A verdade sobre a qualidade do leite
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de dezembro de 2007
Vanerli Beloti 
Esclareço e tento dar um fim a um período conturbado, marcado por seguidas polêmicas a respeito da qualidade do leite. Polêmica esta registrada na imprensa local e nacional e que acabou envolvendo nossa atividade de pesquisa na Universidade Estadual de Londrina (UEL). Gostaria de esclarecer alguns equívocos. Como o assunto é bastante técnico, minhas informações foram interpretadas erroneamente. Assim, jornalistas confundiram as terminologias ''antibiótico'' e ''agrotóxico'', utilizando-as como sinônimo. Também disseram que eu estava culpando os produtores e atribuindo a eles responsabilidade pelas fraudes que foram noticiadas nacionalmente, e isso jamais aconteceu.
A qualidade do leite é objeto de nosso estudo há 21 anos. Pesquisamos para poder oferecer soluções, não para causar alarde. Em conjunto com a Unesp de Botucatu, a UFV em MG, a UFPR/ Palotina, a USP em SP, a UFPel no RS e a UFPE em PE, integramos um grande grupo de pesquisadores sérios e competentes, coordenados pela UEL. A Emater é também uma parceira fundamental, além dos próprios produtores, que nos apresentam os problemas e testam as soluções.
Jamais atribuiria aos produtores culpa que eles não têm. E esta fraude específica, em Minas Gerais, que gerou o tumulto, foi praticada no âmbito industrial com adição de água, soda e água oxigenada entre outras ''delícias''. Na entrevista que dei à Folha de Londrina do dia 7 deste mês (pág 3), atribui ao produtor responsabilidade pela contaminação durante a ordenha, que é muito importante para a qualidade do leite, mas é contaminação por bactérias, não tendo, portanto, nada a ver com fraude, como os jornalistas passaram a afirmar em artigos subsequentes. Simplesmente é outra coisa. Questão de higiene na ordenha. Foi sobre isso que falei, e está bastante claro na matéria.
É possível resolver este problema. Nós também pesquisamos soluções. Soluções simples, eficientes e muito baratas. Práticas que podem transformar rapidamente a qualidade do leite do país. Cada produtor pode transformar sua qualidade de uma ordenha para outra, de verdade! Passar estas informações ao produtor é o nosso desafio, por isso estamos promovendo inúmeros cursos e palestras para produtores e técnicos.
Sobre os resíduos de antibióticos, eles foram pesquisados em 2005, antes da nova legislação, que determina que estes resíduos sejam pesquisados no leite individual de produtores e de conjunto também. Então, espera-se que hoje a frequência de resíduos tenha diminuído. Mas quando ocorre, não tem jeito, é responsabilidade do produtor. Quanto aos resíduos de agrotóxicos, o produtor pode nem saber que existam, pois trata-se de uma contaminação química ambiental bastante complexa que não envolve apenas o leite, mas inúmeros outros alimentos.
Para o consumidor, posso afirmar que a qualidade do leite tem melhorado muito, e se problemas são detectados só agora é porque antes eles não eram pesquisados, mas provavelmente sempre existiram.
VANERLI BELOTI é professora do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva da Universidade Estadual de Londrina
RESPOSTA
1) A professora Vanerli Beloti tem razão quando afirma que a imprensa confundiu terminologias ''antibiótico'' e ''agrotóxico''. Mas foi uma matéria de agência (Agência Estado) reproduzida não apenas pela FOLHA mas outros jornais. Não houve correção, naquela oportunidade, porque seria normal uma pesquisa sobre efeitos de agrotóxicos (na verdade era sobre antibiótico). Isto nada tem a ver com a recente contaminação do leite pela indústria.
2) ''Jamais atribuiria aos produtores culpa que eles não têm'', diz a professora, referindo-se à adição da soda cáustica lá em Minas. Ela tem razão. Mas a FOLHA não disse isto, até porque a colocação da professora foi clara e não deixa dúvida.
3) Porém, a professora fez referências - igualmente muito claras - à falta de higiene no campo (e foi isto que a FOLHA repercutiu), afirmando: ''O maior problema em nosso País está na produção, a matéria-prima já chega muito ruim na indústria. A contaminação vem principalmente da teta da vaca, do latão e da mão de quem ordenou...'' Aqui, sim, com base nesta declaração a FOLHA cobrou uma posição dos representantes dos produtores (que, aliás, não houve).
4) Quanto a ''dar um fim a um período conturbado, marcado por seguidas polêmicas a respeito da qualidade do leite'' - como diz a professora no início do seu esclarecimento, este também é um desejo da FOLHA, porém, com a certeza de que não depende apenas de nós - que simplesmente reproduzimos as informações - mas de uma postura honesta da indústria. Infelizmente, enquanto houver denúncias sobre a presença de soda cáustica no leite, a imprensa (inclusive a FOLHA) terá que divulgar.


