A última fronteira agrícola do mundo
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 13 de julho de 2001
Cristina Côrtes De Londrina 
O processo de expansão do rebanho bovino na Região Norte do País e o avanço do cultivo de grãos naquela direção preocupam a comunidade científica que trabalha nas diversas instituições brasileiras de pesquisa. A ocupação e exploração da Amazônia deve ser orientada em novas bases, respeitando o pluralismo do ecossistema da região.
Trocando em míudos, explica a geógrafa Antonia Martins Ferreira, pesquisadora do IBGE, é preciso ter uma visão integrada da região e fazer uma leitura ecônomica do que a Amazônia nos oferece naturalmente, antes de retomar um planejamento para sua exploração.
Juntamente com o pesquisador Celso Vainer Manzatto, da Embrapa Solos, Antonia, que também é coordenadora do Núcleo de Pesquisa em Gestão Territorial e Análise Ambiental da Universidade do Rio de Janeiro, falou sobre o potencial e as limitações da ocupação da Amazônia, durante o 28º Congresso Brasileiro de Ciência do Solo realizado em Londrina, de 1 a 6 deste mês.
ErrosSegundo Antonia as experiências anteriores na Amazônia mostram muitos erros cometidos porque as decisões foram tomadas seguindo pressupostos tradicionais, associados a interesses econômicos e apoiados num desenvolvimento que pressupunha como infinitos os recursos naturais. Hoje é evidente a busca da sustentabilidade da ocupação destes espaços, ressalta.
Uma das grandes limitações apontadas pela geógrafa são as características do solo e relevo da Amazônia. Segundo Antonia os solos são superficiais e devem ter sido erodidos muito antes da floresta cobri-lo. Até 3 mil anos atrás a vegetação era mais aberta e o clima mais seco, se transformando posteriormente numa região mais úmida , explica. Já foi observado por estudiosos que, em muitas áreas, as grandes árvores que compõem a floresta se sustentam firmando-se muito mais pelas copas do que pelo enraizamento no solo, e às vezes são derrubadas pelo próprio vento, complementa.
Os estudos até agora realizados na região mostram que na Amazônia é inviável a implantação de lavouras de grãos ou pastagens, porque o solo não suportaria e os custos de produção seriam enormes. O que é valioso na Amazônia é a floresta em pé, com a riqueza de sua biodiversidade. É este potencial econômico que deve ser destacado. Se derrubarmos a floresta, não teremos nada, alerta.
UniãoA pesquisadora defende a união de forças das instituições como Embrapa, INPPA, IBGE, para disponibilizar as informações já existentes sobre a Amazônia e ajudar o Governo Federal na tomada de decisões. Se ficarmos esperando ter um diagnóstico completo, quando formos interferir, muitas coisa errada já poderá ter sido feita. Precisamos responder já às questões mais urgentes, destaca.
O pesquisador Celso Vainer Manzatto concorda com geógrafa e defende um posicionamento mais claro e objetivo da comunidade científica com relação a Amazônia. Ele apresentou números sobre as áreas aptas para lavouras e pastagens na região e explicou o trabalho de Zoneamento Agrícola Ecológico (ZEE) que está sendo realizado. O ZEE é um instrumento para racionalização da ocupação dos espaços e de redirecionamento das atividades na Amazônia. Segundo o pesquisador o objetivo deste zoneamento é reduzir os riscos climáticos de seca ou chuva excessiva, definindo períodos de plantio, por município, correlacionados ao ciclo, cultivo, tipos de solos e cultivares.
Fizemos o ZEE em Rondônia e Marto Grosso, mas o trabalho ainda é lento. Temos apenas 11% da região amazônica incluída neste zoneamento, informa.
Manzatto também defende uma política ambiental para a região de acordo com as preocupações que são hoje de toda a sociedade, e destaca que é preciso uma participação maior dos cientistas na elaboração dos políticas agrícolas para aquela região. Não temos todos os dados, mas já temos informações básicas suficientes para orientar a tomada de decisões, diz Manzatto.
Ele adiantou também que a soja, por exemplo não é cultura ideal para aquela região, pois emprega pouca mão-de-obra ( 1 homem para cada 163 ha). Segundo o pesquisador, para fazer indicações ou recomendações de cultivos agrícolas, é necessário analisar outras aspectos além do agrônomico.
Amazônia LegalA Amazônia Legal é composta por 8 estados (Acre, Amazonas, Pará, Roraima, Amapá, Rondônia, Mato Grosso e Tocantins) e parte do estado do Maranhão. Segundo Antonia Ferreira, em seus estudos foram identificados 13 amazônias. uma de costas para outra, e insustentáveis dos pontos de vista ecológico, econômico e político.
A grande fronteira de recursos é uma idéia que, segundo a pesquisadora, não deve mais orientar a necessidade de ocupação do vazio demográfico, seguindo a premissa que é importante integrar para não entregar. Estes pressupostos tradicionais provocaram um progressivo devassamento na região, iniciado a partir da década de sessenta. Os resultados hoje são desastrosos. declara.
Para os pesquisadores, a preservação da sócio-biodiversidade da Amazônia, mundialmente defendida, é uma questão estratégica na definição da inserção do Brasil no processo de globalização da economia.


