ArquivoSegurandoNo Paraná já foram colhidos 43% da área plantada, mas ainda não há oferta do produtoCom uma colheita e comercialização atípicas, o mercado consumidor de milho no Brasil está na dependência dos resultados da safrinha, um plantio fora de época, arriscado e com menor produtividade. Os dados divulgados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostram que o País deve importar este ano 800 mil toneladas (t) , quase 60% a mais do que importou no ano passado.
A produção estimada este ano é de 32,6 milhões de t, inferior em 8,8% à safra passada, para atender um consumo de 35,9 milhões t. O técnico da Conab, Jalbas Aires Manduca, analisa que esta diferença entre produção deverá ser suprida pelos estoques dos governo, pela colheita da safrinha e pela importação.
Os estoques do governo estão estimados em 4,7 milhões de t, que somados aos estoques do setor privado de 1,8 milhão complementarão a oferta interna. Com a produção estimada de 32,6 milhões de t, a oferta total deve atingir 39,1 milhões de t. Na opinião do produtor e presidente da Bolsa de Mercadorias e Futuros de Londrina, Nagib Abudi Filho, o estoque do governo é baixo e ficar na dependência da safrinha, uma safra fora da época normal, é muito arriscada.‘‘Pela falta de uma política mais definida para o produtor, os preços baixos da safra passada, o preço bom da soja, o produtor plantou menos milho e pode faltar produto para as indústrias’’, avalia.
ComercializaçãoA comercialização da safra está bem no início e não há pressão de oferta. Segundo a Conab a colheita em todo o País deve estar em torno de 30%, e foi interrompida em muitas regiões porque os produtores dão preferência à colheita da soja.
As cotações de preços são as melhores dos últimos cinco anos, variando entre R$7,10 e R$7,50 a saca. Segundo Nagib Abudi estes valores devem se manter, e com tendência de alta para o próximo mês. ‘‘Em abril ainda vai ter pouco milho para ser ofertado e os preços não devem baixar, como acontecia em anos anteriores quando nesta época os preços eram derrubados pela oferta. Este ano o mercado está bem diferente’’.
Já o técnico da Conab diz que não acredita em alta de preços nos próximos meses. ‘‘Ainda falta colher quase 70% da área plantada, e nossa previsão é de que o quadro de oferta e demanda deverá ser mais ajustado que na safra passada, mas isto não implicará em elevação dos atuais preços’’, diz Jalbas.
Dorico da SilvaNagib Abudi Filho alerta outros produtores para não plantarem milho-safrinha tardiamente
Jalbas comenta também que a safra da região Nordeste pode influir no mercado. As informações iniciais apontam para um aumento de 6,9% da área plantada da segunda safra em todo o País, o que corresponderá a uma produção de 5,1 milhões de t, 1,19 milhão a mais do que na safra anterior.
Outro fator que influenciará o nível de importação será a oferta de sorgo, milheto e cerca de 200 mil toneladas de trigo de baixa qualidade que deverão ser utilizados como ração animal, informou o técnico da Conab.
SafrinhaMuitos produtores que deixaram de plantar milho na safra normal, estão plantando agora na safrinha, estimulados pelos perspectivas de bons preços. Nagib Abudi Filho é um deles. Normalmente no verão plantava soja na metade de sua área e milho na outra metade. Neste ano só plantou soja, e agora na safrinha plantou 110 hectares de milho.
Sua propriedade, a Fazenda São Manoel, fica no km 2 da Estrada da Prata, no município de Cambé, próximo a Londrina. A área total é de 235 ha, com 210 ha agricultáveis. Nagib alerta para os riscos de plantio da safrinha fora da época ideal: ‘‘Tem muito produtor semeando agora o milho-safrinha, e isto é perda na certa. A época ideal para ter um bom rendimento é plantar até final de fevereiro e início de março. Depois do dia 5 de março há queda de potencial; depois do dia 15 não se deve plantar porque o custo de produção vai empatar com o rendimento’’, diz Nagib.
O custo de produção para um plantio tecnificado como o de Nagib é de aproximadamente 100 sacas/alqueire, e a expectativa do produtor é colher 180 a 200 sacas/alqueire.
Como presidente da Bolsa de Mercadorias de Londrina, Nagib analisa quais as perspectivas para a comercialização nos próximos meses. Uma perspectiva otimista é ter uma safrinha cheia e safra norte-americana normal.‘‘Se isto acontecer os preços estarão em queda no segundo semestre ou um mercado bastante calmo, como em 96’’. Uma segunda possibilidade é safrinha cheia e quebra norte-americana. Os preços subiriam em Chicago em 20% a 30%, e os preços internos ficarim iguais ou mais altos no segundo semestre.
Agora a perspectiva pessimista. Quebra de safrinha e quebra da safra norte-americana. ‘‘Enfrentaríamos problemas com importação e custos muito altos com preços superiores aos atuais e valorização dos estoques do governo. Outra possibilidade é quebra de safrinha e safra americana normal. Neste caso, a importação ficaria facilitada e poderia resolver problemas de abastecimento sem onerar muito os custos.

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