O meio ambiente, sistema complexo de milhões de anos, baluarte de pureza e harmonia material, compêndio vivo da magnitude do Ser criador, esvai-se como água por entre as mãos, num fluxo a cada instante mais acelerado. O crescimento demográfico, bode expiatório da ganância e do egoísmo, é lenha nas caldeiras da incursão do homem no seio da natureza.
Antes do uso intenso de agroquímicos, talvez a partir do final do século 19, a relação do homem com o meio ambiente era, possivelmente, baseada na observação. Analisava a fertilidade da terra, o clima, o desenvolvimento da cultura explorada. Quando a terra não produzia adequadamente, deixava-a em pousio, plantava em clima propício, conhecia as aptidões dos animais como auxiliares ou não do equilíbrio de determinado cultivo. Conhecia o ‘‘tempo’’ das coisas. Explorava a terra com respeito e dela retirava o que lhe era oferecido de acordo com o momento. Aceitava as leis naturais. Nesta época o homem fazia a agricultura de modo menos predatório.
Século 21, apogeu da agricultura científica: sementes e animais modificados geneticamente, biocidas dos mais diversos, fertilizantes cada vez mais completos, agricultura de precisão, frutos fora de época, de cores vivas, aspecto encerado e tamanho cada vez maior. Tudo muito bonito e, de fato, necessário à produção de alimentos anti-naturais em ambientes cada mais anti-naturais. Quanta prepotência! Quanta fragilidade!
Tanta energia desprendida em busca do conhecimento infinito e não nos damos conta de que a resposta de todos os problemas está ‘‘ em nosso umbigo’’ ! A agricultura, baseada no controle das diversidades da lavoura através de agroquímicos, existe em nossos dias devido ao desvio de nossa conduta à sustentabilidade do desenvolvimento harmonioso do homem neste plano, ao imediatismo e ao desprestígio das leis naturais.
A falácia da agricultura moderna mostra-se pouco a pouco. A fragilidade deste sistema biônico é fato conhecido dos pequenos agricultores que paulatinamente vão contribuindo para o inchaço dos cinturões de pobreza já não restritos aos grandes centros. À agricultura atual, científica e de precisão, podemos acrescentar mais um rótulo: elitista.
Há tempos que se diz que a produção deve ser aumentada para que se extinga o fantasma da fome. Isso já foi dito antes da Revolução Verde. Ora, a cada ano produzimos mais e a fome é companheira presente nos lares de muitos. Deste fato podemos concluir que já produzimos com excedentes para que haja a erradicação deste flagelo e que os motivos da fome continuar a existir são outros. A superprodução atual, pasmem, ao invés de auxiliar, atrapalha o agricultor porque se há muito produto no mercado, a tendência é o mesmo ter seu preço reduzido.
O sojicultor veterano deve se lembrar com saudosismo dos preços da soja na década de 70. Hoje o lucro é muito menor e cada vez mais faz-se necessário aumentar a área de produção para que o lucro possa existir.
Outra situação delicada promovida por estímulo à monocultua é a descaracterização do meio ambiente, que traz consequências desastrosas a todos os viventes. Selecionando apenas um tipo de cultura, favorece-se o desequilíbrio da cadeia trófica assim como a reciclagem de nutrientes pelas plantas. Um solo pobre não pode produzir alimentos qualitativa e quantitativamente eficientes - as técnicas atuais de cultivo convencional são desastrosamente predatórias, criminosas!
As estações do ano estão cada vez mais desarmonizadas e as espécies da flora e fauna correm sérios riscos. O uso irresponsável dos agroquímicos põe em risco a vida na Terra através da contaminação dos mananciais de água, animais e pessoas, favorecendo o aparecimento de disfunções hormonais e celulares.
A pesquisa agrícola é importante e deve ser continuada, mas direcionada aos interesses da maior parte da população. A agroindústria, agricultura familiar, agricultura sustentável devem ser, de fato, estimuladas, pois são as respostas para as questões de cidadania que envolvem a massa de trabalhadores vilipendiados, miseráveis, nossos semelhantes.
O vício não pode ser abandonado de imediato, mas deve sim, ao poucos, ser substituído por uma virtude.
O autor é agricultor em Londrina

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