AGROMERCADO
M I L H O
AUMENTA A SUBSTITUIÇÃO DE MILHO POR SOJA NO PARANÁ
O último levantamento de intenção de plantio da safra de verão no Paraná, divulgado esta semana pelo DERAL estima a área a ser plantada com milho em 1,49 milhão de hectares, redução de 20,3% em relação aos 1,87 milhão de hectares plantados no ano passado.
Com cerca de 68% da área já plantada, a estimativa da área a ser ocupada com milho reduziu em mais 60 mil hectares, comparada à estimativa do mês passado. Agora, pouco mais de 380 mil hectares deixarão de ser cultivados com milho no Paraná.
Ao mesmo tempo, a estimativa para a área a ser ocupada com soja cresceu perto de 40 mil hectares, estimada agora em 3,14 milhões de hectares, 339 mil hectares a mais do que na safra passada, que já foi uma área recorde para a cultura no Estado. Conclusão, os produtores voltaram a aumentar a proporção da área plantada com soja em detrimento do milho, seu maior concorrente em área.
Para qualquer outro produto esta decisão teria conclusão certa: quem ficou no milho vai ganhar mais do que aqueles que fizeram uma maior substituição do milho pela soja. Mas o fato é que a decisão dos produtores é altamente lógica por uma razão principal: as vendas antecipadas da soja, garantindo preço para a produção do próximo ano.
A grande (enorme) desvantagem do milho frente à soja são as alternativas de comercialização. Essas alternativas são mais amplas na soja incluindo a pré-fixação de preços que não se consegue em larga escala para o milho. O correto é: a produção de milho vai reduzir, a de soja vai crescer e os preços devem subir para milho e cair para soja. O detalhe é que o plantio da soja com preço definido é um ótimo negócio.
Portanto se o setor de carnes tem qualquer intenção real de evitar as grandes flutuações de preço do milho deve tratar de criar mecanismos de venda antecipada eficientes para o grão. De outra forma, o comportamento de sobe/desce vai ficar assim por longo tempo. O mercado de milho precisa amadurecer novos mecanismos. Está mais do que na hora.
Preços e estoques
Na semana o preço médio ao produtor subiu 10 centavos, continuando a remunerar quem formou estoques. O gráfico apresenta a rentabilidade da estocagem, em percentual, para três diferentes taxas de juros, representando três situações para o custo do capital utilizado na formação de estoques.
Quem fez estoques de milho tendo como alternativa (ou custo) uma aplicação com juros nominais de 1% ao mês, e guardou o milho de março até agora, teve rentabilidade de 24,13% até o mês de outubro (lembrando que estão sendo comparados preços médios nos dois meses).
Para quem financiou estoques com um custo de capital de 3% ao mês, a estocagem de milho ainda deu dinheiro, rendendo 8,4% no período analisado. Por outro lado, se o custo do capital chegar a 5% ao mês, a coisa muda de figura e a conclusão é: produtores que evitaram vender o milho mas tinham dívidas com juros na faixa de 5% ao mês ou perderam aplicações com este rendimento não fizeram bom negócio guardando milho.
As chances de bancar estoques com juros de 5% ao mês ou mais são pequenas pois são taxas muito altas. Assim, quero crer que grande parte dos leitores que fizeram estoques, se deram bem este ano.
Vania Di Addario Guimarães - Prof da UFPr
e-mail: [email protected]
PANORAMA DO SETOR DE ARMAZENAGEM
Dentro do agronegócio brasileiro, o setor de comercialização vem a ser o responsável pela transferência do produto agropecuário desde os mais longínquos locais de produção até o consumidor final. Este processo dinâmico de agregação de valores resulta da utilização de um conjunto de serviços como a armazenagem, o transporte, a padronização, o processamento, o marketing e muitos outros.
O setor de armazenagem neste contexto está diretamente ligado ao comportamento sazonal da produção auxiliando sobremaneira à formação de preços, reduzindo a variabilidade dos mesmos ao longo do ano e permitindo manter a oferta ajustada a demanda. No Brasil, a impossibilidade de guardar a produção, devido a falta de local e condições necessárias para a manutenção e conservação da produção é bastante contundente e desta forma exclui o produtor rural de poder participar das etapas mais lucrativas do processo de comercialização.
Atualmente, os 4,8 milhões de propriedades agrícolas brasileiras se deparam com um sistema de comercialização bastante deficiente, incompleto e sem um programa de planejamento estratégico integrado para que todas as etapas do processo de comercialização ocorram de uma maneira organizada e sincronizada. Para piorar a situação, apenas 5% das propriedades rurais brasileiras (cerca de 240 mil) possuem algum tipo de sistema de armazenagem contra 62% nos Estados Unidos, 35% na Argentina e 30% na França, gerando com isto elevadas perdas pós-colheita, grande oferta de produção na época da colheita com respectivo preço baixo, baixa perspectiva de remuneração (renda) ao produtor e perda de competitividade no agronegócio.
