O Plano Real e o impacto na agropecuária nacional

O Plano Real, ou seja, o plano nacional de estabilização econômica criado pelo Governo Federal e implantado em julho de 1994 está comemorando 8 anos de funcionamento e, apesar de todas as festividades e divulgações realizadas, torna-se necessário verificar a sua verdadeira contribuição à agropecuária nacional.
No processo de estabilização econômica, a agropecuária representa um papel fundamental para a economia, pois, com a geração de grandes quantidades de alimento para a população, com um preço barato, cria-se a chamada ''âncora verde''. Isto significa que mesmo com a já conhecida queda do poder aquisitivo vivenciada pela população brasileira (os salários perderam 11,4% de poder de compra nos últimos 12 meses e a pobreza cresce à uma taxa de 5% ao ano no Brasil), sem a respectiva reposição salarial, acaba-se gerando o ''efeito renda real'', ou seja, com o mesmo salário nominal os consumidores podem adquirir mais produtos baratos na economia.
Apesar de sua participação ativa na economia nacional, verifica-se um certo descaso com a agropecuária e uma deterioração real do setor ao longo deste últimos 8 anos de funcionamento do Plano Real, conforme pode ser visualizado na tabela.
Pela análise do Impacto do Plano Real na agropecuária nacional, verifica-se que o mesmo foi negativo ao longo do últimos 8 anos e, para ilustrar tal fato, vamos utilizar a relação entre dois números índices (dois indicadores de inflação) do setor agropecuário, o IPP e o IPR. O IPP (Índice de Preços Pagos pelos Produtores) vem a ser o índice mensal dos preços médios pagos pelos principais ''insumos agropecuários''. O IPP é pago pelos produtores aos comerciantes, sob condições de entrega de balcão (excluindo carreto) até o destino do comprador, coletado no dia 15 de cada mês, ao nível do município, enquanto que o IPR (Índice de Preços Recebidos pelos Produtores) reflete o comportamento médio dos preços recebidos pelo setor agropecuário, sendo constituído pelos produtos da pecuária e das lavouras.
A relação entre o IPR e o IPP chama-se Índice de Paridade (IP) e de maneira prática mostra a situação de capitalização ou de descapitalização dos produtores rurais durante um certo período de tempo, no caso, de agosto de 1994 até abril de 2002.


O Plano Real empobreceu em 21,9% os produtores rurais brasileiros

No período em questão, a inflação acumulada pelo IGP-DI da Fundação Getúlio Vargas foi de 116,46%, o IPP geral foi de 139,26% e o IPR de 86,96%. Desta forma, observa-se que os preços médios dos produtos agropecuários recebidos pelos produtores ficaram 29,5% abaixo da inflação do período, enquanto que os preços médio pagos pelos principais insumos agropecuários permaneceram 22,8% acima da inflação. Assim, pelo cálculo do índice de paridade (IP), pode-se concluir que no período analisado (Plano Real), os produtores rurais brasileiro ficaram em média 21,9% mais pobres ou menos capitalizados.
Do lado dos produtores pode-se concluir ainda que os preços médios das principais lavouras ficaram 33,8% abaixo da inflação do período, os produtos pecuários sofreram queda de 63,2% e os produtos garantidos pelo preço mínimo (PGPM) permaneceram 1,6% abaixo da inflação.
Pelo lado do setor de venda de insumos, verifica-se que a situação foi um pouco melhor. Os combustíveis tiveram incremento de 52,6% no período, o custo mão-de-obra incrementou 119,4%, os defensivos de maneira geral ficaram 2,2% abaixo de inflação e os fertilizantes permaneceram 5,3% abaixo do valor do IGP-DI.
Desta forma, verifica-se que entre agosto de 1994 e abril de 2002 os setores localizados ''antes da porteira'' da propriedade rural aumentaram seus preços 52,3% mais do que os preços pagos pelos produtos agropecuários. No balanço final, o setor agropecuário nacional, apesar de todo o seu esforço para auxiliar a economia nacional, apresentou acentuado grau de descapitalização e de deterioração do poder de troca do produtores rurais.

