A semente
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de janeiro de 2020
João Caldeirão, 82 anos, leitor da FOLHA 
Em plena praia, no mar de São Vicente, São Paulo, quase tive uma queda ao tropeçar num amontoado de pedras, de todos os tamanhos, umas sobre as outras, sem a menor vontade de se mexerem ou se locomoverem e querer saber o motivo pela qual foram ali empilhadas. Uma coisa estava certa: nem criança teria essa infantilidade e promiscuidade no coração.

Por alguns instantes, fiquei ali estático, surpreso e até estarrecido diante de tamanha estupidez. Alguém que a manipulou, só pode ter sido levado por uma fraqueza ou uma avalanche de ideias malucas. Onde já se viu tamanha insensatez? Alguém podia se machucar ou se apropriar de alguma delas e atacar seu algoz e feri-lo fatalmente.
Tinha que ser alguém, desprovido de alma e sentimento, cheio de ódio, para erguer tal projeto satânico.
Sem pensar duas vezes, devagar fui retirando uma por uma até deixar aquele lugar limpo e livre de qualquer estorvo e sem qualquer obstáculo. Enquanto eu ia fazendo a limpeza do lugar, eu ia ouvindo gemidos e sussurros de alívio e paz, que me deixavam preocupado e ao mesmo tempo assustado: alguém estaria ali semi-enterrado? Cruz credo, quase me pus a correr em disparada.
Quando a última pedra retirei, para a minha surpresa, uma linda sementinha agarrada em seu caule, já quase despencando do seu habitat, soltou um suspiro de alivio e liberdade. Tinha os dois olhos em prantos e sem eu nada lhe perguntar, foi logo me dizendo com voz embargada.
- Só mais um dia, aqui nesta prisão, eu teria sucumbido, e minh'alma encomendada a Deus. Teria morrido de tédio, fome e sede. Estou com a boca sem uma gota de saliva, parecendo o Deserto do Saara. As chuvas que caem por aqui quase nenhuma é capaz de nos molhar. Minhas folhas e raízes estão quase todas mortas.
Não há prisão mais angustiante do que esta, não sei a quantos dias estamos sem o sol e a luz dos dias. Só a noite nos faz companhia e nos consola. Eu gostaria de perguntar para aquele ingrato, que fez esta atrocidade comigo, o que ele ganhou por esta maldade? Só pode ser um assassino para ter cometido este gesto. Sou uma sementinha inocente, frágil e bondosa. Um monstro, que contamina nossa meiga sociedade, é o que ele é.
Agora, meu amigo e irmão camarada, como diz nosso ídolo e cantor, o rei, Roberto Carlos, será que dá para você me levar até aquela bica d'água, que jorra em abundância para eu matar a sede?
Aproveite esta ida até lá e matei a minha sede também, naquela fonte d'água, pura e cristalina.
Ali do lado, havia um pedaço de chão desocupado e livre, com algumas plantas floridas; onde aproveitei o espaço para fazer uma cova e replantar a pequena muda e sua sementinha bela e saudável.
Despedi-me dela e lhe desejei muita saúde, felicidade e alegria. Consegui ouvir bem baixinho e seu "muito obrigado".
João Caldeirão, 82 anos, leitor da FOLHA


