O excesso de abate de fêmeas para atender o mercado consumidor está ocasionando a falta de carne de ovinos, e pode se agravar a partir do final do ano, quando o consumo é maior. O zootecnista Luiz Macedo, que presta assistência técnica para a criação de ovinos e caprinos na região de Maringá, diz que a falta de infra-estrutura, principalmente para abate e comercialização, está desequilibrando o mercado. Os frigoríficos mais próximos de Maringá estão no interior de São Paulo ou no Sul do Paraná, na região de Curitiba. ‘‘A situação deixa os criadores daqui nas mãos de atravessadores, que não têm interesse em equilibrar o mercado’’, diz ele.
Nos últimos dois anos, a falta de animais terminados para abate em todo o Centro-Sul do País, tem obrigado os frigoríficos a optar pela compra e abate de fêmeas. ‘‘O número de matrizes tiradas da região é de preocupar’’, admite Macedo. Ele não tem, no entanto, uma previsão de como a oferta e procura pode se estabelecer. ‘‘Com certeza vai faltar carne, principalmente de qualidade, o que já vem ocorrendo’’, afirma. A saída, segundo ele, é ordenar o mercado, desde a melhoria das condições de criação até um equilíbrio entre oferta e procura.
AtravessadoresA presença de intermediários é outro fator de prejuízo para os criadores. Os atravessadores, que trabalham de acordo com as regras dos frigoríficos, pagam em torno de R$0,80 a R$1,20 o quilo vivo, que acaba chegando ao mercado a preços em torno de R$4,00. Quando o consumidor compra apenas as partes mais nobres, como o pernil, paga até o dobro, cerca de R$8,00. ‘‘O problema maior é que poucos locais vendem carne de ovinos, apesar da procura ser considerável’’, diz Macedo. Ele lamenta que não exista uma classificação de carcaça, permitindo que todos os animais sejam abatidos e comercializados nas mesmas condições.
Marcos NegriniO zootecnista Luiz Macedo, especialista em ovinos e caprinos, alerta para o risco de abate de matrizes CruzamentoOutra preocupação com as criações de ovinos na região, segundo ele, é que por falta de informações os criadores estão cruzando animais melhorados com raças deslanadas. ‘‘Existe um tabu entre os criadores, que a lã prejudica o animal no verão, mas não existe justificativa para isso, porque a cobertura funciona como um isolante’’, explica. As raças deslanadas - santa inês e morada nova, criadas principalmente no Nordeste do País - não oferecem o mesmo rendimento de carcaça.
Macedo calcula que um animal das raças com aptidão para carne, que são as criadas no Paraná como a hampshire down, sufolk, ile-de-france e texel, alcançam um peso de 18 a 20 quilos de carcaça por volta dos oito meses de idade. Os deslanados ou cruzados com animais de pouca lã, têm um rendimento de carcaça entre 13 e 14 quilos no mesmo período. ‘‘Fora a vantagem dos animais com maior aptidão de carne, que apresentam melhor rendimento nas áreas nobres como o pernil’’, considera ele. ‘‘Existe ainda o risco de comprometer todo o ganho genético alcançado pelas criações nos últimos anos’’, considera.
Lã - verdades e mentirasA maior parte dos criadores que exploram o ovino de forma comercial, possuem um bom plantel, com média de 30 a 50 animais. ‘‘O criador muitas vezes segue o que o vizinho faz, quando poderia ter um retorno maior, procurando assistência especializada’’, afirma Macedo. ‘‘Fora o problema dos cruzamentos inadequados, existe também a questão da lã, que mostra o despreparo de boa parte dos criadores’’. Segundo ele a tendência de cruzamento dos animais de várias regiões do Paraná e Estados vizinhos com raças deslanadas, deve-se a obstáculos que o criador acha que existem em relação à lã nos animais.
Primeiro porque o criador acredita que a lã imcomoda o animal, o que não é verdade mesmo no verão, e também porque o preço pago pela lã é considerado muito baixo. ‘‘Nos últimos anos, com a entrada de fios sintéticos no mercado, a lã ficou restrita ao uso artesanal, o que derrubou os preços’’, explica Macedo. Ele lembra no entanto que as raças com tradição nos criatórios do Paraná sempre tiveram maior aptidão de carne. ‘‘Até no Rio Grande do Sul, onde a preferência era por raças de lã, hoje existe uma mudança para os animais com melhor rendimento de carcaça’’, revela.
As raças criadas no Paraná, segundo Macedo, estão muito bem adaptadas às condições de clima, solo e outros fatores de interferência no rendimento. ‘‘Muitas propriedades, que têm ovinos apenas para o consumo, conseguem criar de forma rústica, até com pouco alimento’’, afirma. Quem quer investir na atividade, o conselho é buscar assistência. ‘‘Para uma criação comercial é preciso investir em estrutura e genética, que o retorno é garantido’’, afirma. Uma propriedade com boas condições, segundo Macedo, pode alcançar três crias em dois anos.

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