A pesquisa não pára
José Francisco Ferraz de Toledo
O presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, sancionou recentemente a Lei de proteção de Cultivares. Esta lei, nova no País, regulamenta aspectos da criação intelectual na área agrícola. Um dos pontos que geraram polêmica durante a discussão da Lei é o direito ao cientista, ou à instituição, de receber, ‘‘royalties’’ sobre a utilização da cultivar criada.
O desenvolvimento de uma nova cultivar leva anos de estudo e dedicação. No caso da soja, por exemplo, são em média 12 anos de pesquisa, até obter cultivares que contribuam para melhores resultados nas lavouras. Ao garantir retorno por esse esforço, a Lei de Cultivares representa um avanço.
A Lei não é resultado de discussão recente. Há 15 anos já se falava e se discutia a necessidade ou não de uma legislação que possibilitasse o registro e a proteção de cultivares. É importante destacar, entretanto, que a polêmica sempre existiu e a pesquisa não parou esperando por uma solução. Os melhoristas continuaram desempenhando suas funções, independentemente de receber os benefícios previstos agora pela Lei. Foi assim que a Embrapa-Soja trabalhou.
Os objetivos da empresa sempre estiveram vinculados à produção tecnológica para a agropecuária brasileira. A missão da Embrapa-Soja, de atender ao produtor, sempre esteve acima de outros interesses. Prova disso foi o lançamento, às vésperas das votações da Lei de Cultavares, de 17 novas cultivares resistentes ao cancro-da-haste e da primeira cultivar brasileira resistente ao nematóide-de-cisto.
O lançamento dessas novas variedades eliminou do cenário da sojicultura brasileira o maior problema já enfrentado pelos agricultores brasileiros, o cancro-da-haste. Desde seu aparecimento na safra 1988/89, essa doença causou à agricultura nacional um prejuízo superior a R$ 300 milhões.
Como já foi dito, a discussão sobre a proteção de cultivares é antiga. E mesmo assim a pesquisa não parou. Na última safra, vimos a soja ocupar um lugar de destaque na produção agrícola nacional. Foi considerada o ‘‘grão de ouro’’, que movimenta no País mais de U$ 3,5 bilhões. O Brasil posiciona-se como o segundo maior produtor mundial de soja, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Na safra 96-97 cerca de 25 milhões de toneladas do grão saíram das lavouras brasileiras.
Isto é resultado dos esforços conjuntos da pesquisa, da extensão rural e dos produtores. E, modéstia à parte, é resultado do trabalho que a Embrapa, através do Centro Nacional de Pesquisa de Soja, vem desenvolvendo nesses 22 anos de existência. São pesquisas e tecnologias que venceram obstáculos de condições climáticas e fotoperíodo, e possibilitaram ao Brasil produzir essa cultura originária da Manchúria, na China.
Durante anos os cientistas da empresa, em conjunto com os de outras instituições de pesquisa agrícola, criaram novas cultivares adaptadas ao cultivo no Brasil Central, Norte e Nordeste; uma conquista inédita, que venceu teorias que diziam que era impossível cultivar soja em regiões de baixas latitudes.
Depois de criadas as primeiras cultivares que permitiriam que a sojicultura expandisse e atingisse grandes extensões, começaram a aparecer outros problemas, típicos dessas situações: as doenças e pragas. Para resolver esses problemas, a Embrapa-Soja desenvolveu o manejo integrado de pragas e o manejo da cultura que, aliados às novas cultivares, mais resistentes e mais produtivas, fizeram da sojicultura o que ela é hoje: um caso de sucesso!
Ou seja, durante todos estes anos, a Embrapa-Soja está cumprindo sua missão : atender em primeiro lugar às demandas da sociedade. E agora a empresa vem se preparando para os novos desafios. Estamos trabalhando em projetos de preservação do meio ambiente, para garantirmos a sustentabilidade da agricultura. Estamos trabalhando com as mais modernas técnicas da biotecnologia, em parceria com a Monsanto e Cyanamid, para desenvolvermos a soja transgênica brasileira. Estamos preparados para fazer desenvolvimento de cultivares no novo ambiente que se descortina, com a aprovação da Lei de Proteção de Cultivares.
O autor é chefe geral da Embrapa-Soja, sediada em Londrina.

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