A Lista de Natal
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de dezembro de 2018
Walquiria Vieira, jornalista na FOLHA 

A fila para o banho, a roupa nova separada em cima da cama e a reunião na sala - primeiro em volta da mesa, depois da árvore de presentes, eram rituais do Natal da família Samaritano, onde morava a minha primeira melhor amiga de infância, Vanessa. Ela tinha um irmão e uma irmã, vários primos e primas e a casa estava sempre cheia. Convivíamos o ano todo e, embora não estudássemos na mesma escola, as tardes eram nossas. Fazíamos a lição de casa, andávamos de bicicleta e, quando era a hora do ballet ou da natação dela, eu também ia junto e íamos conversando e dando risada durante o caminho.
No condomínio com vista para o Pico do Jaraguá, em São Paulo, a turma era grande. Mais de quarenta crianças e a convivência era harmônica entre meninos e meninas. As brincadeiras rendiam. Duro ou mole, pega-pega, esconde-esconde, vôlei, queimada e também os de tabuleiro eram pra juntar todo mundo. No alto do sobrado da Vanessa, cabia a cambada e a piscina de lona era como o mar - nosso limite era o parapeito de balaustre. As horas passavam e quando uma das mães chegava, tinha que obedecer para não azedar a brincadeira do dia seguinte. No verão, época também de férias, dava saudade da escola e uma das opções era simular uma volta às aulas - com direito a porteiro, telefonista, professor e muitos alunos. Letra bonita na lousa, não faltava.
Mas no Natal, era cada um mais na sua. Cada uma mais na sua casa e cada um mais com a sua família. Uns mais festivos, outros menos. As crianças se recolhiam, sendo que algumas viajavam. Mas um pedido diferente batia à porta da minha família perto dessa época. A mãe da Vanessa pedia à minha que eu passasse uma parte do Natal na casa deles. Algumas horas. Eu única menina entre os filhos, ganhava a autorização e com todo o jeitinho da Vanessa, meus pais cediam. Foram anos assim, desde que nos conhecemos, aos sete de idade. As fotografias, ainda analógicas, são muitas e era um hobby da família de minha vizinha. Tem eu até na inauguração de um aquário gigante entre os Samaritano e havia quem achasse que eu fosse um deles.
Voltando ao Natal, tema da vez, dos presentes, não me lembro de nenhum porque nossas famílias não supervalorizavam essa parte. É verdade que já ganhamos bicicleta Ceci de Natal, mas o mais divertido na casa da Vanessa, eram os bilhetes que um escrevia para o outro, exaltando suas qualidades e o que representava naquele núcleo. Eu ganhava bilhete. Era um clima muito gostoso e numa dessas noites, chegou até um Papai Noel, que era o pai da Vanessa. Talvez minha primeira melhor amiga de infância nunca saiba quanto fez bem ao fazer de mim, presente. Seu pedido de Natal tem significado até hoje, sinto-me lisonjeada por estar na sua preferência, por seu um pedido de Natal e pelos bilhetes que li.
Walkiria Vieira, jornalista da FOLHA


