Acabará a classificação por tipo
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de fevereiro de 1999
Cláudia Barberato 
Produtores, indústria, lideranças e outros participantes do setor privado da cadeia produtiva do leite estão preparando um anteprojeto de lei para o Programa Nacional da Qualidade do Leite. O Governo está querendo mexer na legislação que trata da qualidade do leite, e a cadeia produtiva deverá apresentar modificações à atual legislação, confirma o presidente da Comissão Nacional de Pecuária Leiteira, da Confederação Nacional da Agricultura, Paulo Roberto Bernardes.
Nas modificações que serão apresentadas ao Ministério da Agricultura, ainda este mês, uma proposta de modernização prevê, a médio prazo, o fim da classificapção dos tipos de leite. De acordo com Bernardes, a tendência é de que seja produzido um só tipo de leite no País, sem as classificações em A, B ou C, como é feito atualmente. Para isso o setor necessitará de investimentos, aumentando a qualidade e a produtividade do leite nacional, acrescenta Bernardes.
QualidadeNa avaliação de Bernardes, o leite brasileiro, inclusive o tipo C, tem boa qualidade de produção, mas é preciso melhorá-la, através do resfriamento e conservação corretos do produto. Cada membro do setor produtivo tem que fazer o seu papel.
No novo modelo de produção, segundo Bernardes, também o produtor terá que investir na boa conservação do leite. Não se pode mais falar em produção de leite sem o resfriamento correto do produto na fazenda. Até duas horas depois da ordenha o leite tem que estar com temperatura abaixo de 10 graus para garantir sua qualidade. Para isso produtores terão que investir em tanques de expansão modernos nas propriedades.
Outras falhas, segundo ele, acontecem no varejo. Muitas vezes o manuseio do produto não é bem feito, há má conservação e falta de refrigeração adequada, o que compromete a qualidade. Bernardes também prevê que na fiscalização em propriedades e na indústria sejam feitas as análises necessárias para garantir a qualidade. Depois de duas horas de ordenha o número de bactérias dobra a cada 20 minutos. O resfriamento é que garante a qualidade do produto, até mesmo depois, na geladeira do consumidor.
Nos Estados Unidos, por exemplo, um leite pasteurizado fica de 10 a 15 dias na geladeira com o mesmo padrão de qualidade. No Brasil o prazo é de uma média de três a quatro dias. Mesmo o leite sendo pasteurizado e recuperado na indústria, o concerto dura pouco. Se ele não for devidamente resfriado na propriedade, pode ser recuperado na indústria, pelo processo de pasteurização, mas terá um período menor de vida útil e, consequemente, qualidade, na geladeira.
Incentivo ao produtorPara que o produtor se sinta estimulado a investir, acredita Bernardes, o Governo terá que financiar tanques de expansão a juros e prazo compatíveis com a remuneração da atividade. Ao Governo compete também fazer a instalação da energia elétrica no meio rural para que os produtores tenham como ligar seus resfriadores. Haverá necessidade também de apoio às prefeituras para melhorar as estradas rurais, para que os caminhões tenham condições de chegar até as propriedades e fazer a coleta do leite.
Da porteira para fora, o leite chegando na indústria, os laticínios terão que fazer a sua parte, afirma o dirigente. Bernardes acredita que hoje a indústria de pasteurização e produtos lácteos está bem equipada para tratar do produto.
Preços melhoresMesmo num momento de crise econômica o produtor deverá investir, se for incentivado, acredita Bernardes. O produtor gosta do que faz. Ele acredita numa melhoria da situação do setor leiteiro, sobretudo numa melhoria do preço para o produtor, pela redição da concorrência internacional, fator que levou, até agora, muita gente do setor à falência.
O País quebrou. A globalização que prima pela escala de produção não foi boa para o Brasil. Agora os investimentos serão feitos com moderação. Há potencial de produção sem precisar de comprar leite de fora. Bernardes acredita que a crise econômica deverá gerar queda no consumo. O mercado é abastecido com 90% da produção nacional e 10% com importação do produto.
Com a implantação de um programa de modernização no setor será possível manter a produção e abastecer totalmente o mercado interno, sem a necessidade de importações, afirma Bernardes.
Ele acredita que o dolar, chegando ao seu ponto de equilíbrio e a autorização de tarifas antidumping, não será preciso comprar leite de fora do País para abastecer o mercado interno. Mas o produtor terá que receber pelo menos US$0,24/0,25 pelo litro de leite. Hoje o produtor brasileiro tem o menor preço em dólar do mundo. A produção anual de leite no País está em torno de 21 bilhões de litros, enquanto o consumo é de cerca de 22 bilhões de litros.


