Agricultura brasileira:
riscos, ameaças ou oportunidades?
Judas Tadeu Grassi Mendes
Todos os cinco processsos que vêm ocorrendo no Brasil, nos anos 90 - a globalização, a estabilização da moeda, a privatização, a abertura da economia e a crescente conscientização do consumidor nacional, têm consequências diretas sobre os setores econômicos do País, em especial os da agropecuária. Alguns desses processos são mais evidentes e vêm chamando mais a atenção, como a globalização e a abertura da economia, uma vez que eles vêm tendo um impacto muito grande e rápido sobre o meio rural brasileiro. As consequências são diferentes para dois grupos de produtores e dois grupos de cooperativas.
A globalização, que é um fenômeno irreversível, força as empresas a serem mais competitivas, mais eficientes, através da maior produtividade, menores custos e melhor qualidade dos produtos e serviços. Aqui, a tecnologia é a única alternativa que têm os produtores: ou adotam (e sobrevivem e até crescem) ou tendem a desaparecer.
Para os pequenos produtores rurais pouco tecnificados, com baixa produtividade, descapitalizados e operando com elevados custos médios, as dificuldades serão muitas, sendo altamente provável que muitos deles irão engrossar o contingente do êxodo rural, o que é péssimo. Para esses, os riscos e ameaças, resultantes da abertura da economia brasileira e da globalização, são grandes, e as oportunidades limitadas. A alternativa para esse grupo de produtores é a busca de atividades agrícolas com elevado valor agregado por hectare, tais como frutas, verduras, a retomada do algodão, do café (no sistema adensado) e possivelmente da cana-de-açúcar com a reativação do Proálcool, em algumas regiões do Paraná. Por exemplo, sabe-se que com cinco hectares de frutas ou de café, uma família pode gerar renda suficiente para viver condignamente, o que seria impossível se fosse com soja ou com milho, cujas rentabilidades são baixas por hectare, o que exige uma extensão grande para serem viáveis.
Os riscos e ameaças são também grandes para as cooperativas agropecuárias pequenas ou as grandes com dívidas muito elevadas. A cooperativa pequena tem que se unir, pois caso contrário permanecerá fraca e sem condições de sobreviver, ao ter que competir com os grandes grupos privados (nacionais ou internacionais) que são geridos profissionalmente, além de serem capitalizados.
É importante lembrar que a fusão de empresas é uma tendência mundial. Nos EUA, ao longo dos últimos 40 anos, a cada ano ‘‘desapareceram’’ 250 cooperativas, ou seja, praticamente a cada dia útil uma cooperativa deixou de existir. Na realidade muitas fecharam, mas, na maioria dos casos, o que houve foi simplesmente fusão de duas ou mais, resultando em apenas uma terceira. É por isso que a maior cooperativa agropecuária norte-americana (a Farmland) fatura por ano mais de cinco bilhões de dólares, o que corresponde ao faturamento global de todas as cooperativas agropecuárias do Paraná.
As oportunidadesPara os produtores com elevado nível tecnológico (como são exemplos os filiados à Batavo, Castrolanda e Entre-Rios, só para citar alguns casos), a globalização e a abertura da economia representam ameaças menores e oportunidades maiores.
Ministrando, há poucos dias, um curso de economia agrícola para produtores de uma cooperativa, cujos associados podem ser classificados como portadores de tecnologia de primeiro mundo, constatei que alguns alunos-agricultores (todos com nível superior) vinham obtendo alta produtividade, tais como 3.400 quilos de soja por hectare, 8.000 kg/ha de milho e (pasmem!) 2.600 kg/ha de feijão. Assim, os custos médios são relativamente baixos (R$5,64/saca de soja, R$4,17/saca de milho e R$17,30/saca de feijão).
Nestes casos, o lucro seria de R$270 por hectare de milho a R$940/ha no feijão (com a soja ficando em R$570/ha). Para produtores desse ‘‘calibre’’, a solução interna à propriedade já está dada, ou seja, eles já fizeram e fazem tudo certinho, isto é, são eficicentes e altamente competitivos no processo produtivo. Em outras palavras, no que depender deles, a abertura da economia e a globalização não trazem problemas maiores.
