A terra e a soja
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de outubro de 2015
Victor Lopes<br>Reportagem Local 
Commodity de peso e um dos alicerces do agronegócio paranaense e brasileiro, a soja tem um poder de influência muito grande nos números do setor. Mais do que ditar os volumes de exportação, a oleaginosa também está diretamente relacionada junto a outros fatores ao aumento significativo do preço da terra no Estado na última década. Se por um lado o produtor tem uma boa rentabilidade com a safra, com os preços da saca em patamares rentáveis, por outro lado ele também possui uma área valorizada, se essa terra for apta ao plantio do grão.
O Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria de Estado da Agricultura e Abastecimento (Seab) realiza um levantamento anual dos preços pagos pela terra nua no Estado. A pedido da reportagem da FOLHA, o engenheiro agrônomo Hugo Godinho fez uma análise do movimento do mercado entre 2005 e 2015. O valor médio de todas as terras mecanizada, mecanizável, não mecanizável e inaproveitável , nos variados tipos de solo, saltou de R$ 5,9 mil por hectare (ha) em agosto de 2005 para R$ 18,7 mil/ha no mesmo mês de 2015, uma alta de 215%, ou o triplo.
Com influência direta neste percentual, a soja, não por acaso, teve crescimento similar no período. A saca de 60 quilos da oleaginosa saltou de R$ 27,61 para R$ 63,61, elevação de 130%. A inflação no período, de acordo com o Deral, foi de 75%, ou seja, a comercialização de terra apta para a soja se mostrou um investimento extremamente rentável. Por fim, só como base de curiosidade, a valorização de imóveis urbanos cresceu 345% nos mesmos dez anos. A reportagem também mostra nesta edição trabalhos acadêmicos publicados recentemente que demonstram que outras variáveis também influenciaram esta alta, como as práticas conservacionistas, Valor Bruto de Produção (VBP), número de financiamentos nas regiões, entre outras.
Outro ponto importante, segundo Godinho, é que em 2005 eram necessários 215 sacas de soja para se comprar um hectare de terra no Paraná. Hoje, este valor é de 294 sacas, o que mostra que o aumento de produtividade da terra vai sendo agregado ao seu preço de comercialização. "Percebemos que todas as regiões do Paraná, ao longo dos anos, tiveram crescimentos bem similares. Se uma propriedade produz x sacos de soja a mais, ela acaba valendo mais. Ao longo do tempo, conforme aumenta a produtividade, cresce sua rentabilidade e, consequentemente, o valor imobiliário, entre outros fatores. Isso faz com que preços da terra atinjam patamares ainda maiores."
Para Godinho, hoje, o preço de terras no Estado se mostra condizente com que elas oferecem de retorno ao produtor. Ele acredita que a comercialização de terras continua de forma intensa no Estado e que, dificilmente, um vendedor diminui o preço no momento de comercializar. "Eles mantêm o valor e não abaixam. O que pode acontecer é a desvalorização da moeda ao longo dos anos. Como a agricultura é uma atividade muito tradicional, também não acredito que haja espaço para muita especulação de comercialização."
Na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), o agrônomo comenta que o preço da terra está ligado ao volume de produção das hortaliças e também à localização, principalmente no que diz respeito à facilidade da logística para deslocamento até as Centrais de Abastecimento (Ceasa), redes de supermercados e outros estabelecimentos de venda. "No região do Arenito, temos uma produção de gado interessante e o preço da arroba também pode influenciar no valor da terra. A região Noroeste há outras cadeias estruturadas mandioca, boi, cana, laranja -, mas ainda a venda da terra é bastante baseada nos valores da soja", conclui Godinho.


