AGROMERCADO
M I L H O
A POLÍTICA AMERICANA E O BRASIL
O ''lobby'' agrícola no Congresso americano surpreendeu o mundo com a proposta de virada da política de preços agrícolas naquele país. O FarmAct de 1996 (em vigor) pregava a redução paulatina dos subsídios de preço e controle de produção nos Estados Unidos. A política de preços americana, em termos gerais, era composta de dois grandes elementos: o target price (preço meta = preço mínimo) acompanhado do set aside (agricultor recebia pela área que deixava de plantar). O controle da área sempre impediu que a produção agrícola americana crescesse junto com o preço mínimo. Na nova proposta, o preço mínimo se mantém, mas não há mais controle de área. Que efeitos teria sobre o Brasil uma política com este formato nos Estados Unidos?
Sem controle da área plantada (produtor planta quanto quiser) e com preço mínimo garantido, a produção americana vai crescer. Quanto maior o preço mínimo em relação ao preço de mercado, mais a produção americana cresce. Aparentemente, o maior apoio será dado à soja. Se isto acontecer, a produção americana cresce e, pela sua importância no mercado mundial, vai reduzir os preços internacionais.
Relação soja/milho
Com preços de exportação mais baixos, o reflexo sobre os preços e produção de soja no Brasil tendem a ser imediatos. A soja é hoje a grande lavoura brasileira e a maior concorrente em área com o milho. A relação de preços soja/milho influencia bastante as decisões dos produtores brasileiros, especialmente nas regiões sul e sudeste do país (a parcela do milho em relação à soja no Centro-Oeste é hoje bem menor do que nestas outras regiões).
Observe no gráfico o comportamento da relação soja/milho em cada ano safra e a área plantada com milho no ano safra seguinte. Observe que quando a relação diminui (milho valoriza frente à soja) a área plantada de milho cresce e o inverso também ocorre. No ano passado, por exemplo, a relação média do ano foi de 1,57 (uma saca de soja valendo 1,57 sacas de milho), a área plantada para a safra 00/01 cresceu. A observação de cada ano safra vai mostrar a ligação entre os preços relativos dos dois produtos e a área plantada com milho. Para a safra 01/02 é mais do que esperada a redução na área, já indicada pela relação atual favorável à soja.
Se o reflexo dos preços internacionais da nova política americana (quando em vigor) for negativo para a soja como se espera, haverá uma valorização relativa do milho cuja área tenderia a crescer. Isto é bom ou ruim? É preocupante, pois para milho o Brasil não tem a mesma competitividade de custo de produção como tem na soja. Uma maior produção de milho (como este ano) viabiliza as exportações porque os preços caem muito.
Um excesso de produção brasileira será positivo se os preços internacionais não estiverem tão baixos quanto este ano (esta análise foi apresentada algumas semanas atrás). Se o subsídio ao milho nos Estados Unidos também for eficaz a ponto de aumentar a produção americana e reduzir os preços internacionais vai ser difícil o milho brasileiro ser competitivo com as características atuais de produção.
Como sempre, haverá produtores com produtividade e custo suficiente para exportar. Mas, do ponto de vista atual, não se pode esperar que tais produtores sejam em grande número. Quem sabe, uma situação como esta pode levar a uma revolução tecnológica na produção brasileira, especialmente se liberarem o milho trangênico.
Subsídio de preço afeta todo mundo
O pior tipo de subsídio é o de preço, porque leva ao aumento de produção e reduz os preços internacionais sempre que o país subsidiado é importante no cenário mundial, como é o caso dos Estados Unidos, e os mercados de grãos. O mesmo já ocorre com o leite na União Européia que também tem preço mínimo (com valores de máximo para dizer a verdade) e o efeito é o aumento ou manutenção da produção européia em patamares elevados. O resultado é um grande estoque de leite em pó que volta e meia (ou sempre) se destina aos demais países (com subsídio) reduzindo os preços mundiais. Por isso, todos os demais países produtores vão sofrer os efeitos da política americana. Trocando em miúdos, é hora de comprar briga.
