Acordo trinacional no Mercosul
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sexta-feira, 14 de maio de 1999
Ney de SouzaFlorindo Dalberto, do IaparLúcio Flávio Moura 
Autoridades do Paraguai e da Argentina estão negociando a entrada do Brasil no programa binacional que os dois países mantêm para a erradicação do Anthonomus grandis, o bicudo, praga que ataca o algodão.
O Encontro Trinacional de Cooperação Fitossanitária, promovido pelo Consulado argentino em Ciudad del Este (município vizinho a Foz do Iguaçu), realizado nos dias 4 e 5 deste mês, no Hotel Panorama Inn, foi considerado o primeiro passo para a unificação da estratégia de combate à praga.
Enquanto Argentina e Paraguai usam as linhas de créditos internacionais para destruir lavouras inteiras infestadas pelo bicudo, o Brasil vem optando pelo controle por defensivos agrícolas, mesma estratégia usada contra as 12 pragas mais comuns do algodoeiro, como lagarta-rosada, lagarta-das-maçãs, curuquerê, pulgões e ácaros.
Jorge Rosas, da Direção de Defesa Vegetal do ParaguaiIniciado em 1991, o programa conjunto dos dois países vizinhos do Brasil engloba intercâmbio técnico, criação de áreas de não-produção (principalmente próximas das fronteiras) e destruição de lavouras infectadas.
O Brasil está mais próximo do modelo norte-americano, que dispensa o mesmo tratamento ao conjunto das pragas, diz Walter Jorge dos Santos, responsável pelas pesquisas sobre pragas do algodão do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar).
Santos lembra que apenas seis Estados norte-americanos são considerados áreas livres do bicudo. Os demais Estados produtores convivem com a praga, sem maiores prejuízos, explica o pesquisador.
O principal motivo dos governos brasileiro e norte-americano não adotarem um programa de extermínio das lavouras é o alto custo do programa a longo prazo. Com a crise da cultura no Brasil, as políticas públicas para o setor têm outras prioridades, como o aumento da área plantada e a preservação do mercado para o produto nacional, afirmou o presidente do Iapar, Florindo Dalberto.
Os produtores brasileiros gastam o dobro dos argentinos com defensivos agrícolas. Graças às condições climáticas mais favoráveis, as lavouras argentinas recebem de 4 a 5 pulverizações por safra, enquanto no mesmo período, no Brasil são realizadas até 12 aplicações. Os argentinos podem destruir parte da lavoura que ainda assim têm lucro semelhante ao brasileiro, lembrou Dalberto.
Eduardo Luis Consenzo, diretor do Senasa, da ArgentinaA Argentina possui área plantada de um milhão de hectares, contra 800 mil do Brasil. Cerca de 59% das exportações argentinas têm como destino o Brasil. Não queremos que o bicudo na Argentina cause o mesmo estrago que na Nicarágua ou na Colômbia, diz Eduardo Luis Consenzo, diretor de Sanidade Vegetal do Senasa, órgão federal argentino responsável por pesquisas de pragas e controle da qualidade dos produtos agrícolas. Os dois países citados por Consenzo praticamente baniram a cultura do algodão.
Grande parte da produção paraguaia é colhida em pequenas propriedades, que são as mais vulneráveis. O que aconteceu nesses dois países, que possuem a mesma estrutura agrária que a nossa, é um alerta para o Mercosul, afirmou Jorge Rosas, da Direção de Defesa Vegetal do Ministério da Agricultura paraguaio.
A idéia deste encontro é que o governo e especialistas brasileiros reflitam sobre o tema e levem esta discussão, para fóruns e seminários, diz Consenzo.