O surgimento da CONAB (Companhia Nacional do Abastecimento) representou um passo importante na racionalização da estrutura do Governo Federal, pois se originou da fusão de três empresas públicas, a Companhia Brasileira de Alimentos (COBAL), Companhia de Financiamento da Produção (CFP), a Companhia Brasileira de Armazenamento (CIBRAZEM), que atuavam em áreas distintas e complementares, quais sejam, fomento à produção agrícola, armazenagem e abastecimento respectivamente.
A CONAB é a agência oficial do Governo Federal, encarregada de gerir as políticas agrícolas e de abastecimento, visando assegurar o atendimento das necessidades básicas da sociedade, preservando e estimulando os mecanismos de mercado, além disto, mantém o sistema de cadastramento de armazéns no País.
A capacidade estática dos armazéns brasileiros
Atualmente a capacidade estática dos armazéns brasileiros é de 88,93 milhões de toneladas em 13.808 unidades armazenadoras. Desse total, 25,7 milhões de toneladas se referem aos armazéns convencionais (produto ensacado) num total de 7.415 unidades. O restante da capacidade de armazenagem advém dos armazéns graneleiros (produto à granel) que respondem por 63,2 milhões de toneladas em 6.393 unidades armazenadoras.
Assim, 71,1% da capacidade estática do Brasil corresponde aos armazéns graneleiros enquanto que os 28,9% restantes referem-se aos armazéns convencionais conforme pode ser visto na tabela 1.
Tabela 1 - Número e capacidade estática dos armazéns cadastrados pela CONAB por espécie e região, Brasil, 2001 (em milhões de toneladas).
Região/
armazém convencional granel total
número capacidade número capacidade número capacidade
Norte 361 1,18 46 0,37 407 1,54
Nordeste 781 2,10 199 2,18 980 4,28
Centro-Oeste 1.324 6,24 1.378 22,13 2.702 28,37
Sudeste 1,577 8,04 581 7,27 2.158 15,32
Sul 3.372 8,12 4.189 31,29 7.561 39,42
Total Brasil 7.415 25,69 6.393 63,24 13.808 88,93
Fonte: CONAB/GEARM/EATAR, Agromarket com cálculos do autor.
O sistema de armazenagem nacional está subdimensionado e poderá vir a se tornar um sério problema (gargalo) ao desenvolvimento e expansão do agronegócio nacional. Para se ter idéia do fato a produção brasileira de cereais e oleaginosas na safra 2000/2001 foi de aproximadamente 98 milhões de toneladas, o que já supera em mais de 9 milhões de toneladas a atual capacidade de armazenagem disponível.
Quando analisamos pelo aspecto da expansão da produção prevista para a safra 2001/2002 que se aproxima, a situação tende a se tornar mais séria ainda. Vejamos, de acordo com o primeiro levantamento de safra efetuado em outubro pela CONAB: projeta-se uma produção entre 97,8 e 100,3 milhões de toneladas, com crescimento de 2,1 à 4,3% na área plantada, que deve ficar entre 38,3 à 39,2 milhões de hectares. De acordo com esses dados iniciais e, conhecendo-se a atual capacidade estática brasileira, pode-se prever sérios problemas com a logística da comercialização da produção, principalmente nos períodos de colheita e pós-colheita.
As distorções do setor de armazenagem
No Brasil, a relação produção/armazenagem na safra 2000/2001 foi de 1,10, ou seja, a produção supera em 9,26% a capacidade estática total, enquanto que os Estados Unidos possuem uma capacidade estática 2,5 vezes superior a sua produção agrícola que é de aproximadamente 420 milhões de toneladas anuais.
Em termos regionais, os problemas de armazenagem tornam-se maiores ainda, pois, existe uma precária distribuição geográfica dos armazéns (concentração regional), péssimo estado de conservação da unidades armazenadoras e carência de armazéns e silos nas propriedades rurais.
No cômputo geral, a Região Sul possui disparado a maior e a melhor capacidade estática do Brasil. São 7.561 unidades armazenadoras com uma capacidade de armazenagem de 39,4 milhões de toneladas, o que representa 44,3% da capacidade estática nacional total. Da capacidade estática total da Região Sul, 79,4% (31,3 milhões de toneladas) correspondem aos armazéns graneleiros enquanto que os 20,6% (8,12 milhões de toneladas) restantes são devidos aos armazéns convencionais.
Em contrapartida a esta situação vivida pela Região Sul, encontra-se a Região Norte com a pior capacidade estática. São apenas 407 unidades armazenadoras com uma capacidade de armazenagem de 1,54 milhão de toneladas.
Assim, diante dos fatos expostos acima pergunta-se: Aonde vamos guardar a ''supersafra'' do Brasil este ano? Como poderemos evitar que os portos, as cooperativas e o sistema de transporte, responsáveis pelo escoamento da produção, não entrem em colapso pela falta armazenagem e necessidade de comercializar rapidamente a produção?
Expandir a produção agropecuária como um todo é fundamental para a decolagem do agronegócio nacional, mas, precisamos lembrar da necessidade premente da melhoria de toda a infra-estrutura de comercialização (armazenagem, transporte, portos, etc.), caso contrário, jamais teremos condições de competir em igualdade neste mundo cada vez mais globalizado e desigual.
João Batista Padilha Junior - Prof da UFPr
e-mail: [email protected]





