O avanço no plantio do trigo nos últimos dias permite vislumbrar que o Estado atinja a previsão de mais produção do cereal neste ano, com uma elevação 48% acima do registrado no ciclo 2016/17
O avanço no plantio do trigo nos últimos dias permite vislumbrar que o Estado atinja a previsão de mais produção do cereal neste ano, com uma elevação 48% acima do registrado no ciclo 2016/17 | Foto: Sérgio Ranalli



O clima ajudou e o plantio de trigo avançou no Paraná nos últimos dez dias, uma boa notícia para o agronegócio em um ano de quebras de safra, embargos econômicos e prejuízos causados pela greve dos caminhoneiros. A falta de chuvas havia atrasado o plantio até o último dia 21, com apenas 52% dos 1,046 milhão de hectares destinados à cultura de inverno no ciclo 2017/18, segundo o Deral (Departamento de Economia Rural) da Seab (Secretaria de Estado da Agricultura e Abastecimento). Desde então, avançou para 68% do total e ficou dentro da média histórica para o início de junho.

O avanço das plantadeiras permite vislumbrar que o Paraná atinja a previsão de produção de trigo para o ano, de 3,304 milhões de toneladas (t), ou 48% acima do registrado no ciclo 2016/17. Esse crescimento em volume se mostra ainda mais interessante quando observada a cotação do produto, que sobe tanto para vendas nacionais quanto no mercado internacional. De acordo com a consultoria curitibana Trigo & Farinhas, o lucro sobre o custo de produção do grão estava na última semana em 21% no Paraná.

O levantamento diário de preços do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada) da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz) aponta alta de 25,38% na cotação da tonelada do trigo pão ou melhorador em maio, no Paraná. O valor foi de R$ 822,40 no dia 30 de abril para R$ 1.031,19 no último dia 29.

Resta saber se o clima, bastante imprevisível em 2018, continuará a ajudar. "Temos casos pontuais no Norte Pioneiro e na região de Londrina, que são os primeiros a plantar, de volumes de chuva insuficientes para o plantio, mas já temos mais de dois terços da área plantada", diz o analista da cadeia de trigo do Deral, Hugo Godinho.

A valorização é mais um ponto a favor da cultura no Estado, que é o maior produtor do grão com quase 70% do total de 4,871 milhões de t do País, de acordo com o último levantamento da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento). Não é comum, mas alguns produtores ainda podem comprar sementes e plantar trigo. "É o caso específico do Sul do Paraná, onde não se tem a opção de plantar milho de segunda safra devido ao risco de geadas e a decisão fica para trigo, aveia ou adubação verde", cita Godinho.

No Norte do Estado, o clima tem contribuído para o otimismo. Gerente técnico da Integrada Cooperativa Agroindustrial, Irineu Baptista afirma que as últimas chuvas trouxeram uma esperança de boa safra. "Os preços estão remuneradores com a possibilidade de alta produtividade, só que ainda precisamos esperar a colheita. Mas o que foi plantado no pó nasceu", diz, sobre produtores que se arriscaram na terra seca, antes das precipitações.

OLHO NO EXTERIOR
A área plantada já havia crescido 7% em relação à safra anterior, de 974 mil para 1,046 milhão de hectares (ha), conforme o Deral. O motivo principal foi o baixo valor pago pelo milho, que desestimulou o plantio do grão de segunda safra e fez com que muitos produtores optassem pelo trigo ou por outras culturas de inverno. Contudo, o interesse de última hora é melhor explicado pelo cenário exterior.

Analista sênior da consultoria Trigo & Farinhas, Luiz Carlos Pacheco afirma que a Argentina enfrentou seca durante o desenvolvimento da soja e excesso de chuvas perto da colheita. "Isso atrasou o fim da colheita da soja e também o plantio de trigo", diz. "Era para eles colherem 20 milhões de toneladas e já falam em 18 milhões."

Outros grandes produtores enfrentaram problemas semelhantes. "Austrália, Rússia, Ucrânia, Romênia, Alemanha, além de Norte dos Estados Unidos e Sul de Canadá, que plantam o chamado trigo de primavera, tiveram falta de chuvas e terão problemas. Isso é bom para os preços por aqui", conta Pacheco.

Como a Argentina exporta boa parte do que produz e há maior demanda e estoques mais baixos no mundo, a tendência é que os valores pagos ao país vizinho e principal vendedor de trigo ao Brasil aumentem. Assim, a cotação do produto nacional tem se sustentado.

GREVE DE CAMINHONEIROS ATRASA PRODUÇÃO DE FARINHA
A comercialização do trigo que ainda resta da safra anterior também não passou ilesa à greve de caminhoneiros dos últimos dias. Como o transporte de grãos aos moinhos e da farinha e de produtos industrializados aos varejistas e atacadistas foi suspensa, a escolha foi por manter o produto sem processamento, estocado, para evitar perda de qualidade. Assim, mesmo com os preços em alta, houve pouca liquidez, conforme o último relatório diário do Cepea/Esalq.

"Em relação aos preços, a alta nos valores externos e o dólar elevado desfavorecem as importações e sustentam as cotações internas", informa o boletim do órgão. Há liquidez um pouco maior apenas no mercado de farelo, devido a condições ruins de pastagens e da alta valorização do milho.

Analista sênior da consultoria Trigo & Farinhas, Luiz Carlos Pacheco afirma que os moinhos somam prejuízo de R$ 300 milhões no período de paralisação do setor de transportes, que protestava contra o alto valor e a política de reajustes constantes do diesel por parte da Petrobras. "São mercadorias que não puderam ser entregues e, por mais que isso possa ser acelerado depois, existe o custo de ficar parado, é grande."

Para o plantio, porém, ele não considera que a greve tenha sido tão prejudicial. "A maioria dos agricultores costuma ter sempre um pouco de diesel em casa", diz Pacheco. (F.G.)

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