João Batista Padilha Junior - Prof. da UFPr
e-mail: [email protected]


SUÍNO

Na semana, o mercado do suíno

O preço médio do suíno raça negociado no Paraná apresentou esta semana a cotação no patamar R$ 1,08 por quilograma nas principais praças produtoras do Estado, preço este semelhante ao verificado na semana anterior.
Quando comparada esta cotação com o preço médio de junho (R$ 1,04) observa-se um incremento da ordem de 3,9% na mesma e, quando relacionada com o preço médio nominal praticado no mesmo período do ano passado (julho - R$ 1,27 por quilograma) nota-se uma retração da ordem de 15% nas cotações.

João Batista Padilha Junior - Prof. da UFPr
e-mail: [email protected]

MILHO

Preço baixo em dólar viabiliza exportação

Os preços do milho ao produtor no Paraná nesta semana se mostraram estáveis em relação à semana anterior. Os preços no mercado interno estão próximos da paridade de exportação e longe dos preços de paridade de importação, tomando por base a Argentina como fornecedor. Os preços de exportação da Argentina nesta semana foram os mesmos da semana anterior (US$ 94/tonelada) segundo dados da Secretaria de Agricultura Ganadería Pesca y Alimentación.

Os setores consumidores não conseguem pagar mais pelo milho do que a paridade de exportação e, assim, não impedem que parte do produto seja direcionada ao mercado internacional. Os preços de aves e suínos não têm subido para recompor o poder de compra dos produtores e o resultado é a crise. É justamente o descompasso do comportamento dos preços do milho e das carnes que leva os preços do grão a operar na paridade de exportação e não de importação. Os produtores brasileiros de milho esperavam que os preços no mercado interno operassem próximos da paridade de importação, sustentados pelas vendas externas de carne de frango e de suíno.

De janeiro a maio deste ano o Brasil exportou 519,5 mil toneladas de carne de frango, 7,2% a mais do que no mesmo período de 2001, mas o preço médio de exportação em dólar reduziu 11,4%. No mês de maio a exportação de carne de frango totalizou 94,3 mil toneladas, 14,7% a menos do que em maio do ano passado e o preço médio em dólar reduziu 22,58%.

Nos cinco primeiros meses deste ano as exportações brasileiras de carne suína foram 68,29% superiores aos volumes exportados no mesmo período de 2001, mas o preço médio em dólar reduziu 18,46%. No mês de maio o Brasil exportou 34,3 mil toneladas de carne suína, crescimento de 57,8% em relação a maio de 2001, mas com preço médio em dólar 28,56% menor. A variação cambial beneficia tanto exportadores de milho quanto de aves e suínos e a única forma dos setores consumidores do grão no mercado interno não conseguirem acompanhar os preços da matéria-prima é com exportações menores e/ou preços em dólar mais baixos. Observa-se a segunda situação para os primeiros cinco meses do ano. Estes dados mostram um cenário complicado para aves e suínos no Brasil a médio prazo. A avicultura de corte no Brasil vem crescendo desde os anos 70 tanto em termos de produção total quanto em exportações. A suinocultura viveu, a partir de final dos anos 90 um período de crescimento aguardado durante anos, ao conseguir alcançar o mercado internacional. O crescimento destes dois setores levou ao aumento do consumo de milho (e da produção).

Para que o Brasil se mantenha como exportador de aves, suínos e milho os três produtos tem que ser competitivos no mercado externo, fato que não está se verificando nos últimos meses.
A taxa de câmbio tem sido o principal elemento para tornar viáveis as exportações do grão. Os preços em dólar estão baixos, como mostra o gráfico e, por isso, as vendas externas são viáveis.

Vania Di Addario Guimarães - Prof da UFPr
e-mail: [email protected]

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