As negociações na OMC ganham cada vez mais importância, especialmente com esta mudança na posição interna americana. Não há como defender esta posição diante de uma agenda de redução de subsídios. Ou todos têm subsídio ou ninguém tem. Se a opção for por subsídio o Brasil tem a clara desvantagem de que o caixa do governo está muito distante de ter o mesmo poder de fogo do que o caixa americano (e europeu). Algo no ar sinaliza tempos difíceis nos próximos anos para os negociadores brasileiros. Em tempo, o PEP não deixa de ser subsídio de preço e pode entrar na mira de fogo de eventuais negociações.
Na semana
Os preços de milho vem mantendo a tendência de alta iniciada em final de abril. Esta semana a média estadual atingiu R$ 9,30/sc, alta de 2,2% na semana. Entre final de abril e esta semana o preço no milho no Paraná acumula alta de 28,3% em reais e 15,14% em dólar. No mesmo período, a cotação do milho na Bolsa de Chicago teve alta de 11%, em média (dependendo do vencimento).
Menos mal que a colheita da safrinha no Paraná esteja ocorrendo sob os auspícios de preços em alta. Até a semana passada, perto de 40% da área estava colhida. A estimativa do Deral é que a produção da safrinha fique entre 2,79 e 3 milhões de toneladas.
Vania Di Addario Guimarães - Prof da UFPr
E-mail: [email protected]
F E I J Ã O
ÁREA AUMENTA COM PREÇOS MELHORES
Depois do fraco desempenho do feijão no ano passado e no primeiro semestre deste ano havia a possibilidade de que a área plantada na safra das águas voltasse a reduzir no Paraná. Os primeiros números de intenção de plantio, obtidos pelo Deral, mostram a disposição dos produtores paranaenses em ampliar a área com a cultura nesta safra 01/02.
Por enquanto a estimativa de área é de 371,9 mil hectares, 15,4% a mais do que no ano passado, mas ainda abaixo dos 449 mil hectares plantados no ano anterior. Ao lado da soja, o feijão das águas é a única cultura a apresentar aumento de área (pretendido) dentre as principais lavouras para a próxima safra. Algodão, arroz, amendoim e milho devem ocupar áreas menores este ano. Até a primeira semana de agosto menos de 5% da área pretendida para feijão estava efetivamente plantada. A pesquisa de área e plantio de agosto deve trazer números mais firmes para a situação da cultura. A falta de chuvas tem atrapalhado o plantio principalmente na região sudoeste do Estado, enquanto que a principal região produtora, a Região Centro-Sul, aguarda a época mais indicada (inicia-se em setembro) para começar os trabalhos.
Preços
O preço do feijão carioca, cotado em torno de R$ 65,00 a saca nesta semana, continua em alta no Paraná e acumula uma valorização de mais de 45% nos últimos 30 dias. Em relação ao mesmo período do ano passado a cotação atual praticamente dobrou e está 80% acima se considerarmos a média dos últimos cinco anos. No feijão preto o aumento fica próximo dos 18% nos últimos 30 dias. Se compararmos com as cotações do produto na mesma época de 2000 os preços saltaram de uma média R$ 27,00 a saca para cerca de R$ 75,00, ou seja, praticamente triplicaram. Em relação a média histórica, de cinco anos de acompanhamento, as cotações atuais do feijão preto estão mais de 130% acima. Esta situação explica grande parte dos primeiros números da intenção de plantio no Estado.
