AGROMERCADO
T R I G O
Outro acordo de intenções
Saiu agora em junho outro acordo de intenções entre o governo e a indústria moageira de trigo para a aquisição, por parte das indústrias, da produção nacional. Segundo foi relatado, o acordo consiste em a indústria se comprometer a adquirir a produção e o governo se comprometer a garantir recursos para a comercialização da safra nacional, além de estabelecer o pagamento, ao produtor brasileiro, do valor equivalente ao preço de compra do trigo argentino, principal fornecedor do Brasil.
Não ficou claro como o preço equivalente ao argentino será exatamente calculado. Os termos gerais do acordo não parecem em nada diferentes da política de preços agrícolas que o Brasil adotou em 1996. A nova política consiste garantir um preço mínimo aos produtores rurais sem que o governo tenha de formar estoques.
PEP: um instrumento de subsídio
Os dois instrumentos desta política são o Prêmio para Escoamento de Produto (PEP) e os Contratos de Opção de Venda. O PEP garante o preço mínimo ao produtor e, provavelmente, os termos do acordo na realidade signifiquem que o governo irá disponibilizar recursos suficientes para garantir o subsídio aos produtores de trigo. Os moinhos continuam pagando o preço de mercado e nada a mais pelo produto.
Garantindo ao produtor a paridade com o produto argentino (resta saber, novamente, como este valor será calculado), equivale a estabelecer o preço mínimo na paridade de importação (ao que parece). Neste caso, não há prejuízo nenhum ao moinho que paga pelo produto interno o mesmo pelo externo. Para quem este acordo faz diferença?
Produtor ganha
O maior beneficiado desta política, se for mesmo implementada, é o produtor nacional. Em países que subsidiam seus produtores, as iniciativas frequentemente resultaram em aumentos significativos de produção interna, o que parece ser a meta do governo (ao menos na intenção).
Implementando para valer este subsídio, o efeito esperado é o aumento da produção interna. A manutenção do preço de garantia ao produtor igual ao do produto importado pode mesmo levar o Brasil à autosuficiência (dependendo de como vai ser realmente calculada esta paridade, é bom que se diga).
Por outro lado, quem pode não gostar muito desta história é a Argentina, que poderia perder parte importante do seu maior mercado: o Brasil. Também não há como disfarçar o fato de que PEP é uma forma clara de subsídio à produção nacional.
Como se sabe, o mundo de hoje vive um momento de globalização, abertura de fronteiras e muita discussão sobre os subsídios concedidos pelos governos do mundo inteiro a seus produtores, especialmente na agricultura.
Estas brigas deságuam na Organização Mundial do Comércio (OMC). É onde chegam as disputas entre países, inclusive aquela entre Brasil e Canadá. Não seria de espantar que, implementando a política, os argentinos venham a reclamar do Brasil e tentar impedir a implementação de tal política. Em resumo, a política pode enfrentar problemas para ser implementada mesmo colocando o produto na paridade com o importado do país vizinho. Continua sendo subsídio.
O Brasil já tem o exemplo, para um produto, de que esta política pode mesmo aumentar a produção interna e, até, tornar o país exportador, dependendo dos valores relativos entre preço mínimo e paridade de exportação/importação. É o que está acontecendo com o algodão no Centro-Oeste do País. Produtores, aproveitem a oportunidade que está para ser dada ao trigo.
Safra
A área plantada estimada de quase 800 mil hectares de trigo está praticamente encerrada no Estado, restando algo em torno de 5% da área ainda a ser cultivada, com relação ao estágio que se encontra a cultura. Segundo as informações da SEAB/DERAL, a maior parte ainda se encontra na fase de desenvolvimento, sendo que as condições das lavouras são consideradas boas em mais de 90% e médias um pouco menos de 10%.
Da mesma forma, no Estado do Rio Grande do Sul, o segundo produtor nacional, o plantio do trigo avança rapidamente com cerca de 90% da área estimada, um pouco acima da média histórica (5 anos) que é de 86%. As informações da assistência técnica oficial daquele estado dão conta que o clima tem favorecido tanto o plantio como o desenvolvimento da cultura.
Na Argentina, o plantio cobre perto de 40% dos 7,15 milhões de hectares que devem ser plantados este ano. É a quarta maior área já plantada naquele país.
Francisco C. Guimarães
e-mail: [email protected] U Í N O S
O Desequilíbrio na Cadeia Produtiva
Conforme já comentado em outras edições, o conceito de agronegócios vem a ser a soma total das operações de produção e distribuição de suprimentos agropecuários, das operações de produção nas unidades agropecuárias (propriedades rurais), do armazenamento, processamento, transporte e da distribuição dos produtos agropecuários e itens produzidos a partir deles bem como todo o encaminhamento necessário para que o produto final chegue ao consumidor na forma, no tempo e qualidade desejados. Assim, o agronegócio brasileiro é composto por várias cadeias produtivas e dentre elas, a cadeia produtiva da suinocultura de corte.
Nesta visão sistêmica que o agronegócio proporciona à agropecuária, existem, logicamente, muitas distorções e uma das principais consiste no fato de que os setores localizados antes da porteira das propriedades rurais possuem um elevado grau de estruturação, ou seja, concentram nas mãos de poucas empresas a distribuição e a venda dos insumos no mercado, formando o seu preço e cobrando elevados markups dos produtores.
