AGROMERCADO
S O J A
GRÃO SUPERA 50% DA RECEITA CAMBIAL
Tem aumentado a pressão política da indústria esmagadora de soja contra o governo, a fim de que seja revista a atual política tributária sobre as exportações brasileiras do complexo soja. Em linhas gerais, o setor industrial reivindica medidas que favoreçam o esmagamento do produto no mercado interno, a fim de reduzir a capacidade ociosa do parque industrial instalado no país. Nesse ano safra, a capacidade ociosa das fábricas de esmagamento de soja no Brasil deve ficar em aproximadamente 40%, contra 15% na Argentina e 5% nos Estados Unidos, tradicionais concorrentes do Brasil no mercado internacional de soja.
Dados da Abiove - Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais indicam que nesse ano de 2000, mais da metade do valor das exportações brasileiras do complexo soja serão provenientes da venda de soja em grão. É um fato inédito no país, pois sempre foram exportados mais produtos industrializados (farelo e óleo de soja) relativamente às vendas da matéria-prima sem processamento (soja em grão). O gráfico apresenta a participação percentual do grão, farelo e óleo no valor das exportações brasileiras do complexo para os anos de 1992 a 2000.
Nesse ano, a receita cambial do complexo soja deve ficar em 3,94 bilhões de dólares, segundo a Abiove. Desse total, cerca de 51% (2 bilhões de dólares) devem corresponder as vendas externas de soja em grão; 40% (1,58 bilhões de dólares) às vendas externas de farelo de soja e apenas 9% (0,37 bilhões de dólares) às vendas de óleo de soja ao exterior.
Entre 1992 a 1994, vale lembrar, a participação da soja em grão no valor total das exportações do complexo era de aproximadamente 31%. Na sequência, conforme mostra o gráfico, essa participação do grão caiu ao nível médio de 22% no período 1995 e 1996; subiu a 44% no período entre 1997 e 1999 e salta, agora, para 51% nesse ano de 2000.
Exportação de grão cresce 18% em volume
Considerando o volume exportado em 1999 e 2000, observam-se as seguintes variações dos produtos do complexo: (1) o volume de exportação do grão cresce 17,8%, passando de 8,9 milhões de toneladas em 1999 para o recorde histórico de 10,5 milhões de toneladas nesse ano de 2000; (2) o volume de exportação do farelo de soja cai 13,7%, passando de 10,4 para 9 milhões de toneladas (o menor volume desde 1992); (3) o volume de exportação do óleo de soja despenca 27,7% (principalmente devido aos baixos preços internacionais do produto), passando de 1,52 para 1,10 milhões de toneladas (o menor volume desde 1993).
Consequências e considerações
Obviamente, um país perde, em termos econômicos e sociais, quando prioriza exportações de matéria-prima ao invés de produtos processados. Ao nível macroeconômico, essa perda normalmente é representada pela menor circulação de renda no mercado interno, que está vinculada ao processamento industrial e a agregação de valores aos produtos processados. Ao nível setorial, essa perda reflete os prejuízos pela paralisação de fábricas com consequentes reflexos negativos nas finanças das empresas e na menor oferta de emprego aos trabalhadores dessas indústrias.
No caso da soja, entretanto, essa perda não é tão expressiva e deve ser analisada com critério pelo governo, pois, de um lado esse setor industrial emprega poucos trabalhadores e, de outro, a própria indústria garante lucros com a exportação da matéria-prima adquirida no mercado. Isso significa, que problemas conjunturais não podem ser resolvidos com mudanças estruturais. Ou seja, a paralisação de fábricas por questões momentâneas de mercado (em função dos preços relativos do grão, farelo e óleo que resultam em margens de esmagamento negativas) não pode ser solucionada com retrocessos estruturais, como por exemplo, a volta da incidência de ICMS sobre as exportações da soja em grão (extinta pela lei Kandir de 1997) e que passaria a prejudicar milhares de sojicultores.
Prof. José Roberto Canziani - Prof. da UFPR
e-mail: [email protected]
T R I G O
COLHEITA ATRASADA NO RIO GRANDE DO SUL
Algumas nuvens de preocupação (e chuva) começaram a pairar sobre os triticultores gaúchos. As chuvas abundantes e o calor estão permitindo o surgimento de doenças fúngicas nas lavouras em algumas regiões produtoras. Geadas tardias causaram pequenas perdas localizadas.
No geral, a Emater gaúcha considera as lavouras em boas condições mas há atraso no desenvolvimento da lavoura e, portanto, da colheita, que se torna mais sujeita a perdas por excesso de chuvas - tanto de quantidade quanto de qualidade. Entre os dias 9 e 18 deste mês a precipitação acumulada nas principais regiões tritícolas do Rio Grande do Sul variou entre 75 e 200 mm (dados do Inpe).
A colheita deve estar começando esta semana no Rio Grande do Sul mas, na média dos últimos 5 anos, perto de 15% da área já deveria estar colhida. Até a segunda semana de outubro 60% das lavouras estavam na fase de enchimento de grãos, 16% em maturação e próximo do ponto de colheita e os 24% restantes em fases menos adiantadas.
A torcida é pela manutenção da qualidade razoável das lavouras pois perdas na safra gaúchas, além do prejuízo aos produtores locais devem piorar o preço do milho que já está sentido a concorrência do triguilho do Paraná.
No Paraná a colheita do trigo atingiu 45% em 9 de outubro, também com atraso. O Deral classificou as lavouras nas seguintes condições: 55% como boa, 27% como média e 18% ruim. Os preços estão estáveis, mas poucos agricultores têm produto de boa qualidade para vender. Os gaúchos esperam melhor sorte.
