AGROMERCADO
SOJA
Retenção de vendas valoriza preço ao produtor
O maior escalonamento das vendas de soja este ano por parte dos produtores nacionais tem permitido uma valorização da soja brasileira no mercado internacional (relativamente às cotações na Bolsa de Chicago) e também levado à redução na diferença entre os preços no mercado de lotes e ao produtor. O período de entressafra nos Estados Unidos e as dificuldades econômicas na Argentina também têm contribuído para a valorização da soja brasileira no mercado internacional nas últimas semanas. O Brasil é o país com maior potencial para abastecer o mercado mundial nesta época do ano, mas o comportamento dos produtores tem dificultado o escoamento mais rápido da safra recorde nacional, induzindo exportadores a reduzirem suas margens de lucros para garantir a compra da matéria-prima junto aos produtores.
A retenção de vendas por parte dos produtores é evidenciada na estimativa do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria da Agricultura do Paraná, que indica que até a primeira semana de maio apenas 38% da soja teria sido comercializada pelos produtores paranaenses, contra um percentual médio de aproximadamente 45% nos dois anos anteriores.
A mudança nas margens de comercialização entre os agentes no mercado da soja pode ser visualizada na tabela. Comparando-se o preço médio em dólar da primeira quinzena de maio deste ano contra o valor no mesmo período do ano passado, observa-se um aumento de preços da ordem de 4,8% em Chicago, 18% no mercado de lotes no Paraná e de 23,3% nos preços ao produtor paranaense. Os valores são apresentados na tabela, tanto em reais quanto em dólar, além da taxa de câmbio e das variações relativas entre os anos de 2000 a 2002. Além disso, a tabela também permite visualizar a relação dos preços da soja entre os mercados, representados pela Bolsa de Chicago, mercado de lotes no Brasil (indicador ESALQ/BM&F, que é uma média de preços praticados no Paraná) e mercado de balcão (preços ao produtor no Paraná).
Os dados da tabela mostram que o preço ao produtor paranaense subiu, relativamente, mais do que no mercado de lotes do Estado. Este comportamento tem sido atribuído, em 2002, à estratégia de comercialização escalonada por parte dos produtores rurais, que consiste em vender a produção de forma mais parcelada ao longo dos meses e não concentrá-la no período de safra como ocorre em alguns anos. Observe na tabela que, na primeira quinzena de maio de 2000, o preço da soja no mercado de lotes (segundo o indicador ESALQ/BM&F) foi 12,1% superior ao preço recebido pelo produtor no mercado de balcão. Em 2001, esta diferença foi de 13,4% mas agora em 2002 caiu para 8,5%. Em termos absolutos, a diferença entre os preços nos mercados de lotes e balcão caiu de 1,17 dólares por saca em 2000, para 0,98 em 2001 e para 0,77 dólares por saca em 2002. A redução dessa margem de comercialização é decididamente uma estratégia dos atacadistas (cooperativas, indústrias, cerealistas) para incentivar a venda imediata pelos produtores. Pelo menos por enquanto, a estratégia tem favorecido os produtores rurais. A indústria, no entanto, tem se favorecido pelas maiores margens de lucro no processamento da soja em 2002, em função dos melhores preços do farelo e do óleo de soja no mercado internacional em relação aos preços do grão.
Neste ano pode-se perceber também uma progressiva aproximação dos preços no mercado de lotes no Paraná e na Bolsa de Chicago, indicada no gráfico, que também reforça a idéia de maior dificuldade ou morosidade de comercialização da safra nacional 2001/2002. Em março deste ano, a diferença de preços entre a bolsa de Chicago e o indicador era de US$ 1,08/saca, caindo para US$ 0,52/saca nesta primeira quinzena de maio.
A perspectiva do mercado, porém, é incerta para os próximos meses. O bom ou mau desenvolvimento da safra norte americana 2002/2003, em fase de plantio, é a principal variável que deve determinar os rumos do mercado nos próximos meses.
José Roberto Canziani - Prof da UFPR
E-mail: [email protected]
BOI GORDO
Chuvas reduzem oferta e elevam preços
As chuvas das últimas duas semanas em quase todas as regiões produtoras do Centro-Sul do País geraram certo alívio para a situação das pastagens nas propriedades de pecuária. Isto interrompeu o processo de descarte de animais prontos para o abate aos frigoríficos, que vinha ocorrendo desde a segunda quinzena de abril, e permitiu uma certa recuperação dos preços do boi gordo nesta semana.
Até a semana passada, prevalecia a estratégia dos produtores de abater rapidamente os animais prontos para abate sob o risco de perda de peso em função da seca, tendo em vista a progressiva piora da qualidade das pastagens, o que, inclusive, é normal nesta época do ano. As chuvas, no entanto, trouxeram alívio temporário, mas não o suficiente para garantir uma elevação sustentável dos preços no curto prazo. Isto significa que os preços de mercado devem continuar oscilando próximos aos atuais níveis de preços nas próximas semanas.
O gráfico apresenta a evolução do preço médio semanal do boi gordo ao produtor paranaense desde o início do ano até esta semana. Ele mostra que as cotações do boi gordo, que haviam caído de R$ 44/arroba em meados de março para a faixa de R$ 41/arroba no final de abril e início de maio, retornaram à casa dos R$ 42/arroba nesta semana.
No mercado futuro, os negócios indicam que maiores aumentos de preços só devem ocorrer a partir de julho. Na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F), o contrato do boi gordo para entrega em julho estava cotado, em meados desta semana, a R$ 44,31/arroba. Já o contrato para entrega em setembro foi cotado a R$ 46,10/arroba e o de novembro a R$ 47,20/arroba. Se considerada a cotação do boi gordo na BM&F para o final de maio (R$ 42,42/arroba), o mercado futuro está projetando um aumento para o preço da arroba de 11,3% nos próximos seis meses.
Neste sentido, a estratégia de comercialização para os próximos meses deve levar em consideração fatores zootécnicos e de nutrição animal, que variam de propriedade para propriedade e que são funções da quantidade e qualidade dos alimentos disponíveis em cada situação, resultando em perspectivas mais ou menos seguras de ganho ou perda de peso dos animais durante o inverno que se aproxima.
José Roberto Canziani - Prof da UFPR
E-mail: [email protected]





