meses para o Estado do Paraná. A linha superior indica o preço de venda da soja em Paranaguá na condição FOB (Free on Board), que significa condição livre a bordo, ou seja, posto no navio mais o valor do prêmio recebido pelo exportador sobre o valor da soja em Chicago. A segunda linha (pontilhada) indica as cotações da soja na Bolsa de Chicago para o contrato de primeira entrega (no caso atual, julho/02). A terceira linha (de cima para baixo) retrata o valor médio da soja em grão no mercado de lotes no Estado do Paraná divulgado pela Esalq/BM&F, que é o preço médio de venda das cooperativas, cerealistas, trandings, indústrias, entre outras empresas que atuam no atacado no Estado do Paraná. Por fim, a linha inferior representa o preço bruto oferecido ao produtor no mercado de balcão de uma importante cooperativa do Estado, do qual é deduzido o Funrural e outras taxas de comercialização.
Atacadistas ampliam margem de lucro
Pela evolução dos preços nos diferentes mercados indicados nos gráficos (últimos 60 dias) pode-se perceber os seguintes comportamentos que vêm influenciando a formação dos preços da soja ao produtor paranaense: 1) o valor do prêmio pago à soja brasileira em relação às cotações de Chicago ampliou-se significativamente nos últimos 30 dias, pois passou de aproximadamente zero no segundo decêndio de abril, para cerca de 20 centavos de dólar por saca ao longo de maio e, depois, para cerca de 70 centavos de dólar por saca no meado desta semana; 2) os preços da soja no mercado de lotes vêm acompanhando a valorização do prêmio pago à soja brasileira para exportação; e 3) os preços da soja aos produtores no mercado de balcão não vêm acompanhando, na mesma proporção, a valorização no mercado de lotes e para exportação, ampliando a margem de lucro dos atacadistas na comercialização do produto. Isso é fruto, principalmente, da postura demasiadamente cautelosa adotada por gerentes de comercialização na fixação de preços de balcão aos produtores, que adiam reajustes positivos de preços e antecipam reajustes negativos, com receio de reduzirem suas margens de lucro na venda da soja em momentos de preços instáveis como os atuais.
Na dúvida ou por desconhecimento do real comportamento do mercado não há pressão dos produtores sobre os gerentes e/ou empresas atacadistas diante dos critérios utilizados para a formação dos preços de balcão. Há que se rever no futuro essa sistemática de formação de preços da soja, quase sempre prejudicial aos produtores que recebem os preços de balcão; notadamente os pequenos e médios, pois os grandes vêm investindo nos últimos anos na construção de armazéns próprios para atuarem diretamente no mercado de lotes, que tem sido mais transparente e justo.
Há dois meses, por exemplo, a diferença de preços da soja FOB Paranaguá (mais prêmio) e ao produtor no mercado de balcão era de US$ 1,7 por saca (cerca de R$ 4 por saca). No meado desta semana a referida diferença passou a US$ 2,2 por saca (cerca de R$ 6 por saca), ampliando em 50% a margem de comercialização dos atacadistas.
José Roberto Canziani - Prof. da UFPr
e-mail: [email protected]
AGRONEGÓCIOS
Superávit comercial e importações em queda
O comportamento do agronegócio brasileiro reflete muito bem a atual conjuntura pela qual estamos passando. Por um lado, as cadeias produtivas agropecuárias nacionais continuam expandindo a sua produção apesar de toda a problemática do Custo Brasil, do impacto da Farm Bill americana, das barreiras comerciais existentes para os produtos nacionais, da falta de recursos para o financiamento da produção e comercialização, das constantes desvalorizações cambiais do real frente ao dólar americano e da não realização das reforma estruturais de base da economia (fiscal, tributária e trabalhista).
Mesmo com todos estes entraves, o setor agrícola cresceu mais de 4% em 2001, fazendo com que o PIB Brasileiro fosse positivo no período, mantendo com isto a importância da âncora verde na estabilização do Plano Real.
Apesar de todos estes esforços despendidos pelos vários setores do agronegócio, notamos uma certa miopia por parte das autoridades, que não conseguem ver a importância deste setor na inserção do Brasil no cenário mundial como o potencial maior produtor agropecuário do mundo.