Para esses produtores tecnificados e com área cultivada em torno de 300 ou mais hectares, o problema de encarar a competição externa está fora da propriedade rural, ou seja, na não-igualdade de condições com os produtores de outros países. Esta ‘‘desigualdade’’ está concentrada em cinco fatores: na inadequada infra-estrutura (transporte e portos caros); nos juros ainda elevados (embora declinantes), nos últimos anos; na legislação trabalhista não flexível e incompatível com as atividades agrícolas; e na questão tributária (apesar da melhora ocorrida com a isenção do ICMS na exportação).
Por ‘‘questão tributária’’ entende-se também o tratamento compensatório para produtos que entram no Brasil com subsídios na origem, como ocorreu com o algodão nos últimos anos. Neste caso, é fundamental colocar um imposto na importação em igual valor ao subsídio, para que os nossos produtores rurais tenham as mesmas condições. Entretanto, se o produto importado entra no Brasil com preços baixos porque eles são eficientes lá fora, então a questão é outra, ou seja, o nosso produtor vai ter que se virar e se tornar também competitivo.
Perspectivas melhoresNeste momento em que o Plano Real completa três anos, ouve-se reclamação de alguns dirigentes rurais, alegando prejuízos causados por este plano ao setor agrícola. Muito embora a agricultura tenha sido a âncora verde do Plano Real em 1995, ano em que houve uma significativa queda da renda agrícola (em torno de 25%), a verdade é que a estabilização da economia é tudo o que a agricultura mais deseja, pois este é o setor que mais necessita de preços estáveis, uma vez que o produtor rural não forma preços (afinal, ele é um tomador dos preços de mercado).
Analisando-se os principais componentes do lucro, tem-se: pelo lado da receita, os preços dos produtos; e pelo lado dos custos os preços dos insumos agrícolas, por serem produzidos por oligopólios, sobem mais do que os preços dos produtos, que são controlados por oligopsônios). Além disso, quanto mais estável for a economia (e Plano Real está demonstrando isso), maior a demanda por produtos agrícolas, em especial os de maior elasticidade-renda, tais como frutas, verduras, produtos derivados do leite, e carnes em geral. Cabe ressaltar, contudo, que essa maior demanda não necessariamente resulta em maiores preços, porque a abertura da economia e a globalização aumentam a competição, como vem acontecendo com os produtos argentinos, em especial no milho, trigo, carne, leite e alguns enlatados.
É importante relembrar que o aumento de produtividade depende de investimentos no processo produtivo. Além disso, as cooperativas tenderão a investir mais no segmento do agribusiness (integração vertical) à medida em que os juros fiquem menores e a economia consolide definitivamente o processo de estabilização. Afinal, investimento depende não só de juros baixos, mas também de menores incertezas no futuro. Em resumo, os grandes problemas da agropecuária estão foram da porteira (exceto para os produtores ainda não tecnificados, que necessitam fazer a sua parte). Entre esses problemas estão a variabilidade de preços (que pode ser reduzida, via maior investimento em armazenagem); os elevados custos de transporte e portuários (que estão em processo de melhoria, até porque a privatização está começando a acontecer); e na ainda pouca exploração do segmento do agribusiness de maior valor adicionado, que é a agroindústria. Para tanto, as cooperativas necessitam ter uma gestão moderna e profissional dos negócios, mais integradas (seja via parcerias, joint-ventures ou até fusões) para poderem competir em pé de igualdade com os segmentos privados do agribusiness instalado no Brasil. Em outras palavras, o momento é de ameaças para os acomodados, mas de grandes oportunidades para os ousados, os dinâmicos, os positivos, os organizados, os criativos, os planejados e os ‘‘focados’’ e atentos ao mercado.
O autor é Ph.D. em Economia Rural, ex-professor titular da UFPR, ex-presidente do Ipardes e da Fundepar. É autor do livro ‘‘Economia Agrícola’’, e consultor e palestrante na área de Economia e Agribusiness.

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