O equilíbrio entre doçura e acidez das frutas é a característica mais procurada pelos consumidores, que estão a cada dia mais exigentes. O consumo de abacaxi sempre teve uma restrição representada pelo seu grau de acidez e pela dificuldade de escolher e levar o fruto certo para casa. Quem nunca se decepcionou ao descascar o abacaxi e se deparar com um fruto muito azedo ou com boa parte estragada?
SaborMais doce, menos ácido e mais fácil de descascarEstes problemas parecem estar resolvidos com a nova variedade lançada on início deste mês pelo Instituto Agronômico de Campinas (IAC) em parceria com a empresa Sementes Matsuda. É o abacaxi ‘‘IAC gomo-de-mel’’, que além de ser mais doce, de baixa acidez, suculento e de textura macia, não precisa ser descascado. Os frutilhos conhecidos como ‘‘olhos’’ do abacaxi são soldados menos fortemente entre si, podendo ser destacáveis do fruto maduro, como pequenos gomos. Daí o nome ‘‘gomo-de-mel’’.
Opção de mesaEste novo abacaxi é especialmente recomendado para mesa e vem ocupar um espaço aberto do mercado. ‘‘Até hoje não tínhamos um abacaxi de mesa, pois as variedades existentes, como o havaí e o pérola, são frutos mais destinados a industrialização, e só são consumidos in natura por falta de opção’’, comenta o pesquisador do IAC, José Alfredo Usberti.
Além de não serem as indicadas para mesa, normalmente as duas variedades consumidas atualmente são colhidas verdes, para aguentar o transporte e o tempo de prateleira até chegar às mãos do consumidor. Estes problemas também devem estar resolvidos, segundo o pesquisador. ‘‘O abacaxi-de-gomo pode ser colhido maduro, é resistente ao transporte e tem boa ‘vida-de-prateleira’’’, diz Urberti.
Pesquisadores já começam a produzir mudas em laboratório que estarão disponíveis no final do ano que vemOutras vantagens são o tamanho pequeno do fruto, uma preferência confirmada pelos mercados internacionais. O tamanho facilita o manuseio, a embalagem e transporte. ‘‘Adequada para o consumo individual, a nova variedade deve expandir a abacaxicultura’’, prevê o pesquisador.
As técnicas de plantio, manutenção e colheita de frutos é idêntica às utilizadas para as demais cultivares disponíveis.
MudasTanto o IAC quanto a Matsuda Sementes produzirão mudas da nova variedade. Usberti adianta que no final deste ano já haverá mudas disponíveis para comercialização, mas que só mesmo no final do ano 2000 é que haverá uma quantidade maior.
DivulgaçãoA nova variedade é especialmente recomendada para o consumo in naturaEle adianta que o preço da muda deve ficar em torno de R$2,50. ‘‘Não é uma muda barata’’, reconhece o pesquisador, mas diante das vantagens e da possibilidade de multiplicação das mudas, o preço compensa o investimento inicial. Usberti esclarece que enquanto o pérola possibilita a multiplicação de cada muda em 7 a 8 ‘‘filhotes’’, o havaí em 3 a 5, a variedade IAC gomo-de-mel possbilita a multiplicação em 12 a 15.
A muda vegetativa leva um ano e meio para produzir e a muda de laboratório leva um ano. A nova variedade apresenta resistência a nematóides em comparação com as outras cultivares comerciais, mas é suscetível à fusariose.
ProduçãoA produção mundial de abacaxi é estimada em 12,8 milhões de toneladas, e o Brasil ocupa o segundo lugar, com a produção de 1,62 milhão de toneladas em 45 mil hectares. O maior produtor é a Tailândia, com 1,98 milhão de toneladas. O lançamento da nova variedade, segundo Usberti, será muito bem recebida no mercado externo, pois até agora não existe em nenhum país a produção de um abacaxi de mesa com as características do IAC gomo-de-mel. O pesquisador informa também que a nova variedade pode ser plantada em qualquer região do Brasil, seguindo as mesmas técnicas de plantio.
O Brasil é atualmente o maior produtor mundial de frutas (32 milhões de toneladas, produzidas em 2,2 milhões de hectares, com geração de 4 milhões de empregos diretos e indiretos). Os principais Estados produtores são Minas Gerais (523.800 t), Paraíba (333.100 t) e Pará (177.900 t) e São Paulo (42.600 t).
O Paraná tem ainda uma produção insignificante (5.200 t.), com 301 produtores e uma área de 300 hectares. Segundo o pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná, Sérgio Carvalho, a implantação da abacaxicultura no Estado está no início e ainda importamos a maior parte do fruto consumido aqui. ‘‘O abacaxi tem produzido muito bem na região Noroeste. Algumas lavouras de lá são as melhores que eu já vi’’, destaca o pesquisador. Com relação a nova variedades, o pesquisador comenta que não tem maiores informações, pois os resultados de pesquisa só estão sendo divulgados agora e ele desconhecia inclusive que trabalhos nesta área estavam sendo desenvolvidos pelo IAC. ‘‘Participei no final do ano passado do Congresso Nacional de Fruticultura, onde normalmente trocam-se novas informações, mas ninguém divulgou nada sobre esta nova cultivar’’, informa.
OrigemProcedente da China em 1991, a nova cultivar de abacaxi (IAC gomo-de-mel ou abacaxi-de-gomo), provavelmente resultante de cruzamento natural, foi incorporada, no mesmo ano, ao banco de germoplasma de abacaxizeiros do Instituto Agronômico de Campinas. O pesquisador Ademar Spironello explica que as plântulas foram trazidas in vitro e clonadas para multiplicação no sistema de cultura de tecidos. Desde então, foi iniciado o plantio nos campos experimentais, sendo estudada e avaliada quanto a caracteres de planta e fruto, em comparação com cultivares comerciais. ‘‘A característica mais forte dessa variedade é a qualidade de sua polpa, inclusive do cilindro central do fruto, que também é comestível e bastante macio’’, destaca Ademar.
A qualidade de polpa é altamente cotada, tanto no mercado internacional como no interno, podendo proporcionar até 60% de aumento de preço do produto.
Como fatores desejáveis citam-se: elevado grau Brix (doçura); baixa a moderada acidez; consistência tenra, suculência e coloração atraente (amarelo-ouro). A nova cultivar IAC gomo-de-mel reúne todo o conjunto dos caracteres acima citados, ao contrário das cultivares atualmente disponíveis para o consumo in natura.
A cultivar IAC gomo-de-mel apresenta plantas altas (80 cm), com número elevado de folhas (40), compridas, largas e espinhosas em toda a extensão do boro da lâmina foliar, e de coloração verde-escura. O ciclo total, do plantio à maturação de frutos, é de 19,5 meses.

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