Muitos dos países que atualmente são desenvolvidos, partiram de uma agropecuária forte e com excedentes de produção exportáveis para depois reinvestirem e desenvolverem a indústria e o comércio como um todo. No Brasil, parece que esquecemos disto, o agronegócio, apesar de ser o maior negócio da economia nacional e mundial, está ficando em segundo plano. Se o agronegócio brasileiro fosse visto com bons olhos pelas autoridades, teríamos muito mais participação no mercado mundial, venderíamos muito mais que o atual nível, geraríamos receitas cambiais superiores às atuais, teríamos maiores reservas cambiais, garantiríamos a segurança agroalimentar da população brasileira (30% dos brasileiros passam fome atualmente), movimentaríamos muito mais a atual economia (que está estagnada), geraríamos mais empregos, distribuiríamos melhor a renda nacional e não sentiríamos tão pesadamente as crises (Argentina, Tigres Asiáticos, Rússia, etc.) mundiais como agora.
Depois de todos estes comentários, vale a pena pensar no seguinte: Investir no agronegócio nacional é a mesma coisa que alavancar para cima toda a economia brasileira.
A balança comercial do agronegócio
Analisando-se os resultados da balança comercial do agronegócio brasileiro em maio, notamos que a mesma apresentou superávit comercial de US$ 1,39 bilhão, resultado de exportações de US$ 1,73 bilhão e importações da ordem de US$ 337 milhões, conforme pode ser observado na tabela. A participação dos produtos do agronegócio na pauta de exportações representou 38,9% do total arrecadado no mês de maio (US$ 4,44 bilhões).
As exportações apresentaram uma queda de 21,1% com relação a maio de 2001, principalmente devido ao retardamento nos embarques de algumas commodities, motivados pela expectativa de melhores preços a partir de agora em junho.
Na comparação com abril/2002 as exportações registraram redução de 3,9% e as importações de 13,4%, sendo que o saldo apresentou redução de 1,2%.
No caso do complexo soja, principal produto da pauta de exportações brasileiras, verificou-se queda na receita em relação ao mesmo mês do ano anterior da ordem de 47,8% nas exportações de soja em grãos (US$ 416 milhões para US$ 217 milhões) e de 45,9% nas de farelo (de US$ 200 milhões para US$ 108 milhões). O óleo de soja apresentou um acréscimo de 11,5% (de US$ 36 milhões para US$ 41 milhões).
No complexo carnes, após a crise da vaca louca e da aftosa, observou-se uma crescente recuperação da produção de carne bovina tanto na Europa como na Argentina, cujo reflexo foi o enfraquecimento dos preços no mercado internacional, fator este que reduziu as receitas cambiais com as vendas externas de carne bovina in natura (-11,8%, de US$ 63 milhões para US$ 56 milhões) e como a de frango in natura (-33,9%, de US$ 121 milhões para US$ 80 milhões). O volume total de carnes embarcado foi 1,7% inferior a maio passado, com redução mais significativa na carne de frango, cujo volume ficou 14,7% abaixo dos excelentes resultados que caracterizaram o ano anterior, mas com crescimento de 57,8% no caso da carne suína.
Nos demais setores do agronegócio, observou-se o seguinte: No setor de fumo e tabaco, o mês apresentou resultados bastante favoráveis, com ampliação de 59,8% nas receitas cambiais (de US$ 102 milhões para US$ 164 milhões), no de frutas frescas (+32,8%, de US$ 11 milhões para US$ 15 milhões) e no de pescados (+28,1%, de US$ 27 milhões para US$ 35 milhões).
As importações do agronegócio continuam em retração basicamente causadas pela queda de 11,9% no poder aquisitivo dos brasileiros nos últimos quatro anos, pelo aumento de 5% ao ano da pobreza no País, pelo endividamento das pessoas que faz com que a demanda interna permaneça reprimida e pelo crescimento da produção brasileira de grãos. Os gastos totais para o mês ficaram 22,4% abaixo do verificado em igual período do ano anterior e 38,3 % em relação à média observada nos últimos cinco anos para o mês de maio, e representaram apenas 8,3 % dos US$ 4,02 bilhões gastos pelo Brasil. Os destaques ficaram por conta do algodão (-42,2%, de US$ 14 milhões para US$ 8 milhões) e trigo (- 38,2 %, de US$ 92 milhões para US$ 57 milhões).
João Batista Padilha Junior - Prof. da UFPr
e-mail: [email protected]





