Africanização melhora apicultura
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sexta-feira, 07 de março de 1997
Cristina Côrtes 
ProduçãoBernardo Quinteiro mostra a variedade de produtos fabricados pelas abelhasO Brasil está hoje entre o cinco países que mais produzem mel no mundo, graças à africanização das abelhas que começou há 40 anos atrás, consequência de um pequeno acidente de pesquisa. O País produz anualmente cerca de 40 mil toneladas de mel de alta qualidade e pureza.
O professor Warwick Estevam Kerr, responsável pela introdução da abelha africana (Apis melífera, da espécie Adansoni melífera) no Brasil compara os dados de produtividade: a abelha preta ou nativa produz em média 20 a 25 kg/ano; as européias, 80 a 120 kg/ano; e as africanas produzem de 120 a 140 kg/ano.
Além de produzirem mais mel, as africanas se reproduzem rapidamente e são mais resistentes a pragas e doenças. Este melhoramento genético possibilitou que o Brasil passasse de 27º produtor para 5º produtor de mel do mundo.
Bendito acidenteEm 1956 o professor Kerr, da Universidade Federal de Uberlândia, foi à África em missão diplomática, para trazer abelhas africanas para pesquisar no Brasil. Um pequeno acidente no laboratório permitiu que algumas escapassem, e começasse um trabalho de melhoramento genético com as abelhas nativas e importadas presentes no Brasil.
Até então, a maior parte dos apicultores nacionais trabalhavam comercialmente com abelhas européias. Hoje, esta situação se inverteu e 70% das abelhas produtivas no País são africanas, 15% ibéricas e 5% italianas.
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As abelhas africanas são muito conhecidas pela sua agressividade, e o professor Kerr conta que quando elas começaram a se desenvolver aqui, aconteceram ataques que chegaram a causar a morte de algumas pessoas. Mas os benefícios e as vidas que estas abelhas salvaram foram muito maiores, principalmente em regiões pobres, onde as pessoas, sem ter o que comer, se alimentavam até das larvas destas abelhas. Hoje o manejo dessas abelhas já é bem conhecido pelos apicultores, e as vantagens são maiores que os incomôdos provocados por elas.
SeleçãoO trabalho de melhoramento das abelhas está sendo conduzido pelo professor David De Jong, do Departamento de Genética da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto.
O trabalho de seleção foi feito com as abelhas de sete apicultores altamente produtivos, e os resultados foram de um aumento de mais de 40% na produtividade das abelhas selecionadas, informou De Jong.
O pesquisador trabalha há 34 anos com abelhas, 17 destes aqui no Brasil, e comenta que a africanização forçou nossa apicultura a se desenvolver e aperfeiçoar técnicas de manejo para conviver com a africana.
As abelhas predominantes no Brasil hoje são polihíbridas, uma mistura de africana com européia e nativa, que dão um excelente resultado em termos de produtividade, resistência a doenças e capacidade de reprodução.
A qualidade e o sabor do mel variam de acordo com as floradas e o clima da região onde estão instaladas as colméias. As abelhas africanizadas têm capacidade de voar aproximadamente seis quilômetros, para porcurar floradas com maior e melhor concentração de açúcar, e isto melhora a qualidade do mel, explica De Jong.
As árvores preferidas por essas abelhas são laranja, eucalipto, cipó-uva e capixingi, entre outras. Só no Sul do País foram catalogadas 500 espécies de árvores melíferas.
ManejoA Região Sul, principalmente os Estados do Paraná e Santa Catarina, produz o melhor mel do País. Mas segundo De Jong, a fronteira apícola está nos Estados do Nordeste, Piauí e Ceará, onde tem crescido a produção.
A técnica básica para um bom manejo das africanizadas, segundo o pesquisador, é a enxameagem, ou seja, a divisão da colméia. Para isto, o apicultor deve estar bastante alerta, acompanhando o crescimento da colméia, que é rápido, dando-lhes espaço para se instalarem, senão elas se dividem, explica De Jong.
Outra orientação é manter as abelhas alimentadas, mesmo nos períodos de seca, e usar equipamentos adequados para sua manipulação. O tipo de mel produzido depende muito dos cuidados de cada apicultor, comenta.


