S O J A
O COMPORTAMENTO DOS PREÇOS A PARTIR DE SETEMBRO
O mês de setembro marca o início do chamado período de entressafra para o mercado brasileiro de soja, que se estende até o mês de fevereiro. Esse período se caracteriza por uma menor oferta da matéria-prima no mercado interno, um menor ritmo de exportação pelo País e um menor volume de esmagamento da soja em grão nas fábricas que processam o produto.
Nesse período os países da América do Sul (leia-se, pela ordem: Brasil, Argentina e Paraguai) pouco participam no comércio internacional da oleaginosa em detrimento dos Estados Unidos, onde a colheita e a exportação da soja se iniciam a partir do final de setembro e início de outubro. Na América do Sul, o menor volume de comércio internacional da soja nesse período, faz com que o processo de formação dos preços do produto no mercado interno se direcione aos níveis de oferta e demanda local.
Entre os meses de setembro a dezembro, os preços da soja ao produtor normalmente sobem no Brasil, dado o menor volume de oferta interna e a consequente disputa entre as indústrias pelo estoque remanescente. A tabela e o gráfico mostram a evolução das cotações da soja ao produtor paranaense entre setembro e dezembro dos últimos seis anos.
Entre a primeira semana de setembro e a última semana de dezembro os preços da soja ao produtor paranaense subiram, em média, R$1,06 por saca ou o equivalente a 8,22% conforme mostra a tabela. Nesses anos, a maior alta nos preços da soja ao longo do último quadrimestre do ano ocorreu em 1995, quando os preços saltaram de R$10,35/saca no início de setembro para R$12,70/saca no final de dezembro, registrando elevação de R$2,35/saca ou o equivalente a 22,71%. Por outro lado, em 1994 a variação nos preços da soja entre setembro e dezembro foi negativa, da ordem de R$0,15/saca ou o equivalente a menos 1,44%.
Em 1999, vale lembrar, os preços da soja no Brasil subiram acentuadamente entre o início de setembro e o final de outubro. Nesses dois meses do ano passado, o preço médio da soja ao produtor paranaense subiu R$2,20/saca ou o equivalente a 12,8%. Naquele ano, o motivo principal da alta veio do exterior, com o anúncio tardio pelo USDA - Departamento de Agricultura dos Estados Unidos - sobre a frustração da safra de soja 99/00 nos Estados Unidos. Mesmo assim, os preços voltaram a cair a partir de novembro, conforme mostra o gráfico.
Perspectivas
Para esse ano de 2000, os seguintes fatores devem influenciar o processo de formação dos preços internos da soja nos próximos meses: (1) o nível de preços atual já é bastante baixo (principalmente em dólar) gerando uma tendência moderada de alta até o final do ano; (2) as projeções atuais sobre a safra norte-americana continuam indicando um volume de produção superior a 80 milhões de toneladas naquele país, reforçando a hipótese de pouco probabilidade de elevações significativas de preços nos próximos meses; (3) a conduta das fábricas de esmagamento de soja no Brasil segue cautelosa em termos de formação de estoques, devido, principalmente, às altas taxas de juros e as dificuldades nas exportações de óleo.
Assim, pode-se esperar uma lenta e gradual recuperação dos preços da soja ao produtor nos próximos meses. Nessa semana, o preço médio ao produtor paranaense subiu 10 centavos em relação à semana anterior, passando a R$15,90 por saca, fruto da pequena reversão nas projeções do USDA sobre a situação das atuais lavouras de soja nos Estados Unidos.
Prof. José Roberto Canziani - Universidade Federal do Paraná
e-mail: [email protected]
T R I G O
A CONCENTRAÇÃO DO SETOR MOAGEIRO
A semana foi marcada pela polêmica quanto ao reajuste do preço da farinha de trigo e formação de cartel entre os moinhos paranaenses. Em 1999, havia 37 moinhos de trigo no Paraná, segundo a Associação Brasileira da Indústria do Trigo - Abitrigo. Deste total, 21 empresas informaram a capacidade instalada de moagem, que totaliza 1.126.760 toneladas de trigo por ano. No entanto, entre as 16 empresas que não haviam disponibilizado esta informação, estão empresas importantes no Estado. Portanto, os dados não permitem analisar o grau de concentração entre os moinhos do Estado, que seria o caminho para identificar a presença de oligopólio.
Dentre as 21 empresas que informaram a capacidade instalada de moagem, 10 das maiores detém 84% da capacidade total (soma das 21 que informaram). As cinco maiores detém 59% da capacidade instalada.
A maior capacidade instalada de moagem (que foi informada à Abitrigo pelas empresas) está em São Paulo, que possui apenas 18 moinhos, mas que em conjunto podem industrializar 3,77 milhões de toneladas/ano. Naquele Estado a concentração da indústria moageira não é menor do que no Paraná: as 10 maiores detém 86,3% da capacidade de moagem e as cinco maiores detém 60,6%. Fazer cartel em São Paulo com 18 moinhos seria mais fácil do que no Paraná que tem 37. No Rio Grande do Sul seria ainda mais difícil pois são 69 moinhos e com menor grau de concentração (56,6% para os 10 maiores e 33,6% para os cinco maiores). A capacidade instalada de moagem no Rio Grande do Sul segundo as 55 empresas que deram esta informação à sua associação, é de 1,74 milhão de toneladas/ano.
