Admirável tempo antigo
Em meados da década de 1960, o êxodo rural estava em pleno andamento no Brasil. As cidades começavam a crescer com a migração das grandes famílias que antes eram mãos para as enxadas na lavoura. E havia muitas crianças. A criançada começava cedo ajudando os pais, fosse tirando o leite das vacas ou na capina de mato que dava no meio dos pés de café. Escola era no máximo até o quarto ano primário. O mundo mudando e os filhos querendo trabalhar na cidade ou tentando melhorar os estudos.
A tecnologia facilitou em muito as atividades no campo e também dispensou trabalho humano em algumas tarefas mais árduas pois a demanda de alimentos no mundo cada vez mais populoso carecia de mais tecnologia. Pois é, Malthus. A modernidade tem seus aspectos bons e ruins como quase tudo na vida. Hoje somos sete bilhões de habitantes que comem coisas vindas do campo. Se não houver tecnologia o mundo morre de fome.
A criançada daquela época, na cidade, era grande parte vinda de famílias de sítio. Minha família também. Morávamos na rua Quintino numa casa alugada, com quintal dividido por balaustres de madeira. Meu pai Ilto trabalhava na padaria e minha mãe Leonilda tinha os afazeres de casa que eram muitos, cuidando de mim e de meus outros irmãos. Os vizinhos também tinham filhos. Um deles, o Pedro, fazia carrinhos de madeira desmontáveis.

As crianças naquela época brincavam de verdade, havia muita improvisação. Alguém colocava um prego na ponta de um cabo de vassoura e saía com uma argola na ponta ziguezagueando como se fosse um automóvel biruta. Está certo que de vez em quando alguém estrepava o pé num prego, mas isso era o de menos. Sobrevivemos. E a criançada fazia arte, hein!
Meu irmão mais velho, certo dia, vendo eu e outro irmão brincando de gangorra feita de tijolos e uma tábua, quis brincar também. Disse:- Sai! E, correndo,pulou com tudo na gangorra improvisada. Resultado: quase fui lançado em órbita unindo-me ao Sputnik da extinta União Soviética e ao Explorer I, dos Estados Unidos, participando assim do início da corrida espacial com três anos de idade. Meu irmão, o Wernher von Braun tupiniquim só não levou uma surra do meu pai porque apareceu horas mais tarde depois de uma retirada estratégica.
Meu outro irmão, então, certa vez, achou um rojão guardado em cima do guarda-roupa do quarto dos meus pais e que tinha sido comprado para o final de uma novena. O povo todo reunido na sala de casa e na varanda rezando. Ele acendeu. Foi um "Deus nos acuda" e "pernas pra que te quero" pra fugir do rojão aceso. Meu irmão tem a marca do rojão na sobrancelha até hoje! Graças a Deus não foi nada mais grave.
Naquela época subia-se em árvores, sujava-se de terra e pisava-se descalço no chão. Correndo todos os riscos que a humanidade corre desde os primórdios e sobrevivendo às intempéries do mundo.
Na atualidade, os celulares tomaram conta de brincadeiras e relações humanas mais próximas. Quase não se tem amigos reais por conta de não se deixar os filhos à mercê das ruas e a ansiedade tomou o lugar de quase todos os medos, enfiando as crianças na espiral de um, cada vez mais imprescindível, mundo digital. Um buraco negro sem horizonte de eventos. Pobre Stephen Hawking, não teria explicação para isso nem em mais um milhão de anos! Hoje não se vê mais ninguém jogando bétis ou bola na rua. Os muros estão cada vez mais altos e as cercas elétricas lembram Aushwitz.
Sem muita retrotopia, mas dá saudades do tempo em que a gente era criança, havia amizade entre as pessoas e o mundo tinha um futuro para sonhar. Onde os maiores perigos do mundo, talvez, só fossem a bomba atômica e o rojão de fim de festa.
DAILTON MARTINS, leitor da FOLHA