Estados Unidos
A colheita da safra 00/01 está encerrada nos Estados Unidos e o plantio da safra de inverno do ano safra 01/02 atinge 64% da área prevista. O plantio está atrasado em relação ao ano passado (77%) e à média dos últimos 5 anos (75%). Que haja atraso em relação ao ano passado não é de estranhar porque o plantio da safra de inverno em 1999 foi mais adiantado - mas o atraso em relação à média de 11% é significativo.
Esta é uma das razões pelas quais os preços do grão na bolsa de Chicago estão na faixa de US$ 2,70/bushel, 20 centavos acima dos preços praticados há um mês. Para março a cotação do trigo na Bolsa de Chicago é de US$ 2,81/bushel, alta esperada de 4,1%.
Francisco Guimarães
E-mail: [email protected]
M I L H O
PLANTIO ACELERADO
Até a primeira semana de outubro o plantio de milho no Paraná cobria 57% dos 1.776 mil hectares estimados pelo Deral como a área a ser ocupada com milho este ano no Estado. Este percentual é superior ao observado no mesmo período em 6 dos últimos 7 anos no Estado.
O Deral está classificando as lavouras plantadas e germinadas até agora da seguinte forma: 2% ruins, 11% médias e 87% boas. Da mesma forma quanto ao estágio de desenvolvimento, as áreas atuais estão assim distribuídas: 37% em germinação, 57% em desenvolvimento vegetativo e 6% em floração. O período preferencial de plantio do milho no Paraná termina em 10 de novembro quando, em geral, entre 80 e 90% da área prevista no Estado costuma estar plantada.
No Rio Grande do Sul onde o plantio começa mais cedo e termina mais tarde, metade da área já está plantada com ligeiro atraso de 3% em relação à média, nos cálculos da Emater estadual.
Em Goiás, por outro lado, na principal região produtora, entre Rio Verde e Jataí, o plantio está atrasado e, além disso, há ataque de doenças. Há 20 dias não chove na região. A perspectiva em termos nacionais ainda é de aumento de área e de produção.
Preços
Esta semana houve aumento no volume de negócios de milho no Paraná, a preços menores no mercado de lotes (disponível). O preço ao produtor ainda se manteve em R$ 11,50/sc com ligeira queda em algumas regiões.
De abril (média do mês) até esta semana o preço do milho ao produtor no Paraná subiu 8,1%, o que equivale a uma taxa média de valorização por mês de 1,3%. Quem esteve mantendo estoque de milho com um custo de oportunidade acima de 1,3% não está sendo remunerado pelo estoque.
Mercado externo
Até a primeira quinzena de outubro 66% da área de milho nos Estados Unidos já estava colhida - bem adiantada em relação à média de 41% e aos 54% observados no mesmo período do ano passado.
O USDA, em seu relatório da semana passada, reduziu a estimativa da produção americana de 263,22 para 258,88 milhões de toneladas (redução de 1,6%). No entanto, esta produção ainda é recorde histórico superando em 0,9% o recorde anterior de 256,62 milhões de toneladas.
Mas como a produção será menor do que o esperado até setembro, os preços reagiram na Bolsa de Chicago. No contrato para dezembro as cotações se afastaram do valor funesto de U$ 1,90/bushel e agora se mantém acima de 2 dólares o bushel. Em abril deste ano, o contrato para dezembro era negociado na faixa de U$ 2,60/bushel, queda de 23% de abril para outubro.
Vania Di Addario Guimarães - Profª. da UFPR
E-mail: [email protected]
A L G O D Ã O
VALOR DA INTERVENÇÃO
Segundo levantamento da Conab, perto de 77% da produção brasileira, estimada em 700 mil toneladas de algodão em pluma já foi comercializada. Segundo avaliação da própria Conab, o governo interveio, via PEP ou opções, na comercialização de 32% da safra nacional ou algo na casa das 224 mil toneladas. O governo gastou até agora 32,28 milhões de dólares com o conjunto das intervenções no mercado de algodão - basicamente de algodão do Centro-Oeste e mais especificamente ainda, do Mato Grosso, maior produtor nacional.
Esta foi a maior produção nacional em quase 10 anos, depois da derrocada da cultura em função, não só da abertura do mercado mas das condições que oferecidas na importação (juros, prazos, etc).
Mesmo assim, o Brasil deverá importar 270 mil toneladas de algodão em pluma na safra 00/01 para um consumo estimado em 900 mil toneladas. Parte da intervenção do governo este ano foi realizando leilões de PEP para exportadores. Mas, espere um pouco. Subsidiar a exportação num país que importa 30% do que consome?
É muito importante compreender que uma política de sustentação de preços numa economia aberta tem que ser muito calibrada pois, de outra forma, quem fornece para o Brasil é que acaba beneficiado pelo subsídio.
Não há sentido econômico em estabelecer um preço mínimo acima da paridade da importação porque, neste caso, necessariamente acaba-se subsidiando quem exporta para o Brasil e o governo bancando estoques ou realizando gastos ineficazes.
Resolveu-se abrir o mercado como fez no início da década. Era para ser claro que o preço mínimo tem que ser estabelecido igual à paridade do importado (internalizado na região produtora). Ou bem se abre o mercado ou bem se subsidia a produção pois as duas coisas são antagônicas. É a cabeça puxando para um lado e o rabo para o outro.
E, se o preço no mercado interno é, segundo as contas da Conab, inferior à paridade de importação, então para que subsídio? Senão, a sociedade paga duas vezes: primeiro pelo subsídio e segundo pelo gasto de divisas. É preciso escolher: ou protege a produção nacional (depois da mudança dramática que causou nas regiões produtoras tradicionais) ou importa e deixa que a produção nacional seja competitiva; ou então, vamos produzir outra coisa que tenhamos mais competitividade.
Vania Di Addario Guimarães - Profª. da UFPR
E-mail: [email protected]