Francisco C. Guimarães
E-mail: [email protected]
S U Í N O
PIORA A RELAÇÃO DE TROCAS
A relação de trocas vem a ser um importante indicador da situação de capitalização ou descapitalização, que determinado produto do agronegócio nacional apresenta em relação ao principal insumo utilizado na sua produção. No caso da suinocultura, o milho é um insumo fundamental no processo produtivo, sendo responsável por cerca de 70% dos custos totais de produção. Diante disto, realizou-se um estudo com base em dados deflacionados pelo IGP-DI que geraram as relações reais de trocas para o período analisado, conforme pode ser observado na tabela.
TABELA - ANALISE COMPARATIVA DOS PREÇOS REAIS DO SUÍNO, DO MILHO E A RELAÇÃO REAL DE TROCAS ENTRE A SACA DE MILHO E O QUILOGRAMA DO SUÍNO NO PARANÁ, 2001.
item/mês janeiro fevereiro março abril maio junho julho agosto Média do período
Preço real do kg suíno 1,31 1,15 1,14 1,29 1,26 1,25 1,27 1,26 1,24
Preço real da saca de 60 kg do milho 8,49 7,74 7,48 7,47 7,59 7,90 8,40 9,09 8,02
Relação de trocas entre milho versus suíno 6,48 6,73 6,56 5,79 6,02 6,32 6,61 7,21 6,47
Fonte: Agromarket com cálculos do autor para o mês de agosto de 2001.
A relação de trocas entre janeiro e agosto
O mercado paranaense da carne suína iniciou o ano com boas perspectivas onde o quilograma do produto era comercializado na média de R$ 1,31. Passada esta fase, a cotação desvalorizou-se 12,9% atingindo o preço mais baixo do período em março (R$ 1,14). Posteriormente, observou-se reação positiva de 13,2% da mesma em abril, com a cotação valendo R$ 1,29. Nos meses seguintes, registrou-se várias oscilações de preço com tendência de baixa e, desta forma, o quilograma da carne suína atingiu na média de agosto a cotação R$ 1,26 nas principais praças paranaenses.
O mercado do milho apresentou entre janeiro e março a mesma tendência de queda de preço registrada no mercado suíno, com a cotação da saca de milho reduzindo 11,9% no período. Em abril, registrou-se novamente queda na cotação do milho, enquanto o preço do quilograma suíno fortalecia-se no mercado. A partir de maio, observou-se um incremento positivo na cotação do milho, que variou dos R$ 7,59 para os R$ 9,09 em agosto, registrando ganho 19,8% no período.
No caso das relações de trocas, em janeiro, um suinocultor precisava vender aproximadamente 6,48 quilogramas de carne para comprar uma saca de milho, relação esta que permaneceu estável no meses seguintes até atingir em abril a situação mais favorável ao suinocultor em todo o período analisado (5,79 quilogramas de carne por saca de milho). De abril a agosto, a relação de trocas piorou 24,5% para os produtores, principalmente pelo enfraquecimento das cotações da carne suína e elevação dos preços da saca de milho no Paraná.
Assim, conclui-se que apesar do mercado estar bastante abastecido de milho e a cotação média ter variado 7,1% no período janeiro-agosto no Paraná, o preço da carne suína apresentou retração de 3,8% , o que caracterizou certa desvantagem na relação de trocas para o lado dos suinocultores.
Na semana, o suíno
O mercado suíno continuou sentindo esta semana o reflexo negativo da redução dos embarques internacionais para nossos principais mercados compradores. Desta forma observou-se reflexo negativo sobre as cotações no mercado paranaense.
O preço médio do suíno vivo, negociado no Paraná apresentou uma retração da ordem de 0,8% em relação a cotação observada na semana passada, com o quilograma sendo comercializado a R$ 1,24 nas principais praças do Estado. Quando comparada esta cotação com o preço médio de julho (R$ 1,27) observa-se uma retração de 2,4% na mesma e, quando relacionada com o preço médio nominal praticado no mesmo período do ano passado (agosto), notamos um incremento da ordem de 5,1% nas cotações.
João Batista Padilha Junior - Prof da UFPR
e-mail: [email protected]





