Agricultor: vítima ou réu?
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de novembro de 2000
Sérgio Carneiro 
Desastre. Produtores cometem crime contra o meio ambiente, retomando o plantio convencional que revolve o solo num momento de estiagem e altas temperaturas, e podem provocar um desastre ecológico. Foi isso que lemos na Folha Rural nº1241, de 28/10/00.
Concordar que a situação narrada é mesmo desastrosa, é fundamental para aceitar a adoção de medidas de impacto, visando conter seu avanço e reverter esse processo. Temos a certeza de que foi essa a intenção da referida matéria, pois conhecemos o trabalho, a competência e a seriedade das pessoas que argumentaram sobre o tema, incluindo a repórter.
O que não concordamos é com a forma que o assunto foi abordado, imputando aos agricultores a maior carga de culpa pelo modelo de agricultura em prática. Também achamos que está ocorrendo falta de informação, de assistência técnica e de vontade dos produtores, porém em apenas uma pequena parte. Vale destacar que a maioria dos produtores e da assistência técnica está bem informada. -
Em 1992 fizemos uma pesquisa em Sertanópolis durante um dia-de-campo com cerca de 100 produtores rurais daquela região. Na ocasião, 95% dos produtores disseram que conheciam a adubação verde e que achavam uma boa prática, mas apenas 5% dos entrevistados adotavam essa tecnologia. O principal motivo alegado pelos não adotadores, era de ordem econômica.
Atualmente, pouca coisa mudou apesar de tantas reuniões, dias-de-campo, exposições dinâmicas e excursões com agricultores. Precisamos assim abrir o debate para os reais motivos que estão dificultando a transformação de um modelo agrícola desgastado, e que trouxe problemas ao meio ambiente, para uma agricultura que incorpore efetivamente o conceito de sustentabilidade. Apesar de todos os esforços do governo do Paraná, da iniciativa privada, de entidades de classes, entre outras, direcionados para minimizar as dificuldades nessa necessária transformação, o modelo agrícola implantado com subsídios ainda persiste.
Como o pequeno agricultor, que é maioria no sistema de produção de grãos no Estado do Paraná e tem renda limitada, vai encontrar os meios para abandonar de vez o sistema de plantio convencional, investir na adução verde, fazer rotação de culturas e renovar suas máquinas e implementos agrícolas? Por que não incluir a adubação verde no custeio agrícola? Quais tecnologias são preconizadas e quais as formas de as difundir? Por que não há financiamento para atender um plano global de melhoria do sistema de produção? E o seguro agrícola? E a organização dos produtores rurais? Essas são algumas questões , dentre outras, que devem ser debatidas para buscar soluções em promover as transformações necessária no campo.
A região de Londrina é privilegiada por contar com instituições de pesquisa, de ensino, de extensão rural e de assistência técnica, entidades de classes e outras organizações rurais. Várias iniciativas foram tomadas para agregar esforços em benefício da comunidade, entre elas as criações dos conselhos municipais e comissões regionais de desenvolvimento rural. Podemos citar ainda a ADETEC, o GPDR, a FAPEAGRO, a AMEPAR, a AVEMPAR e muitos mais como entidades que podem apoiar a agricultura.
Um dos motivos para nos unirmos é evitar a persistência de um modelo agrícola que degrada o meio ambiente, atrasa o desenvolvimento rural e custa caro para a sociedade. O agricultor que assume cidadania e tem responsabilidades econômicas, sociais e ambientais, recebe hoje muita informação e pouca formação. Ele merece reconhecimento, além de qualidade de vida, mais oportunidade de renda, tempo para lazer, acesso à modernidade e, principalmente, estímulo para preparar seus sucessores no campo. Se isso não acontecer, o desastre maior virá pelas nossas omissão e desunião, e colocarmos o homem rural como vilão da história.
O autor é engenheiro-agrônomo da Emater de Londrina.


