Agricultura e bioeconomia
Ao longo dessa evolução, a primeira técnica biológica a ser adotada deve ter sido a seleção dos melhores grãos
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de novembro de 2022
Ao longo dessa evolução, a primeira técnica biológica a ser adotada deve ter sido a seleção dos melhores grãos
Paulo Sendin 
Antes de ser agricultora, a humanidade era essencialmente coletora e caçadora, ou seja, explorava diretamente os recursos biológicos disponíveis na natureza, para garantir sua sobrevivência.
Com a “invenção” da agricultura, passamos a concentrar esse processo de intervenção no meio ambiente, explorando as áreas específicas e próximas onde vivíamos e levando a população a se adensar, com a consequente redução da sustentabilidade em relação ao que a natureza nos podia proporcionar. Para fazer face a esse problema de superexploração, os agricultores buscaram o aperfeiçoamento das técnicas utilizadas, aplicando estratégias como o uso de melhores sementes, a adubação e o pousio.
Nesse sentido, várias “rotas tecnológicas” foram seguidas. Na história mais recente, adubos químicos passaram a ser utilizados em larga escala, repondo o que era extraído nas colheitas e, eventualmente, ”melhorando” a fertilidade natural do solo. Na “rota mecânica” das inovações, técnicas e equipamentos foram desenvolvidos para melhor adequar as condições físicas do solo às necessidades das plantas.
Mas, embora as “rotas tecnológicas” químicas e mecânicas sejam importantes e contribuam em muito para a produtividade e eficiência dos sistemas agrícolas, com certeza a “rota biológica” tem sido fundamental nesse processo evolutivo da agricultura. Isso é óbvio, pelo fato das plantas e animais, objetos da agricultura, serem “seres biológicos”.
Ao longo dessa evolução, a primeira técnica biológica a ser adotada deve ter sido a seleção dos melhores grãos para servir como sementes, inaugurando assim o melhoramento genético. Outra técnica biológica adotada desde os primórdios da Agricultura, foi o pousio que, embora não pareça ser explicitamente “biológico”, no fundo se baseia na necessidade de se recuperar e recompor as condições físico-químicas e, principalmente, biológicas do solo.
Esse “capítulo biológico” da história da evolução da Agricultura atinge hoje uma relevância elevada pelo fato do conhecimento científico nos permitir entender muito melhor as relações e interações biológicas entre as plantas e o ambiente em que se inserem.
Com a evolução das pesquisas e a ampliação do conhecimento sobre as interações biológicas entre as plantas e o seu ambiente e entre os inúmeros participantes desse ecossistema, um crescente volume de inovações biológicas tem surgido. E, como inovações inseridas em sistemas produtivos têm custos e geram resultados econômicos, essas novas práticas biológicas se tornam “bioeconômicas”.
Assim, atualmente, muito além da inserção de inovações genéticas, a biologia passa a ser cada vez mais preponderante nos sistemas produtivos, garantindo não só incrementos de produtividade, mas também a sustentabilidade da agricultura.
Os novos insumos biológicos, ou “bioinsumos” substituem ou minimizam o uso de intervenções químicas que produzem maior impacto ambiental e têm menor sustentabilidade no longo prazo.
Resumindo, a agricultura atual, e no futuro previsível, utilizará, cada vez mais, a “rota biológica para o desenvolvimento e uso de inovações. E isso lança um grande desafio aos cientistas e pesquisadores, pois as interações biológicas são muito mais complexas e menos previsíveis que as químicas e as mecânicas.
Dessa forma, para garantir o sucesso no desenvolvimento de bioinsumos e no fortalecimento de uma saudável bioeconomia, o investimento na busca de conhecimentos detalhados sobre as interações biológicas que ocorrem no ecossistema das plantas produtivas é essencial.
Paulo Sendin, engenheiro agrônomo, membro da Governança AgroValley


