A vida criada em um laboratório
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de dezembro de 2000
Cláudia Barberato De Londrina 
No laboratório, a simulação do que acontece dentro da vaca, no momento da fecundação do óvulo pelo espermatozóide. A técnica de fecundação in vitro, representa rapidez na procriação de animais de alto valor genético e a possibilidade de aproveitar melhor as fêmeas que por problemas adquiridos ao longo de suas vidas não conseguem mais reproduzir.
A tecnologia também pode ser usada para produção de animais cruzados, a partir de touros melhoradores, para produção de carne. Touros com poucas doses disponíveis no mercado podem ter seu uso aumentado, já que as condições de laboratório são controladas, podendo ser usada uma dose para várias vacas. Mas atualmente, ainda pelo alto custo do investimento, o maior uso tem sido para aproveitar a genética de fêmeas que, mesmo produzindo óvulos, não conseguem emprenhar.
A tecnologia é viável para animais de alto valor zootécico e que a multiplicação está comprometida pelos processos tradicionais, explica o veterinário Ernesto Cristóvan da Silveira, de Londrina. Ele e o zootecnista Renato Castanho Francisco estão fazendo a fecundação in vitro, em algumas propriedades do Norte do Paraná.
MultiplicaçãoSilveira é o responsável pela coleta do material a campo e Francisco, no laboratório, faz a fecundação artificial. Eles explicam que a vantagem não está apenas no aproveitamento de animais com boas características genéticas, que têm problemas de fertilidade adquirida, mas na rapidez da multiplicação de um rebanho de melhor valor zootécnico. Na fecundação, garante o veterinário, não serão transferidos aos filhos da fêmea os problemas de fertilidade da mãe, já que eles não são congênitos.
Tanto o veterinário quanto o zootecnista admitem que a técnica deve ser usada somente por pecuaristas que já avançaram na adoção de tecnologias em suas propriedades. De preferência que tenham doadoras e receptoras para receberem os embriões.
Manejo adequadoProduzir embriões não é problema. Fecundá-los também não, admite o zootecnista Renato Francisco. A dificuldade, segundo ele, pode aparecer nos índices de prenhezes, que podem ser maiores ou menores, dependendo do manejo que as vacas receptoras desses embriões terão na propriedade. Os animais devem receber alimento de qualidade e manejo sanitário correto.
A adoção da tecnologia vai depender da realidade de cada pecuarista e de quanto ele puder investir para isso. Terá que ter animais doadoras e receptoras ou pagar por eles. Uma prenhez para um programa de 8 doadoras, por exemplo, em regime de coleta contínua, sai em média a R$650,00 por prenhez, mais os custos das receptoras.
Como é feitoPara todo o processo são duas equipes trabalhando; primeiro a campo e depois no laboratório. Na propriedade, o aparelho de ultra-sonografia auxilia na aspiração dos óvulos da fêmea, feita com um aparelho semelhante ao utilizado na transferência de embriões.
Em laboratório, uma dose de sêmen é misturada a esse material. Em condições artificiais, que imitam o que aconteceria dentro da vaca, é feito um cultivo, durante 7 dias. Nesse tempo os espermatozóides fecundam os óvulos e, a seguir, esses óvulos são transferidos para fêmeas, chamadas de receptoras, que irão gerar bezerros.
Na fecundação a coleta é feita uma vez por semana. O resultado dá a média de 1 produto por aspiração, o que resulta (também na média) em 53 prenhezes no ano. Por enquanto, a técnica é feita somente com a fecundação a fresco. Depois dos 7 dias em laboratório o embrião é implantado, o que se chama de fecundação a fresco. O embrião que não for utilizado deve ser jogado fora.
Uma única dose de sêmen, com uma estimativa de 8 milhões de espermatozóides por dose, pode ser aproveitada para o material de 20 doadoras de óvulos. Uma coleta dá em média 16 óvulos por vaca. Numa fecundação, na média, pode-se conseguir de 20% a 30% de embriões viáveis para transferir. Dos 16 óvulos coletados por vaca, pelo menos 3 resultam em embriões que, transferidos, resultam (na média) entre 1 ou 2 prenhezes.
Segundo o zootecnista Renato Francisco existem fêmeas que podem ser coletadas até os 21 anos de idade, ou até a morte. Normalmente, explica o veterinário Ernesto da Silveira, os animais criados a pasto reproduzem-se bem até os 14 ou 15 anos. Muitos criadores, no entanto, preferem utilizar as fêmeas até uma média de 12 anos.
Depois disso, segundo o veterinário, como a habilidade materna fica reduzida, ou seja, a de amamentar bem as crias, os pecuaristas preferem descartar o animal. Com a fecundação pode-se usar o material genético dessas mães e as receptoras, mais jovens, cuidam melhor dos bezerros.
Renato Francisco dá o exemplo de uma vaca que já estava destinada ao descarte porque tinha problemas reprodutivos e que teve seus óvulos coletados para a aplicação da tecnologia. Uma das filhas desse fêmea, vendida recentemente em um leilão tradicional em Londrina, alcançou o preço de R$42 mil.
Uso abrangenteNa produção de animais para carne, o sêmen de um bom touro, usado em óvulos de vacas que são para descarte, pode resultar em animais meio-sangue diferenciados dos industriais feitos atualmente. A carga genética desses animais, certamente maior, será transmitida aos filhos, afirmam os técnicos.
O veterinário Ernesto e o zootecnista Renato têm as receptoras para atender os pecuaristas que desejam usar a tecnologia da fecundação. Há também a possibilidade de fornecer as doadoras. Todo o serviço de coleta pode ser feito na fazenda, já que a aparelhagem de ultra-sonografia e aspiração de óvulos é móvel. Mais tarde os técnicos deverão montar uma central em uma propriedade a 35 quilômetros de Londrina.
O veterinário e o zootecnista estudam a possibilidade também de em breve fazer a bipartição dos embriões, o que já seria mais um passo na multiplicação de animais, onde se pode obter uma média de 2 prenhezes a cada 3 embriões.
Segundo o zootecnista há potencial de uso da fecundação na indústria de produção de carne ou leite, na produção de animais meio-sangue em programas de cruzamento industrial, sem recorrer a inseminação artificial; produção de animais three-cross (animais sintéticos com base em cruzas de três raças) a partir de fêmeas meio-sangue; produção de animais gêmeos para corte; maior disseminação de material genético de alto valor zootécnico através do sêmen; multiplicação e deslocamento rápido de raças de regiões distantes, redução no intervalo entre gerações em programas de seleção, entre outros.


