‘‘Fazer o quê na cidade se o que sei fazer é trabalhar no café?’’ Foi esse o pensamento que sempre moveu o agricultor Joaquim Afonso Pinto Filho, de 85 anos. Ele chegou ao Norte do Paraná em 1934 e ainda mora e trabalha numa propriedade perto de Londrina, no Distrito da Warta.
De colono de café virou pequeno agricultor e criou os filhos com a agricultura. Como outros pioneiros da região, Joaquim Afonso veio do interior de São Paulo e se instalou no Norte do Paraná; casou-se com Georgina, hoje com 80 anos, e teve 18 filhos; dos quais 13 mulheres e 5 homens. Dos filhos homems quatro ficaram na propriedade; as filhas casaram e saíram da roça.
PersistenteAinda hoje Joaquim trabalha na roça todos os dias e é um exemplo daquele pequeno agricultor que nasceu na zona rural e dali nunca pensou em sair, mas aprendeu a apoiar os filhos e os netos, quando alguns deles foram procurar na cidade uma rentabilidade melhor do que tinham no campo.
O filho mais velho de Joaquim, João Afonso Pinto Neto, de 62 anos, acompanha o pai todos os dias na lavoura. O sítio da família tem 10 alqueires (8 de cultivo e 2 de mata) e foi dividido entre os filhos; cada um cultiva um pedaço e a terra sustenta cinco famílias.
Com um sorriso aberto, João confirma que é feliz na roça. ‘‘O trabalho é tanto que nem dá tempo de pensar em outra coisa’’. Ele é um agricultor que se preocupa com o aprimoramento e a informação na sua atividade. Não deixa de estar sempre na cooperativa da região, trocando idéias com o técnico e com outros produtores, uma das facilidades que tem por estar instalado próximo da cidade.
Todo o confortoO sítio da família tem o plantio de milho e café para comercialização; arroz e feijão para consumo, além de horta e frutas. As casas estão equipadas de todo o tipo de eletrodomésticos, que proporcionam o conforto da ‘‘vida moderna’’. Só no caso do fogão a gás ainda há preferência pelo fogão a lenha, onde dona Geni, mulher de João, faz o almoço ‘‘cheiroso’’, de todos os dias. O café do sítio também tem seu cheiro e sabor especiais. Torrado e moído todos os dias o café feito ali é o cartão-de-visita da propriedade.
Filhos e netos de Joaquim estão trabalhando agora na colheita do café. Mesmo depois das geadas o chefe da família mostra-se otimista quanto ao futuro da lavoura. ‘‘Já vi coisa pior’’, afirma Joaquim. O filho, João, se emociona ao ver o pai na lavoura e admira o esforço que ele faz para cuidar dos pés de café.
Sempre otimistaA família Marques de Jesus também chegou ao Norte do Paraná nos anos 30. Parentes da família Pinto, da Warta, os Jesus também cultivam café. Têm também uma área de trigo e milho-safrinha, no inverno. No verão plantam a soja e o milho. São 30 alqueires na região de Cambé, divididos para quatro famílias.
As crianças estudam próximo da propriedade e a família nunca pensou em se mudar para a cidade. ‘‘Mesmo com as dificuldades de produzir, ainda é melhor ficar aqui. Temos todo o conforto de que precisamos’’, afirma Santo Marques de Jesus. Na propriedade todas as casas estão bem equipadas e a chegada da telefonia rural facilitou ainda mais a vida por ali.
Neste inverno as geadas liquidiram grande parte de uma área nova de café que haviam plantado e todo o milho-safrinha da propriedade. Mesmo assim, diante do prejuízo, Santo Marques de Jesus, se mostra conformado.‘‘O negócio agora é pensar no que fazer para reduzir os prejuízos. Essa não foi a primeiro e não será a última’’.
De voltaPróximo dali, o agricultor Alcides Angelo Dalto, que trocou a vida na zona rural pela cidade está de volta a propriedade. Depois de 20 anos morando na cidade ele voltou a morar no sítio. A razão? ‘‘A vida aqui ainda é mais tranquila’’, garante.
Segundo Alcides Dalto, para o agricultor, morar na zona rural ainda é mais fácil porque pode-se, além de cultivar as lavouras, criar galinhas, porcos, ter o leite e fazer o queijo. ‘‘E ainda se tem o conforto da cidade, com luz, telefone, entre outras coisas. O agricultor às vezes chora muito, mas ninguém troca de serviço e se pode ter uma boa vida na roça’’, admite.
Alcides Dalto tem dois filhos que também são agricultores, um no Piauí e outro em Goiás. Ele relembra que a atividade agrícola ‘‘já foi mais fácil. Antigamente a gente colhia um produto e sabia que ia vender num bom preço; hoje não se tem a mesma segurança.’’
‘‘Vida difícil’’O horticultor Aparecido Terassi, do Distrito da Warta, de Londrina, por morar próximo da cidade foi mais um agricultor que deixou a zona rural para que os filhos estudassem. Ele mudou para Londrina em 1994 e montou um ‘‘comércio’’ para vender os produtos que cultivava. Ia todos os dias para o sítio de 6 alqueires. Hoje ainda mora na cidade, mas dois de seus filhos tiveram que voltar a morar no sítio.
O negócio na cidade não deu certo e Aparecido está todo dia na roça para cuidar das hortas. A horticultura sustenta a sua e mais quatro famílias. Desestimulado pelos estragos do clima nas lavouras, neste inverno, ele reclama da atividade: ‘‘É uma vida difícil, porque quando se tem o produto não se tem preço; e quando há boa perspectiva vem a geada ou a seca e estraga tudo.’’

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