S U Í N O S
A EVOLUÇÃO DOS PREÇOS NO PRIMEIRO SEMESTRE
Nos últimos seis meses, tem-se observado uma certa variabilidade nos preços do quilograma da carne suína no mercado paranaense. Em janeiro, a cotação média mensal chegou a R$ 1,27 por quilograma, deixando o segmento suinícola bastante animado com a possibilidade da manutenção dos preços nestes patamares. Nos meses seguintes, fevereiro e março, registrou-se uma retração do mercado e consequente redução de 12,6% no valor das cotações. A partir de abril, o mercado retomou seu crescimento e, atualmente, observamos o valor do quilograma da carne suína sendo negociado a R$ $ 1,22 por quilograma nas principais praças do Estado. De maneira geral, entre janeiro e junho, observou-se uma taxa de crescimento mensal da ordem de 0,48% nas cotações, o que caracteriza uma situação favorável ao setor suinícola paranaense.
Casos da febre aftosa em países do Mercosul e no Brasil e a doença da vaca louca na Europa reduziram drasticamente o consumo de carne bovina e por consequência aumentaram a demanda pela carne suína (a mais consumida no mundo). Outros fatores que impulsionaram o mercado suinícola foi a perspectiva do surgimento de novos mercados ao produto nacional; a desvalorização cambial do real frente ao dólar americano que tornou nossos produtos mais competitivos ao nível do mercado mundial; e a excelente safra de milho colhida este ano que acabou se convertendo num redutor de custo de produção, ajudando desta forma a contrabalançar a alta dos outros insumos causada pelo dólar.
Outro aspecto que merece análise é o comportamento médio da lucratividade dos produtores no período entre janeiro e junho deste ano. Nesse período registrou-se que o custo médio de produção do quilograma suíno no Paraná foi da ordem de R$ 1,06. Quando comparamos este custo ao preço médio do quilograma no mesmo período R$ 1,20, determinamos que a margem líquida média do produtor no semestre foi de 13,2% e que a mesma oscilou entre 4,7% e 19,8% entre o pior momento e o melhor momento de janeiro à junho. Diante desta situação, podemos concluir que até o presente momento, os suinocultores paranaenses vem passando por uma conjuntura favorável.
A situação melhorou em 2001
Uma análise comparativa, em termos reais, do comportamento dos preços da carne suína, da saca do milho e da relação de trocas entre estes produtos pode ser mais significativa para se verificar qual dos dois períodos foi melhor para a suinocultura paranaense.
Partindo da análise dos preços, de acordo com a tabela, pode-se notar que entre janeiro e março, as cotações em 2000 foram superiores às verificadas em igual período deste ano, mas, à partir de abril até o presente momento, o preço do quilograma suíno em 2001 esteve 16,4% em média superior ao mesmo período de 2000. Na média semestral entre 2000 e 2001, verificou-se que a atual cotação média do quilograma suíno está 1,7% acima da cotação verificada no ano passado.

No caso do preço da saca de 60 quilogramas de milho, insumo fundamental para a suinocultura, verificou-se que em 2000, as cotações permaneceram bastante elevadas ao longo do primeiro semestre. O preço real da saca deste produto variou de R$ 13,33 em janeiro para R$ 11,78 em junho, com o preço médio no período ficando em R$ 12,40, o que representou uma situação bastante desfavorável para todos os produtores. Este ano, a situação está sendo completamente oposta e, o preço da saca de milho vem oscilando num patamar relativamente estável, garantindo desta forma um bom desempenho do setor em termos de custo de produção. Em janeiro, a saca de milho era negociada em termos reais a R$ 8,23 na média do Estado e atualmente vem sendo comercializada a R$ 7,75, o que representa uma redução média de 40% em relação aos preços praticados em igual período de 2000.
