Em plena praia, no mar de São Vicente, São Paulo, quase tive uma queda ao tropeçar num amontoado de pedras, de todos os tamanhos, umas sobre as outras, sem a menor vontade de se mexerem ou se locomoverem e querer saber o motivo pela qual foram ali empilhadas. Uma coisa estava certa: nem criança teria essa infantilidade e promiscuidade no coração.

Imagem ilustrativa da imagem A semente
| Foto: Marco Jacobsen

Por alguns instantes, fiquei ali estático, surpreso e até estarrecido diante de tamanha estupidez. Alguém que a manipulou, só pode ter sido levado por uma fraqueza ou uma avalanche de ideias malucas. Onde já se viu tamanha insensatez? Alguém podia se machucar ou se apropriar de alguma delas e atacar seu algoz e feri-lo fatalmente.

Tinha que ser alguém, desprovido de alma e sentimento, cheio de ódio, para erguer tal projeto satânico.

Sem pensar duas vezes, devagar fui retirando uma por uma até deixar aquele lugar limpo e livre de qualquer estorvo e sem qualquer obstáculo. Enquanto eu ia fazendo a limpeza do lugar, eu ia ouvindo gemidos e sussurros de alívio e paz, que me deixavam preocupado e ao mesmo tempo assustado: alguém estaria ali semi-enterrado? Cruz credo, quase me pus a correr em disparada.

Quando a última pedra retirei, para a minha surpresa, uma linda sementinha agarrada em seu caule, já quase despencando do seu habitat, soltou um suspiro de alivio e liberdade. Tinha os dois olhos em prantos e sem eu nada lhe perguntar, foi logo me dizendo com voz embargada.

- Só mais um dia, aqui nesta prisão, eu teria sucumbido, e minh'alma encomendada a Deus. Teria morrido de tédio, fome e sede. Estou com a boca sem uma gota de saliva, parecendo o Deserto do Saara. As chuvas que caem por aqui quase nenhuma é capaz de nos molhar. Minhas folhas e raízes estão quase todas mortas.

Não há prisão mais angustiante do que esta, não sei a quantos dias estamos sem o sol e a luz dos dias. Só a noite nos faz companhia e nos consola. Eu gostaria de perguntar para aquele ingrato, que fez esta atrocidade comigo, o que ele ganhou por esta maldade? Só pode ser um assassino para ter cometido este gesto. Sou uma sementinha inocente, frágil e bondosa. Um monstro, que contamina nossa meiga sociedade, é o que ele é.

Agora, meu amigo e irmão camarada, como diz nosso ídolo e cantor, o rei, Roberto Carlos, será que dá para você me levar até aquela bica d'água, que jorra em abundância para eu matar a sede?

Aproveite esta ida até lá e matei a minha sede também, naquela fonte d'água, pura e cristalina.

Ali do lado, havia um pedaço de chão desocupado e livre, com algumas plantas floridas; onde aproveitei o espaço para fazer uma cova e replantar a pequena muda e sua sementinha bela e saudável.

Despedi-me dela e lhe desejei muita saúde, felicidade e alegria. Consegui ouvir bem baixinho e seu "muito obrigado".

João Caldeirão, 82 anos, leitor da FOLHA

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