Quando você cruzar o Rio Tibagi, lá pras bandas de Jataizinho, onde a terra é vermelha e o céu bem azul, olhe para o lado. Aquela ponte ferroviária abandonada carrega uma grande declaração de amor extremamente calculada. Cada um dos 13 pilares que sustentam a estrutura inaugurada em 1935 ostenta uma letra. A correria do dia a dia, a indignação pelo preço do pedágio, o reajuste da gasolina ou mesmo a rotina mecânica de quem percorre a BR-369 escondem a mensagem marginal de 300 metros de extensão em letras garrafais: SIMONE EU TE AMO.

Quem é Simone? A de Beauvoir ou a da música de Natal? A que faz dupla com Simaria não deve ser, porque a pichação é mais antiga que a aparição do mais novo sucesso do sertanejo de balada. Mais provável que seja alguma moradora de Jataizinho mesmo. Talvez trabalhava em alguma das cerâmicas da cidade. E o rapaz apaixonado? Um operário, pintor, ou só um pichador, mesmo? Em meio a tantas perguntas, uma se sobressai: teria tamanho empenho surtido efeito?

Dois anos mais antiga que a ponte que permitiu a chegada do progresso ao Norte Novo, Noel Rosa compôs 'Três Apitos'. "...Você que atende ao apito / de uma chaminé de barro / por que não atende ao grito tão aflito / da buzina do meu carro?". Ah, Simone, sua desnaturada! Talvez o pai não tenha permitido o namoro ou talvez o coração dela já tinha se deixado levar por outro rio que passou em sua vida.

Imagem ilustrativa da imagem A Simone mais amada da cidade



O fato é que Simone pode ter se comovido com tal gesto. Por certo se casaram, tiveram filhos. Hoje moram nas regiões próximas ao Ribeirão Jataizinho. Toda vez que chove mais forte é um sufoco.

- Simone, vamos correr erguer os móveis que lá vem mais uma enchente, grita o poeta da Vila Frederico, segurando os dois filhos mais novos pelos braços. O mais velho já está no meio da rua, nadando na água suja.

A curiosidade foi tanta que entrei em contato pelas redes sociais com uma Simone em Jataizinho para descobrir pistas sobre a declaração de amor que tiraria o sono de João Dória.

- Não sou eu. Bem que gostaria que fosse, mas meu marido disse que não foi ele quem escreveu lá na ponte - disse às gargalhadas. Em seguida, surgem uma ou duas pistas sobre a verdadeira Simone da Ponte e seu admirador.

Pelas estradas do Norte do Paraná, vou seguindo as placas e os letreiros tentando desvendar suas histórias: "Vende-se minhocas", "Dor nas costas? Massagem com Jorge Japonês", "Proibido jogar lixo. Sujeito a tijoladas", "Boite Drinks & Girls".

Quando amanhece, é hora de pegar o bloquinho, botar na sacola e seguir viagem.

Celso Felizardo, jornalista da FOLHA

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