Agricultura, problema complicado
Agricultura, problema complicado
Jota Oliveira
Na última Terça-feira, 20/4, o Presidente do Brasil encerrou mais uma viagem à Europa, onde procurou negociar com alguns países um tratamento menos espoliador nas relações internacionais de comércio. Fernando Henrique Cardoso, como os dirigentes de outras nações produtoras de alimentos e demais matérias-primas agrícolas - casos de Argentina, Bolívia e Paraguai, os parceiros no Mercosul -, quer mais facilidade para vender suas mercadorias aos consumidores internacionais. As nações abastadas, de maior peso nas decisões internacionais, querem manter as barreiras para as mercadorias de fora e empurrar suas sobras com vantagens, para as despensas pobres, os paióis do Terceiro Mundo.
Fernando Henrique terminou em Londres sua visita à Europa, no momento em que outro país latino, a Argentina, via manifestações inéditas de sua categoria empresarial rural, que se queixa de dívidas de US$6 bilhões, apesar de 60% das exportações daquele país serem de produtos agropecuários e de 25% dos trabalhadores argentinos serem empregados pelo setor rural. A crise no campo argentino mobiliza todas as associações de produtores rurais e suas confederações, pois a situação parece insustentável nos Pampas.Tanto que desde 1991, diz a Agência Estado, 100 mil produtores (25% do total existente no país) abandonaram o campo.
Existem alguns pontos comuns entre os problemas da Argentina e os brasileiros, como dívidas que não podem ser pagas e obrigam os lavradores a hipotecarem suas propriedades; e os pedágios sobre o transporte de produtos agropecuários. O governo Menem tentou esvaziar a manifestação de seus antigos aliados rurais, oferecendo refinanciamento das dívidas, subsídios para os juros e redução dos pedágios, mas os agropecuaristas consideraram as propostas insuficientes, informa a A.E.. Pesquisa feita naquele país, mostra que 84%, contra 35% no ano passado, acham que 1999 será um ano ruim. Eles atribuem o abandono do campo ao plano econômico do presidente Menem, e querem eliminação do imposto sobre receita mínima e dos juros sobre os créditos.
Na Alemanha, Portugal e Inglaterra, o presidente brasileiro, Fernando Henrique Cardoso, recebeu a confirmação de que os três governos estariam dispostos a apoiar as negociações para que o Mercosul possa participar da União Européia, e até a iniciar negociações junto aos demais países da Europa, para começar uma discussão sobre fluxo de comércio.
E aí há um problema complicado, que é a agricultura, disse FHC, em entrevista à imprensa, na Embaixada do Brasil em Londres, referindo-se à resistência da França, que não aceita retirar suas barreiras contra produtos agrícolas. Em vista dessa situação, ora um ora outro país consumidor alega alguma coisa para manter dominados os produtores do Terceiro Mundo. Se, como atualmente na Argentina, o próprio governo trabalha contra a produção local, não se pode esperar que países importadores socorram seus fornecedores. A ética do mercado internacional baseia-se nisso: se o Brasil (ou a Argentina) produz muito gado, muita soja, tem que baixar os preços. Vem de chapéu na mão, oferecendo comida que está sobrando lá, devido à grande produção e pobreza do mercado interno. Acaba vendendo pelo preço que eu quiser pagar.
A solução do impasse parece ser uma: competência. Se um país, Brasil, Argentina, Bolívia ou Paraguai, não importa, produz alimentos com qualidade e na quantidade exigida pelos consumidores de outras regiões do Mundo, eles vão comprar esses bens, e até pagar mais caro, como está acontecendo hoje com a soja orgânica, ou o melhor café, o boi de capim ou o boi de curral, alimentado com ração. O que interessa ao público consumidor, lá de fora ou interno, é a carne mais macia, com menos teor de gordura, a soja sem veneno, e, naturalmente, dadas as circunstâncias atuais da economia nacional, a preço razoável.
Na recém-concluída 39ª Exposição Agropecuária e Industrial de Londrina, foi lançado o programa Café Qualidade Paraná; mostrou-se uma lavoura de café adensado, que produzirá a bebida de qualidade, e com destaque, mostrou-se o boi do Século 21, o rebanho reprodutor de raças que transformará a pecuária brasileira, além da maior, na melhor pecuária do Mundo. Esse boi, esse café, terão mercado, porque a maioria dos países consumidores não possui terra de onde tirar todo o alimento de que seu povo necessita. E, hoje, as nações do Hemisfério Sul, geralmente as produtoras de comida a custo barato, estão pressionando os grandes, para uma melhor distribuição do bolo do comércio mundial. Ganhará uma fatia melhor, quem tiver mais competência, isto é, qualidade. No dia 28 de junho, no Rio de Janeiro, a Reunião de Cúpula dos Países Europeus, da América Latina e do Caribe discutirá novamente a questão do mercado internacional e as barreiras de todo tipo contra as quais se insurgem os países fornecedores de alimentos.
O autor é editor da Folha Rural.





