A tradição ucraniana que permeia gerações
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sábado, 15 de junho de 2019
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No fundo, a cadeira de balanço arranhava o chão e batia contra a parede, só não fazia tanto barulho quanto o tom ranzinza que meu avô Marceliano Ilkiu, bravo, cobrava o atraso do horário que eu e meus irmãos chegamos para o almoço.
Vó Maria nem havia escutado o portão, nos viu quando saiu para colher salsinha e abriu aquele sorriso de quem estava esperando a chegada dos netos para demonstrar carinho da melhor forma que pode: na cozinha.
Ainda com minha avó, que já não escuta muito bem, e meu avô, que resmungava pelo atraso, é raro ver a conexão igual à desta família. A capacidade de abraçar com tanto carinho outro ser humano surpreende os que não fazem parte da família.
Alguns ciscos de farinha pousavam sobre os fios de cabelo e cobriam os óculos de minha avó. Ao chegar na mesa dos fundos, me deparei com o restante da farinha que não estava em seu cabelo, havia sobrado um pouco para as trouxinhas de massa na mão da minha tia-avó Zita.
Quando a vi, imediatamente saquei um amarrador do bolso, prendi o cabelo com um rabo de cavalo e sabia que era hora de colocar a mão na massa. Era dia de festa. Dia de fazer perohê.
Perdura na família um dos artifícios da belíssima cultura ucraniana: a culinária. Este típico prato da Ucrânia chamado perohê, também é conhecido por pierogi. Esta tradição foi trazida para minha família pelo meu bisavô João Ilkiu, que migrou em 1929 da Ucrânia para o Brasil e trouxe consigo esta rica tradição ucraniana que, por meio das mãos femininas da família pôde ser transmitida a cada nova geração.
O Perohê consiste basicamente em uma massa à base de farinha de trigo e água. Seu típico recheio é batata e ricota. O acompanhamento fica por conta da nata fresca e cebola caramelizada e besuntada no óleo. Além da explosão de sabor na boca, o prato causa uma sensação que talvez traga à tona um sexto sentido, que transcende o paladar.
Fazer o perohê exige dedicação. Não é simples como encontrar um tutorial na internet. A receita é fácil, mas o modo de preparo é complexo. A massa é fina e uma vez rasgada, tem de ser dispensada, por isso exige muita delicadeza e sutilidade. No entanto, a partir do momento em que se adquire um controle e carinho necessários com a massa, se percebe a mágica acontecendo. A pequena bolinha de farinha se transforma em algo parecido com um travesseiro.
Começaram com duas polchetinhas brancas e se tornou uma mesa repleta de perohês. A felicidade em preparar este prato, que há décadas perdura na família, planta um sorriso estampado no meu rosto e isto desenvolveu interesse também em meu irmão Yuri, que também gostou de besuntar os travesseirinhos de óleo.
Comer perohê é muito bom, uma experiência que todos deveriam viver ao menos uma vez, mas comer perohê com gostinho de abraço de vó não tem preço. Ainda mais o da Dona Maria. A tradição que se insere em nossa família causa sensações imutáveis e intransmissíveis.
"Saquei um amarrador do bolso, prendi o cabelo com um rabo de cavalo e sabia que era hora de colocar a mão na massa. Era dia de festa. Dia de fazer perohê"
Julia Ilkiu, estagiária na FOLHA
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