Em termos nacionais, as oito maiores empresas do setor detém 67% da capacidade informada de moagem e as cinco maiores detém 56%. As maiores empresas são também as que importam trigo, enquanto a produção nacional é industrializada, em grande parte, pelos pequenos moinhos. As empresas pequenas e médias se concentram nos três Estados do Sul do País, especialmente no Rio Grande do Sul.
Estes números são bons ou ruins para produtores e consumidores brasileiros? Segundo a teoria econômica, quanto menos concentrado o mercado, melhor para produtores e consumidores. O fato é que hoje, é possível contar nos dedos de uma mão as agroindústrias que não apresentam algum grau de concentração. Na soja, por exemplo, a concentração é maior do que no trigo. Mas daí até a formação de cartel vai um longo passo.
E como estão se comportando os preços ao produtor (trigo em grão) e ao consumidor (farinha de trigo)? Os preços utilizados da farinha de trigo comum e especial no atacado e varejo no Paraná, são do Deral. Entre dezembro do ano passado e a primeira quinzena do mês de agosto, os preços da farinha no atacado subiram 3,4% para a farinha comum e 1,36% para a farinha especial. No varejo (ao consumidor) os preços reduziram 1,67% e 6%, respectivamente no período. Ao mesmo tempo, o preço do trigo em grão ao produtor subiu 23,3%.
As margens de comercialização dos moinhos e das unidades de varejo reduziram entre 19 e 40% e teria lógica repassar os preços para os produtos finais. No entanto, qualquer reajuste que possa ocorrer agora deve ter vida curta. Os preços do trigo FOB Argentina reduziram cerca de 3 dólares por tonelada nos últimos 20 dias (preços da Secretaria de Agricultura da Argentina) e devem cair ainda mais até final do ano quando começa a colheita.
Francisco Guimarães
E-mail: [email protected]
A L G O D Ã O
PRÊMIO NÃO FOI SUFICIENTE
O resultado do primeiro leilão de recompra de contratos de opção do Governo não foi o esperado. Dos 650 contratos em leilão, 253 contratos foram arrematados a um prêmio de R$410 por tonelada, o que equivale a R$6,15 por arroba, que era o prêmio máximo que o Governo estava disposto a pagar já que foi o valor de abertura.
Lembrando que o preço de exercício destes contratos de opção de venda era de R$32,62/arroba, quem aceitou o prêmio do Governo melhor receber R$6,15/arroba para não exercer o direito de vender ao Governo por R$32,62 (valor bruto porque tem os descontos do prazo de pagamento que nas contas da semana passada equivaleria a R$32,23).
Quem preferiu não revender seu contrato ao Governo, considerou o prêmio ainda baixo. O preço de exercício menos o prêmio negociado no leilão de recompra, equivale a R$26,47/arroba (sem fazer o desconto pelo prazo de pagamento). Fez bom negócio revender o contrato ao Governo aquele que pode vender seu algodão hoje por R$26,47 na sua região.
Segundo o indicador do algodão Esalq/BMF, o preço da arroba de pluma posto em São Paulo foi cotada esta semana a R$29,19/arroba para pagamento à vista. Segundo levantamento do Deral, na primeira quinzena de agosto, a arroba de pluma no atacado paranaense esteve na faixa de R$29,10. Por estes dois indicadores, o prêmio oferecido pelo Governo para recompra dos contratos seria um ótimo negócio para quem puder vender seu produto a preços próximos do indicador ou do atacado paranaense. Afinal, vendendo a R$29, por exemplo, mais o prêmio do governo de R$6,15/arroba, resulta num preço efetivo final de R$35,15.
O prêmio de R$0,41 por kg de algodão em pluma, que era o prêmio máximo estabelecido pelo Governo, pode ser considerado alto. No total dos 2.483 contratos de opção que o Governo vendeu aos produtores de algodão este ano, o prêmio médio pago pelos produtores foi cerca de R$0,08 por kg. Quem revendeu ao Governo estará recebendo uma subsídio médio de R$0,33 por kg de pluma.

Vania Di Addario Guimarães - Profª. da UFPR
E-mail: [email protected]
M I L H O
VALOR DO ESTOQUE
O preço do milho ao produtor no Paraná voltou a subir esta semana, atingindo média de R$11,70/saca, alta de 5 centavos na semana e 3,08% em 30 dias. O preço médio do mês de agosto deve ficar ao redor de R$11,60/saca, 40,2% superior ao preço médio em agosto do ano passado.
Os preços estão mesmo altos em todos os meses deste ano, tanto comparados com os valores praticados no ano passado, quanto em relação à média dos últimos cinco anos.
Preços altos não implica, necessariamente, que a formação de estoques é rentável. Por enquanto, os cálculos mostram que foi bom negócio estocar milho de abril até agora, desde que o custo oportunidade do dinheiro representado por este estoque não ultrapasse 1,5% ao mês. Para juros maiores do que este, a rentabilidade da estocagem é negativa no período. Como sempre, é de bom alvitre controlar o custo do seu estoque para decidir até quando vale a pena guardar.

Vania Di Addario Guimarães - Profª. da UFPR
E-mail: [email protected]

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