A possível convivência com ele
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 09 de outubro de 1998
Marcos Zanatta 
O produtor rural brasileiro tem que aprender a conviver com o nematóide, doença que ataca as raízes e afeta o desenvolvimento das plantas. O alerta foi dado esta semana no 21º Congresso Brasileiro de Nematologia, promovido pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), que reuniu 200 profissionais do setor durante quatro dias. Hoje, segundo os pesquisadores, não existem áreas totalmente isentas de nematóide no Brasil.
No Paraná as lavouras mais prejudicadas pela doença são a soja, o café e as olerícolas. Mas todas podem conviver pacificamente com o problema, diz a agrônoma Sônia Lúcia Maciel, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Nematologia (SBN). Ela explica que o nematóide tem um grande poder de proliferação, podendo atingir grandes áreas em pouco tempo depois da contaminação. A doença normalmente é levada de uma área para outra através dos implementos utilizados nas lavouras.
Transporte e controle Como nem todo produtor tem condições de comprar e manter todos os equipamentos necessários, acaba utilizando máquinas e implementos de terceiros, explica. O ideal, segundo ela, seria a cada troca de área a maquinaria ser lavada e, se possível, receber um tratamento químico. O problema é que no período de plantio, e principalmente na colheita, a correria impede qualquer cuidado, lamenta. O nematóide pode ser também transportado pelas pessoas, na terra levada nos pés e roupas; pela água e pelo vento.
Para evitar prejuízos maiores nas áreas infectadas, a recomendação é manter a doença a níveis aceitáveis. No café, como se trata de uma lavoura permanente, a saída recomendada pela pesquisa é o tratamento químico. Dependendo do nível de infestação o custo pode ser elevado, mas é a maneira de evitar prejuízos maiores com a perda de produtividade. Nas áreas com nematóide onde serão plantadas lavouras novas de café, a recomendação é o uso de variedades resistentes.
Sônia explica que existem mudas com cavalos imunes à doença, e enxertos de variedades produtivas. Mas é preciso estar sempre alerta para o nematóide, que é um inimigo muito poderoso, alerta.
Culturas temporáriasPara as lavouras de soja e as olerícolas a pesquisa indica várias alternativas. A primeira é a rotação de culturas. O nematóide, lembra Sônia, ataca as raízes de determinada planta, impedindo a absorção de água e nutrientes. Se uma cultura ocupar por várias safras o mesmo espaço, contribui para o crescimento do ataque da doença.
Com a rotação de culturas o ciclo é quebrado em parte, impedindo que a área seja totalmente tomada, gerando grandes prejuízos. A rotação não elimina o nematóide, mas permite um controle da doença em níveis satisfatórios, diz Sônia.
Outra recomendação de combate ao nematóide em áreas de culturas temporárias é o uso de sementes e mudas de variedades resistentes. Segundo Sônia existem sementes de última geração que garantem um bom rendimento, mesmo com a presença de um certo nível de infestação da doença. O problema é alarmante porque o nematóide tem capacidade genética de mutação, e sempre surgem novos tipos imunes aos avanços alcançados pela pesquisa, diz ela. Pelos cálculos da SBN, as perdas médias anuais causadas pelo nematóide nas principais culturas do País variam em torno de 12%.
Em algumas lavouras, onde não existe nenhum trabalho preventivo, a perda é total, alerta a agrônoma. Ela cita o caso do nematóide do cisto de soja, encontrado pela primeira vez no Brasil na safra 91/92. Ele provocou, até o início de 95, perdas calculadas em 360 mil toneladas. Um prejuízo de aproximadamente US$540 milhões. Os pesquisadores estimam ainda que no café a perda causada apenas por uma das espécies da doença chegue a 15% da produção. No total a quebra é de 20% da safra de café.
Como a produção média brasileira entre 91 e 94 foi de 26,7 milhões de sacas beneficiadas, as perdas ultrapassam 5 milhões de sacas por ano - um prejuízo de US$373,8 milhões ao ano. Durante o congresso em Maringá foram debatidos os últimos avanços no controle da doença, através da apresentação de 81 trabalhos de pesquisa. Nossa meta é melhorar o nível de combate também conscientizando o homem do campo, diz Sônia. Ela explica que o agricultor demora um pouco para tomar as providências contra as pragas e doenças.
No caso do nematóide, a demora pode ser fatal. A doença não apresenta muitos sintomas na parte aérea da planta, e o agricultor não entende a importância do controle, lamenta Quando toma alguma atitude a situação já é crítica e a perda certa. Em todos os casos a recomendação é fazer análise de solo constantemente, medindo o nível de infestação e a espécie existente na área. O resultado vai orientar a recomendação técnica das medidas a serem tomadas para evitar as perdas.


