Agro vive expectativa por acordo de livre comércio
Especialistas vislumbram mais investimentos e abertura de novos mercados ao Paraná
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 08 de janeiro de 2026
Especialistas vislumbram mais investimentos e abertura de novos mercados ao Paraná
Lucas Catanho - Especial para a FOLHA 

O agro do Paraná está na expectativa pela assinatura do acordo de livre comércio entre Mercosul e UE (União Europeia), em negociação há mais de 20 anos. Para se ter uma ideia do impacto da nova medida, a UE é hoje o segundo maior comprador de produtos agropecuários do Estado – fica somente atrás da China.
“Esse acordo deve criar uma das maiores áreas de livre comércio do mundo. Estamos falando de mais de 780 milhões de consumidores”, destaca Luiz Eliezer Ferreira, técnico do Departamento Técnico e Econômico do Sistema Faep (Federação da Agricultura do Estado do Paraná).
Entre os benefícios do acordo, destaca, está o acesso ampliado ao mercado europeu, principalmente com impacto sobre as proteínas animais. “Esse acordo deve trazer também uma maior valorização das cadeias do Paraná, com destaque para avicultura, suinocultura, açúcar, etanol e produtos florestais.”
Outra vantagem é o ganho em competitividade logística, com o aumento do uso do Porto de Paranaguá.
“O acordo também deve estimular os investimentos, uma vez que se abre a perspectiva de maior mercado e maior demanda, principalmente quando se fala dos processos de produção e de armazenagem e também da agroindústria no Paraná”, acrescenta.
Segundo o técnico da Faep, a assinatura do acordo representa um reconhecimento às práticas de sustentabilidade adotadas nas propriedades rurais paranaenses.
“O mercado europeu é bastante exigente, e esse acordo de livre comércio sinaliza para outros mercados a qualidade dos nossos produtos, visto que muitos países têm a Europa como referência. Se a Europa compra, outros países também acabam comprando, então isso significa que há perspectiva de abertura de novos mercados.”
Em 2024, o agro paranaense exportou 3,5 milhões de toneladas de produtos que resultaram em mais de US$ 2 bilhões em receitas.
O destaque ficou para o complexo soja, com participação de 44% desse total. Na segunda colocação ficaram os produtos florestais, com 25% de fatia, e as carnes vieram na sequência, com 9%.
Somente em carne de frango, os produtores paranaenses arrecadaram mais de US$ 186 milhões provenientes das exportações para a União Europeia.
Flávio Turra, gerente técnico da Ocepar, considera que o acordo entre a União Europeia e o Mercosul é um tratado pensado para “reduzir de forma significativa as barreiras comerciais, facilitar investimentos e impulsionar o desenvolvimento econômico de dois grandes blocos que, juntos, representam mais de 700 milhões de pessoas e um PIB em torno de US$ 22 trilhões”.
“No entanto, depois de mais de 25 anos de negociações, o acordo passa por mais um adiamento, agora para janeiro, o que aumenta a sensação de incerteza em relação à sua efetiva assinatura”, pontua.
Segundo ele, ainda assim os agricultores paranaenses mantêm uma perspectiva positiva, sobretudo diante das oportunidades de acesso preferencial ao mercado europeu.
“O acordo prevê a eliminação gradual de tarifas para aproximadamente 82% dos produtos agrícolas do Mercosul, ao longo de prazos distintos, beneficiando itens como frutas frescas [abacate e limão], café em suas diversas formas, óleos vegetais, pescados, crustáceos, açúcar, arroz e etanol, que poderão contar com alíquotas reduzidas ou zeradas”, detalha.
Apesar das oportunidades, Turra destaca que o acordo também impõe desafios. “A União Europeia prevê a adoção de mecanismos de salvaguarda para proteger seus produtores frente a aumentos abruptos das importações, o que pode limitar volumes exportados em determinados segmentos. Além disso, o agro brasileiro precisará continuar atendendo a rigorosos padrões ambientais e sanitários, exigências nas quais o setor já apresenta avanços significativos.”
Em síntese, Turra considera que o acordo representa uma oportunidade estratégica para o agronegócio brasileiro ampliar exportações e diversificar mercados, alavancando sua competitividade e capacidade produtiva.
“No entanto, a aplicação das salvaguardas europeias e o cumprimento das exigências regulatórias permanecem como pontos centrais de atenção na eventual implementação do tratado”, acrescenta.
ALTERNATIVAS
Turra entende que existe uma percepção crescente de que o Paraná e o Brasil, de maneira geral, precisam concentrar seus esforços em países que realmente demonstrem disposição para firmar acordos comerciais.
“Nesse contexto, mercados da Ásia, como a China, e do Oriente Médio, a exemplo dos Emirados Árabes Unidos, surgem como alternativas estratégicas relevantes”, conclui.
PIB
O diretor de atividade pecuária e melhoramento genético da SRP (Sociedade Rural do Paraná), Luigi Carrer Filho, considera que a assinatura do acordo de livre comércio representaria a geração de um PIB maior para o agro paranaense.
“Somos mais competitivos na produção do agro em comparação à Europa. Como somos um país tropical, temos custos de produção menores. Em contrapartida, pode aumentar cada vez mais a pressão ambiental e sanitária por parte da UE para blindar os seus produtores, uma moeda de troca. Mas já temos um padrão excelente”, destaca.
Carrer destaca que “nenhum país é tão rigoroso nas questões ambientais no agro como o Brasil”. “Temos também um alto padrão de fiscalização e de vigilância sanitária conforme as normas internacionais”, garante.
ADIAMENTO
Após quase 25 anos de negociação, parecia que o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia seria, finalmente, assinado. A Comissão Europeia planejava selar o pacto que cria a maior zona de livre comércio do mundo em 20 de dezembro.
O plano, no entanto, mudou após a Itália se alinhar à França para exigir um adiamento e buscar maior proteção ao seu setor agrícola, deixando para o início de 2026 o encerramento do processo. A previsão é que a assinatura ocorra ainda em janeiro.