Nas relações de trocas, ou seja, na quantidade necessária de produto que o produtor tem que comercializar para comprar uma unidade de insumo, verificou-se que 2000 foi um ano complicado, pois, na média do semestre, o produtor precisou negociar 10,6 kg de carne suína para comprar apenas uma saca de milho. Atualmente, esta situação está completamente mudada, pois, o produtor paranaense vem precisando vender apenas 6,3 quilogramas de produto para adquirir a mesma saca de milho, representando com isto uma melhoria média da ordem de 40,6% nas relações de trocas.
Na semana, a cotação do suíno
O preço médio do suíno vivo (raça) negociado no Estado do Paraná voltou a apresentar um incremento da ordem de 0,82% em relação a cotação observada na semana passada (R$ 1,22) com o quilograma sendo comercializado a R$ 1,23 nas principais praças produtoras do Estado. Quando comparada esta cotação com o preço médio de maio (R$ 1,22) observa-se uma ganho de 0,8% na mesma e, quando relacionada com o preço médio nominal praticado no mesmo período do ano passado (junho) notamos uma incremento da ordem de 26,8% nas cotações.
João Batista Padilha Junior - Prof da UFPR
e-mail: [email protected]
A AGRICULTURA PARANAENSE PRECISA SER REPENSADA
Apesar de produzir mais de um quinto da safra brasileira de grãos e ser ainda um dos mais importantes Estados agrícolas, o Paraná apresenta problemas na sua agropecuária, senão vejamos:
- A produção de grãos do Estado está praticamente estagnada há vários anos, ficando no patamar de 18 milhões de toneladas/ano (exceto no corrente ano, cuja safra deve ultrapassar 20 milhões de toneladas
- A área cultivada (excluindo a de pastagens) ao longo dos últimos 10 anos caiu
- Nos últimos 30 anos, desapareceram quase 200 mil estabelecimentos rurais (pequenos, em sua grande maioria), o que significa dizer que, nesse período, cerca de 20 propriedades deixaram de existir por dia
- Setenta por cento da área cultivada com grãos estão concentrados em apenas dois produtos (milho e soja)
-Produtos como algodão, café e arroz tiveram suas áreas plantadas diminuídas em mais de 50%, nos últimos 20 anos
-O milho, um dos seus principais produtos, tem ainda uma produtividade muito baixa (cerca da metade do que é colhido nos EUA
- O Estado do Paraná é importador (de outros Estados e do exterior) de frutas e hortifrutigranjeiros, embora tenha condições edafo-climáticas favoráveis para ser até um exportador líquido
Esses dados acima procuram mostrar que a agricultura paranaense tem ainda grandes problemas, que, em grande parte, surgem pelo fato de ela se concentrar em demasia na produção de grãos, cuja rentabilidade é muito baixa. Basta dizer que para um agricultor lucrar R$ 500,00 por hectare com grãos ele tem que utilizar muita tecnologia (insumos modernos) e ter alta produtividade. Isto significa dizer que a atividade com grãos só se viabiliza se o produtor tiver uma área cultivada relativamente grande, o que não é o caso do Paraná, cuja área média das propriedades é inferior a 50 hectares.
