Nos 12 alqueires do Sítio Bandeirantes, onde está instalado o Centro de Recuperação Vida Nova (Cervin), em Rolândia, no Norte do Paraná, a experiência do agrônomo suiço Josef Viktor Dietsche, 38 anos, ajuda a aumentar a produtividade e também a recuperar os internos dependentes de drogas e do álcool.
‘‘O ambiente rural, a tranquilidade, o clima, a alimentação saudável e a busca do equilíbrio através do conhecimento do projeto de Deus para a vida do homem são elementos importantes na recuperação dos internos. É impressionante a experiência dos alunos quando eles mesmo plantam, cuidam e depois colhem alimentos saudáveis que farão parte da sua refeição. Essa relação com a natureza ensina o interno a valorizar coisas pequenas do dia a dia. Isso ajuda muito na recuperação da auto-estima’’, diz Josef.
DiversificaçãoA pequena propriedade do Cervin foi transformada num grande centro diversificado de culturas como soja, milho, trigo, feijão, aveia, pastagem, pecuária de leite, minhocário e uma horta. O agrônomo destaca que grande parte da produção é orgânica. ‘‘Utilizamos esterco de gado, de porco, calcário e adubação verde nas nossas lavouras’’, comenta. Ele se diz satisfeito com a produtividade. A Soja rendeu 120 sacas/alqueire. ‘‘Para a cultura orgânica é satisfatório, até porque conseguimos vender por 25 reais a saca, quando o preço médio estava em 17 reais’’, compara. A produção de peixes para pesque-pague chega a 6 mil quilos/ano, e dali são retirados 150 litros de leite/dia.
A preocupação com o social trouxe o agrônomo para o Brasil. Técnico agrícola e agrônomo formado pela Faculdade de Berna, Sepp, como é chamado, visitou o trabalho que um missionário suiço desenvolvia com famílias carentes na boca do lixo em São Paulo. ‘‘A dedicação e o amor daquele homem aos pobres me emocionou. Como acredito que o dinheiro não é tudo na vida, comecei a planejar minha vinda para o Brasil’’. Em 91, passou aqui três meses de sua lua-de-mel. Durante um mês viajou para mostrar o País para sua esposa e os outros dois meses trabalhou como voluntário na ‘‘boca-do-lixo’’ em São Paulo. Três anos depois, deixou para trás 8 anos de trabalho numa empresa suiça – onde foi extensionista em sistema de ventilação e microclimas para aproveitamento de energia no ar aquecido, e depois gerente de unidade –, para ser voluntário no Cervin, onde encontrou condições de se comunicar em alemão enquanto aprendia o português.
ComparaçõesSobre um paralelo entre a agricultura brasileira e a suiça, Sepp diz que são completamente diferentes. A começar pelo tamanho das propriedades. Enquanto em alguns Estados daqui predominam grandes latifúndios, lá a propriedade média tem cerca de 20 hectares. Na Suiça, o leite é responsável por 70% da renda agrícola e as propriedades são 100% mecanizadas. O preço da diária de um trabalhador rural poder chegar a 150 reais, o que inviabiliza a contratação de mão-de-obra. Ele cita o exemplo de seu irmão, que cultiva 40 hectares na cidade de Kriessern, na fronteira com a Áustria, o qual tem cinco tratores na propriedade e diversos implementos. ‘‘É impossível e inviável uma propriedade de 40 hectares no Brasil ter toda essa maquinaria’’, compara.
O subsídio que o governo suiço oferece para a agricultura é outro diferencial. O agrônomo afirma que seu irmão recebe de incentivo 40 mil reais todo ano, simplesmente para cumprir algumas recomendações básicas. Como por exemplo, não cortar o feno antes do dia 10 de junho – para que as abelhas e alguns insetos possam desfrutar das flores; soltar o gado pelo menos três vezes por semana, para que os animais tenham uma vida mais saudável, garantindo a qualidade da carne e do leite; manter parte da propriedade preservada e utilizar produtos químicos com critério, para que a lavoura ou a pecuária não recebam excesso de agrotóxicos. ‘‘Essas normas mostram que o governo paga o produtor para que ele possa garantir o equilíbrio ambiental’’, observa.
A garantia do preço dos produtos pelo governo, ao longo dos anos, é um fator, segundo Sepp, que permite ao agricultor planejar o que plantar, já com o cálculo de quanto deve lucrar com a atividade durante o ano. ‘‘Supondo que o preço do litro do leite na Suiça é 1 real, basta atravessar a fronteira que o preço cai para 60 centavos, mas o governo mantém a 1 real. Com a garantia do preço, junto com os proprietários rurais, técnicos do governo planejam o que deve ser plantado, justamente para que haja um equilíbrio na produção do país. A rotação de culturas – explica – também serve como uma técnica para combater a proliferação de pragas. ‘‘Ninguém pode plantar uma mesma cultura numa mesma área por anos seguidos, isso contraria a própria lei da natureza’’.
Questionado sobre o que deveria mudar na agricultura brasileira, Sepp sugere que o governo poderia adotar uma política agrícola com regras claras e permanentes, além de incentivar a produção orgânica com a oferta de crédito e melhores preços na comercialização. O agrônomo suiço também exorta sobre a necessidade de maior critério na utilização de agrotóxicos. ‘‘A permissão que Deus deu é para que o homem tire da terra o seu sustento, mas com equilíbrio, sem promover a agressão do meio ambiente’’, argumenta. Sepp, que acaba de completar seis anos de trabalho no projeto agrícola e de recuperação de viciados, em Rolândia, confessa que veio ao Brasil para ficar, no máximo, três anos. Já ficou o dobro do tempo e, no final do ano passado, teve, junto com a mulher e as quatro filhas, que tomar uma decisão difícil. Voltar para a Suiça ou permanecer mais alguns anos no Brasil? Essa era a questão. Depois de cinco dias retirado com a família na Ilha do Mel, ele conta que sentiu ‘‘a direção de Deus’’ para ficar, por mais algum tempo, com o apoio da Missão de Marburg, da Alemanha. Sua permanência foi comemorada pelos diretores e internos do Cervin, apesar da frustração de seus familiares que contavam com a sua volta para a Suiça.

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