Nos setores localizados depois da porteira da propriedade rural, a situação não é diferente, existindo também poucas empresas que adquirem a matéria-prima do produtor, pagando muitas vezes preços abaixo dos cotados pelo mercado. Diante desta situação, nota-se que a agropecuária brasileira sofre de uma constante dupla pressão tanto dos setores localizados antes da porteira quanto dos depois da porteira das propriedades, ocasionando com isto uma acentuada perda de competitividade.
No caso da suinocultura de corte, caracterizam-se na cadeia produtiva dois tipos de produtores, os integrados e os produtores independentes. Os produtores integrados trabalham num sistema de contratos de integração vertical com as indústrias, recebendo insumos, animais, assistência técnica, transferência de tecnologia e aquisição garantida dos animais produzidos, recebendo com isto o preço formado pela indústria, que, normalmente, é mais baixo que o de mercado, originando com isto a primeira distorção desta importante cadeia produtiva do agronegócio nacional.
A indústria, de posse da matéria-prima, vai realizando várias transformações, diferenciações e agregações de valor ao produto antes de repassá-lo aos outros agentes da cadeia (atacado e varejo), que darão encaminhamento para que os produtos finais cheguem aos consumidores. Neste caminho percorrido pelos derivados da carne suína, em sentido ao consumidor, origina-se a segunda distorção desta cadeia, ou seja, a falta de divisão dos lucros da comercialização com os elos mais fracos da cadeia - os produtores rurais. Neste aspecto, cerca de 30% da lucratividade fica para remunerar o produtor, enquanto que os 70% restantes ficam com os agentes de industrialização e comercialização.
O Plano Real e a cadeia produtiva
Para demonstrar a acentuada estruturação de alguns setores localizados dentro da cadeia produtiva da carne suína, que, por consequência, geram as distorções comentadas, pode-se utilizar alguns indicadores da agropecuária. No estudo em questão, comparou-se o IPR (índice de preços recebidos pelos produtores - que reflete o comportamento médio dos preços recebidos pelo setor agropecuário) com o IPP (índice de preços pagos pelos produtores - índice mensal dos preços médios dos principais insumos agropecuários pagos pelos produtores aos comerciantes), que são índices gerados pela FGV e CONAB para os produtos de origem animal no período compreendido entre agosto de 1994 até janeiro de 2001. Com isso, pode-se estimar de maneira indireta, através de um índice de paridade, o efeito do Plano Real sobre a cadeia da carne suína, conforme pode ser visualizado na tabela abaixo.
De acordo com a tabela, pode-se perceber que a inflação acumulada no período analisado e detectada pelo IGP-DI foi da ordem de 94,92%. Quando comparamos esta inflação com a variação acumulada dos preços médios dos produtos de origem animal recebidos pelos produtores (43,46%) notamos uma defasagem para o lado dos produtores, ou seja, entre agosto de 1994 e janeiro de 2001 estes preços ficaram 51,46% abaixo da inflação e, por consequência, os produtores menos remunerados.
Ao analisarmos o outro extremo da cadeia, podemos observar que os preços pagos pelo produtores rurais pelos principais insumos de produção ficaram 12,05% acima da inflação detectada no período, mostrando com isto que os setores situados antes da porteira das propriedades rurais repassam constantemente as variações cambiais ou a inflação acumulada no período aos seus preços, enquanto que no outro extremo da cadeia produtiva temos um preço de aquisição da matéria prima que não acompanha de perto tais variações.
TABELA - A EVOLUÇÃO COMPARATIVA DA INFLAÇÃO, DO IPP E DO IPR PARA OS PRODUTOS DE ORIGEM ANIMAL NO PERÍODO COMPREENDIDO ENTRE AGOSTO DE 1994 E JANEIRO DE 2001.
ÍNDICE - VALORES ACUMULADOS NO PERÍODO
IPR - produtos de origem animal - 143,46 -
IPP - geral - 206,97 -
Inflação (IGP-DI) - 94,92% -
IP - índice de paridade (1) - 69,31% -
Fonte: - FGV, CONAB e Agromarket com cálculos do autor.
(1) O IP (IPR/IPPx100) é um indicador que reflete a relação entre os preços recebidos e os pagos pelos produtores que, de maneira indireta, revela a situação de capitalização dos produtores.
No caso do índice de paridade (IP - indicador que reflete a relação entre os preços recebidos e os pagos pelos produtores que, de maneira indireta, revela a situação de capitalização ou descapitalização dos produtores) calculado para o período analisado, percebe-se claramente que entre agosto de 1994 e janeiro de 2001 os produtores tiveram uma deterioração de 30,7% no seu poder de trocas, ou seja, ficaram menos capitalizados ou mais pobres.
Na semana, a cotação do suíno em alta
O preço médio do suíno vivo (raça) negociado no Estado do Paraná voltou a apresentar um incremento da ordem de 1,63% em relação à cotação observada na semana passada (R$ 1,23), com o quilograma sendo comercializado a R$ 1,25 nas principais praças produtoras do Estado. Quando comparada esta cotação com o preço médio de maio (R$ 1,22), observa-se uma ganho de 2,5% na mesma e, quando relacionada com o preço médio nominal praticado no mesmo período do ano passado (junho), notamos uma incremento da ordem de 28,9% nas cotações.
João Batista Padilha Junior - Prof da UFPR
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