DENSIDADE ECONÔMICA
Como o Estado do Paraná tem, em sua grande maioria, propriedades com áreas pequenas, a alternativa com grãos não parece ser o melhor caminho econômico. Daí, a necessidade da verticalização das atividades rurais, a qual pode ocorrer por opções como:
- Converter grãos em carnes (suínos, frango e peru, por exemplo), dentro da própria propriedade, os quais tornam a renda agrícola maior e mais estável
- Se for um produtor localizado acima do Paralelo 24 (mais ao Norte) e cultivar três hectares de café semi-adensado (6.700 pés/ha), sua produtividade média pode ser de 65 sacas/ha, a um custo médio de R$ 50,00 por saca. Ao preço médio de R$ 130 por saca (média dos últimos cinco anos), esse produtor terá um lucro por hectare de R$ 5.200,00. Nos três hectares, seu lucro seria de R$ 15.600,00, o que corresponde a uma renda mensal de R$ 1.300,00 (que é igual a 7,2 salários mínimos). Em outras palavras, ele se viabiliza econômica e socialmente
- Se sua propriedade se situar abaixo do Paralelo 24, as frutas de clima temperado (como maçã, pêssego, pêra, entre outras) passam a ser uma excelente opção econômica, porque bem conduzidas podem gerar lucro em torno de R$ 5.000,00 por hectare. Em outras palavras, para os pequenos agricultores, cultivar cinco hectares de milho é inviável, porém se for de café ou de frutas, a situação muda completamente, ou seja, o negócio é cultivar produtos com elevada densidade econômica
A propósito, a questão das frutas é uma verdadeira vergonha nacional: (excluindo-se a laranja) o Brasil exporta apenas US$ 250 milhões por ano, enquanto o Chile vende no exterior mais de US$ 1,5 bilhão e os Estados Unidos mais de US$ 8 bilhões (sendo que a grande maioria provém da Califórnia, um Estado onde predomina o deserto).
AS NOVAS FRONTEIRAS
Cabe ressaltar que a área de grãos, que tradicionalmente se concentrou na região Sul, está se deslocando para as novas fronteiras, onde há grandes possibilidades de incorporação de extensas áreas cultivadas, o que permite viabilizar essas atividades, uma vez que sua rentabilidade por hectare é baixa, mesmo com elevada produtividade. Produtos como algodão e soja, onde o Paraná já foi o principal produtor, estão cada vez mais se deslocando para novas áreas, a ponto de o Estado do Mato Grosso já ser o maior produtor de ambos.
MUDANÇA DO PERFIL
Os dados acima expostos mostram que é preciso repensar a agropecuária paranaense. É praticamente impossível o pequeno produtor sobreviver com grãos, mesmo se ele vier a adotar novas tecnologias. Daí, a necessidade de mudança do perfil, o que significa: sair dos grãos e ir para outras alternativas como café adensado e frutas, por exemplo, que geram retornos relativamente elevados, ou seja, no mesmo hectare é possível gerar até 40 vezes mais renda do que manter o atual sistema tradicional de produção de grãos. Parece claro que ‘‘como está não dᒒ! É função e responsabilidade do setor público (no caso, a Seab-PR, e a Emater, em particular) assumir esta postura de discutir os caminhos da sua agropecuária, sob pena de continuarmos a assistir o desaparecimento de mais de 20 propriedades rurais por dia, no Paraná.
A única certeza estável é que o mundo (e o Brasil e o Paraná, em particular) está em grande mudança, a qual é rápida e violenta (ou seja, quem não percebê-la, terá um destino certo: tende a desaparecer). No caso específico da agricultura, os pequenos produtores com baixo nível tecnológico, têm apenas dois caminhos: ou mudam (adotando novas tecnologias e novos perfis de produção, isto é, produtos com elevado valor agregado), ou morrem.
O Brasil e o Paraná em particular estão vivendo três grandes processos simultâneos: o da globalização, o da abertura econômica e o da estabilização da moeda, o que têm forçado os produtores rurais a uma maior competição, e portanto, a uma crescente necessidade de serem mais competitivos.
Ser mais competitivo implica em três ‘‘coisas’’:
- Maior produtividade (significa, por exemplo, produzir 7 a 8 mil kg de milho por hectare ou ter uma vaca que produza 25 litros de leite por dia)
-Menor custo unitário (médio)
- Melhor qualidade dos produtos (basta dizer que a indústria de fiação e tecelagem ainda prefere o algodão importado porque a fibra é melhor; a indústria de panificação prefere o trigo importado; ou o consumidor norte-americano prefere o café colombiano, por ser de melhor qualidade).
Judas Tadeu Grassi Mendes - engenheiro agrônomo, Ph.D. em economia pela Ohio State University (EUA), pós-doutor, e atualmente é Diretor Acadêmico da graduação e da pós-graduação da FAE Business School em Curitiba.

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