Agricultor familiar quer independência
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sexta-feira, 06 de julho de 2001
Gilmar Agassi De Cascavel 
Os agricultores familiares, aqueles com no máximo 50 hectares de terra, estão cada vez mais independentes em relação às grandes cooperativas. Apesar de muitos ainda serem associados dessas cooperativas, uma grande parte já se movimenta no sentido de formarem suas próprias, com o objetivo de conseguirem diminuir os custos de produção e aumentar os lucros na comercialização.
A maior reclamação dos pequenos agricultores está relacionada a uma possível mudança de comportamento por parte das grandes cooperativas. Segundo Valdir Neis, coordenador do Fórum Oeste de Entidades para Desenvolvimento da Agricultura Familiar, as cooperativas deixaram de se preocupar em ajudar os pequenos agricultores para pensar somente no lucro final. Na verdade, as cooperativas se transformaram em empresas cujo objetivo final é o dinheiro.
Viabilidade econômicaValdir Neis comenta que para ser considerado um agricultor familiar, o produtor precisar retirar da terra cerca de 60% de seu sustento e usar mão-de-obra familiar, ou seja, não pode ter mais que dois empregados fixos em sua propriedade. Ele complementa que mais de 60% dos agricultores familiares não alcançam mais de um salário mínimo de renda mensal e que a ligação com as cooperativas reduz cada vez mais seus lucros.
Valdir diz estar preocupado com o futuro dos agricultores familiares que continuam associados às cooperativas. Ele explica que esses produtores ainda recebem uma assistência técnica baseada na agricultura convencional. Já conseguimos comprovar através de várias pesquisas, que a solução para os agricultores familiares é a agricultura orgânica onde os custos com a produção são insignificantes perto da convencional.
O coordenador do Fórum Oeste defende a adoção de uma nova base tecnológica de produção, com a promoção da agrotecnologia, utilizando como fonte principal a agricultura orgânica. Ele diz que nesse tipo de produção, os agricultores familiares conseguem lucros maiores do que os alcançados com a agricultura convencional, além de estarem contribuindo para a preservação da natureza. Dessa forma teremos uma agricultura economicamente viável.
Alternativa de crédito Como alternativa para fugirem das grandes cooperativas na parte financeira, os agricultores familiares contam com a Cooperativa Rural de Crédito com Interação Solidária (Cresol), cuja ação principal é a viabilização econômica desse agricultor. Nos três Estados do sul do País, segundo Valdir Neis, existem mais de 18 mil associados à Cresol, que estão conseguindo sua sustentabilidade através da diversificação, possibilitada por recursos vindos dessa cooperativa.
Segundo dados do Departamento de Estudos Sócio-Econômicos Rurais (Deser), uma Organização Não-Governamental (Ong), que atua diretamente com os agricultores familiares, na região sul, cerca de 40% desses produtores ainda estão ligados às grandes cooperativas. Para o economista do Deser, Arnoldo de Campos, nos próximos anos existe a perspectiva de que os pequenos produtores se unam em cooperativas próprias.
Arnoldo acrescenta que apenas no Paraná existem mais de 321 mil propriedades de agricultores familiares, responsáveis pela geração de 50% de toda renda agrícola do Estado. O economista ressalta que a agricultura familiar no Paraná é responsável pela geração de emprego a 1 milhão de pessoas, o que significa cerca de 85% de todos postos de trabalho na agricultura.
Associação vira cooperativa Aproveitando-se do fato de já contarem com uma associação organizada, alguns agricultores familiares que moram no Reassentamento São Francisco, ligado à Comissão Regional dos Reassentados do Rio Iguaçu (Crabi), também já estão se movimentando no sentido de fundar sua própria cooperativa. A princípio será uma cooperativa mista, em que serão produzidos e comercializados produtos convencionais e orgânicos.
O técnico em agropecuária da Crabi, Luiz Carlos Battisti, observa que para o futuro a intenção é produzir apenas os orgânicos, que, segundo ele, são mais rentáveis, geram maior número de empregos por não utilizarem produtos químicos no combate às pragas, além de ajudarem na preservação do meio ambiente.
O agricultor Valdir Poluceno Nunes, que mora no Reassentamento, diz que os pequenos produtores da região não são associados às grandes cooperativas porque já possuem uma outra própria, responsável pela assistência técnica. Ele diz que planta vários tipos de culturas, como soja, mandioca, arroz, feijão, sendo todas no modelo orgânico.
Cooperativismo justo O presidente da Cooperativa Agropecuária Cascavel (Coopavel), Dilvo Grolli, discorda da afirmação de que as cooperativas deixaram de atender aos pequenos produtores para pensarem apenas no lucro. Ele diz que na área de atuação da Coopavel dos 3,5 mil associados cerca de 82% são pequenos produtores que recebem a mesma assistência técnica oferecida aos médios e grandes agricultores.
Dilvo acrescenta que todos associados têm as mesmas condições de comercialização, não sendo possível oferecer vantagens aos agricultores familiares em detrimento dos demais. As cooperativas precisam trabalhar em escala comercial, sendo assim, não há como oferecer benefícios fora da realidade do mercado. Além disso, nós também temos uma função social porque dificilmente o pequeno agricultor conseguiria chegar sozinho ao mercado.
Para Dilvo Grolli, as cooperativas buscam o fortalecimento das bases de seus cooperados, para melhorar as condições econômicas e sociais deles. Cada dia mais o cooperativismo está sendo um sistema mais justo. Este é um tipo de associação que cresce a cada dia e que tem se expandido para outras áreas de mercado, conclui.


