Agricultor com perfil de empresário
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 27 de julho de 2001
Carolina AvansiniDe Londrina 
A agricultura é uma atividade complexa. Na atual conjuntura de globalização, onde só sobrevive quem vence a competitividade, é necessário que o produtor adote uma postura de empresário rural. Isso significa dominar não apenas o manejo da lavoura, mas entender também de gerenciamento e de comercialização. Esta é a opinião do engenheiro agrônomo Sérgio Luiz Carneiro, da Emater Regional de Londrina. Para obter êxito, é fundamental ter profissionalismo, saber se organizar e buscar meios de aumentar a produtividade. Tudo isso com custo controlado e previsão dos riscos possíveis, afirma.
No Paraná, a estrutura fundiária caracterizada por pequenas propriedades acrescenta algumas exigências. De acordo com Sérgio, 80% dos produtores paranaenses exploram áreas inferiores a 50 hectares (ha), enquanto 50% da área total está na mão de grandes proprietários.
Esse contexto exige que os pequenos optem por produtos que proporcionem mais renda por área, como é o caso das frutas e da olericultura. As atividades recomendadas, porém, demandam técnicas produtivas especializdas e domínio dos canais de comercialização. Em contrapartida, de acordo com dados do Programa Nacional de Educação e Reforma Agrária, 75% da população rural é analfabeta.
RedesHá três anos, Sérgio Carneiro vem realizando um estudo para analisar a viabilidade de produzir grãos em oito pequenas propriedades da região de Londrina, nas quais a maior parte da renda bruta (30% ou mais) é retirada do cultivo de grãos.
Em todo o Estado, 200 produtores de 11 regiões estão sendo analisados, de acordo com a principal atividade desenvolvida. Todas as propriedades possuem área inferior a 50 hectares (ha) e usam principalmente mão de obra familiar.
As conclusões obtidas ao final do trabalho, que deve se estender por mais dois anos, vão integrar as Referências para a Agricultura Familiar (REDES), uma espécie de radiografia dos sistemas de produção das pequenas propriedades paranaenses. Os resultados têm o objetivo de subsidiar, com dados e troca de experiências, a tomada de decisões dos produtores.
Renda Após a análise das safras 98/99 e 99/00, Carneiro já chegou a algumas conclusões parciais sobre as oito propriedades em estudo. Ele levantou, por exemplo, que a remuneração líquida média mensal de cada família foi R$896. A remuneração bruta, por sua vez, foi R$1.730/mês. Esses números devem subir ao final da atual safra. O ano passado foi atípico por causa da estiagem e da geada, que ocasionaram muitas perdas. São resultados apenas parciais, ressaltou.
Ele considera a remuneração baixa diante do volume que representa o patrimônio de cada produtor: R$ 100 mil em média. Se estivesse aplicado com juros de 1% ao mês, renderia R$ 1000 mensais, argumentou, lembrando que os resultados são parciais e não permitem conclusões definitivas sobre a renda média nas propriedades.
A situação enfrentada pela soja, que é a principal renda do sistema de produção de grãos, exemplifica a conjuntura dos últimos três anos. Na safra 98/99, a média de produtividade dos oito agricultores foi de 3.244 quilos/ha, com custo variável de R$438/ha ou R$8,11/saca, gerando margem bruta de R$570/ha.
Em 99/00, a produtividade caiu para 2.780 quilos/ha, com custo de R$403/ha ou R$8,71/saca e renda bruta de R$506/ha. A queda na produção foi ocasionada pela estiagem. Na safra 00/01, a produtividade voltou a aumentar, atingindo 3.222 quilos/ha, com custo variável de R$382/ha ou R$7,11/saca, gerando margem bruta de R$593/ha. Para Sérgio, o resultado da última safra pode ser considerado de médio a bom.
ConclusõesSérgio chegou a outras conclusões parciais sobre o contexto dos pequenos produtores de grãos paranaenses. Segundo ele, os agricultores tem dificuldades na renovação do maquinário. As máquinas possuem, em média, 19 anos de uso. Os produtores não conseguem acompanhar as novidades porque o sistema não permite grandes investimentos além do sustento da família. Os produtos são fabricados para outra camada social, disse.
Ele afirmou que o milho e o trigo apresentam alto risco e baixa produtividade, mas continuam sendo plantados porque não existem outras alternativas para o inverno. As atividades complementares, resultantes da diversificação, apresentam maior rentabilidade por unidade de área. Exigem, porém, maior volume de investimentos. A fruticultura, por exemplo, demanda recursos na ordem de R$1.500 a R$20 mil.
Carneiro acrescentou ainda que diversificação tem limites. O produtor não pode se aventurar sem ter certeza do que está fazendo. É preciso trabalhar com risco calculado e ser especialista em cada uma das atividades, comentou. Ele informou que o café, por exemplo, oferece retorno em três ou quatro anos e as frutas, em no mínimo quatro anos. A instalação de um aviário, por sua vez, se paga em seis anos.
TendênciasO engenheiro agrônomo identificou tendências negativas e positivas nas propriedades em estudo. Entre as consideradas negativas, ele ressaltou o fato dos produtores não reservarem capital para investimentos, o que ocasiona, entre outros problemas, dificuldades na renovação dos equipamentos agrícolas. Na maioria das vezes, os recursos disponíveis são suficientes apenas para garantir o bem estar da família.
Outro problema levantado foi o fato de os produtores não prepararem os filhos para sucedê-los na terra.Muitos jovens estão buscando atividades fora do meio rural, ressaltou, lembrando que existem alguns exemplos de pais que prepararam os filhos para o trabalho na propriedade e vêm obtendo bons resultados.
As tendências positivas incluem a capacidade de organização para compra e uso de máquinas agrícolas, entre outras necessidades. Para Sérgio, essa condição é fundamental para viabilizar o acesso a novas tecnologias e obter mais apoio por parte do poder público. Segundo ele, os produtores são muito individualistas e preferem agir sozinhos. Eles precisam se conscientizar que é preferível abrir mão dessa individualidade para obter benefícios, defende.
Ele também acredita que os agricultores interessados em continuar produzindo grãos tendem a vender suas propriedades para comprar outras maiores, além de investirem em atividades que melhorem o sistema de produção de maneira global.


