Agricultor americano divide risco
Cláudia Barberato
Enviada aos Estados Unidos
A organização das propriedades americanas chamou a atenção de produtores brasileiros que visitaram fazendas nos Estados Unidos, no período de 28 de agosto a 6 de setembro, na terceira de uma série de viagens que a Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep) está promovendo para aquele País.
O produtor americano procura dividir o risco e não fica centrado em apenas uma atividade agrícola, considerou um dos representantes da Faep, Francisco Carlos do Nascimento. O produtor americano faz pesquisa particular, reduz espaçamento e se aprimora naquilo que faz. Tem orgulho de ser produtor; mora na fazenda e está sempre procurando tirar o melhor proveito daquilo que faz. Para isso, é um administrador de sua propriedade.
DiversificaçãoNa região do Meio-Oeste americano (llinois, Iwoa, Indiana e Michigan) a predominância é do milho, cultura que o agricultor cuida melhor. Há também grandes áreas de soja; na maioria transgênica, com promessas de redução na próxima safra, frente à oposição da Europa.
Os produtores também investem na criação de gado leiteiro, ovelhas e suínos, estes em forma de integração. Muitos agricultores são distribuidores de sementes e o interesse pelo produto orgânico, que é melhor remunerado no mercado internacional, é crescente. O grande investimento agora tem sido na produção de milho e soja tipos especiais.
Mesmas dificuldades?O agricultor Jerry Sanderson, de Dekalb, no Estado de Illinois, pertencente ao Illinois Farm Bureau, um tipo de federação da agricultura, disse aos agricultores brasileiros que os produtores americanos, embora tenham pequenas taxas de juros ao ano para compra de equipamentos, vivem numa alta competitividade por terra e produtividade.
O lucro, segundo Sanderson, sai da criatividade e diversificação nas fazendas. Ele mesmo tem plantios de soja e milho, criação de suínos, e é representante de uma grande empresa de sementes de grãos.
No ano passado 25% das sementes de milho e soja distribuídas foram transgênicas. Este ano o interesse pelos transgênicos baixou para 5% frente à notícia de que a Europa não compraria o produto.
Como pequeno operador não pode correr riscos e não vai comercializar sementes transgênicas no ano que vem. O faturamento total dos Sandersons por ano é de U$1 milhão em suínos, U$150 mil em grãos e U$250 mil em sementes, com lucro de 10%.
Força políticaO Illinois Farm Bureau, em Bloomington, órgão correspondente às federações de agricultura no Brasil, é considerado uma associação forte, comandada por produtores que influenciam de forma decisiva na elaboração de políticas para o setor. No Congresso Americano são 170 deputados do Estado de Illinois. De 8 a 10 desses políticos são relacionados à área agrícola.
O Governo americano, segundo o chefe de comunicação do Farm Bureau de Illinois, Dennis Vercler, não entra na briga de preços; o mercado se controla. Em tempos de preços baixos, hoje considerados os mais baixos dos últimos 30 anos, os produtores fazem lobby para pedir ajuda financeira.
No ano passado foram liberados U$6 bilhões ao setor agropecuário. Neste ano já existe a possibilidade de ser liberada nova ajuda, caso os preços das commodities continuem em queda.
A produção de soja poderia ser a maior da história daquele país, mas a seca prejudicou seriamente algumas regiões. O milho poderá ter a terceira safra da história, apesar de problemas localizados de seca. Mesmo com grande produção, Vercler acredita que os fazendeiros deverão perder dinheiro, porque os preços estão abaixo dos custos de produção.
Produtos especiaisO preço baixo dessas commoditties faz com que os produtores americanos pensem em novos nichos de mercado, como a produção de milhos especiais para alto teor de óleo e proteína; milho para silagem e, no caso da soja, um produto de maior qualidade alimentar com baixo teor de alergênicos, a ser exportado para o mercado do Japão.
Na região chamada Corn Belt, ou Cinturão do Milho (Illinois, Iowa, Indiana e Michigan), no Meio-Oeste americano, é produzido milho especial para silagem e a soja com baixo teor de alergênicos, menos produtiva do que a convencional, mas de valor quatro vezes maior do que a comercial.
Os fazendeiros americanos vivem em grande competição de produção, alto preço da terra e baixo preço pago ao produto final, o que os obriga a buscar alternativas, avaliou Cláudio Puríssimo, da Universidade Estadual de Ponta Grossa.
Essa soja, de acordo com Puríssimo, tem um custo de produção mais alto por ser conduzida de forma orgânica. O controle de pragas é feito somente com produtos à base do Bacilus thurigenses, que é natural. Já para o controle de ervas daninhas é feito o cultivo entre linhas e são utilizados métodos manuais, como capinas. A rotação de culturas, além das coberturas verdes, fecha o manejo de controle. A alfafa e a aveia são as culturas de rotação e cobertura verde predominantes.
O produto final limpo e ambientalmente correto é vendido no Japão para a fabrição de tofu e outros alimentos à base de soja, ao preço de U$20 por bushel (1 bushel equivale a 27,2kg), ao passo que a soja convencional vale U$5 o bushel.
Boa alternativaNo Paraná o cultivo de produtos orgânicos está crescendo, segundo Luís Carlos Hatschbach, do Departamento de Fiscalização Sanitária (Defis), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Paraná (Seab). A exemplo de algumas regiões dos Estados Unidos, a soja orgânica tem o valor em dobro da convencional e há grande perspectiva de que no futuro seja a grande alternativa para agregar valores ao produto final, fazendo o marketing de oferta de um produto mais saudável a ser exportado para Europa e Japão.





