Imagem ilustrativa da imagem A Gaúcha, o Rex e o Roy
| Foto: Marco Jacobsen

Tínhamos, em Sertaneja, três cachorros: a Gaúcha, da raça policial, o Rex e o Roy, que eram filhos de policial com pastor alemão. Viviam no quintal, soltos e eram ensinados a não entrar em casa. Eram alimentados com um engrossado de fubá, pedaços de carne, osso e restos de comida, que era feito numa panela grande todos os dias. Nunca ficavam doentes, eram vacinados e os banhos eram com mangueira. Para nós, uma festa.

Se alguém passasse na rua em frente de casa, o Rex e o Roy latiam, mas a Gaúcha não. Ela era traiçoeira. A pessoa entrava, a cachorra acompanhava e ficava à espreita. Quando a visita saía, a Gaúcha acompanhava, ia devagarinho e, no portão, mordia o seu calcanhar. Tínhamos que prender todos.

Certo dia, a dona Helena, comadre dos meus pais, veio visitar a mamãe que tinha tido os gêmeos. Coitada, levou uma mordida lá no portão. Meus pais ficaram envergonhados, constrangidos, não sabiam o que fazer. Cuidaram dela, que tomou vacina contra raiva, essas coisas que você tem que fazer quando é mordido por um cachorro.

A Gaúcha, quando criava, nasciam de oito a dez cachorrinhos, cada um mais bonitinho que o outro. Nós sempre queríamos ficar com todos, mas assim que nasciam, já tinham dono. Todos queriam. Ela morreu com quinze anos, de velhice. Tinha a minha idade. Na última cria ficamos com uma, a Laika. Fomos para Assis levando os três, o Rex, o Roy e a Laika.

Lá também havia um quintal grande para brincar e onde cada um tinha sua casinha. O Beto, que na época tinha uns oito anos, gostava de cutucar os cachorros com uma vassoura, eles só rosnavam e saíam de perto.

Um dia, o Rex se cansou, avançou no meu irmão e, com as patas no seu rosto, derrubou-o no chão. Quando vi o rosto ensanguentado dele, corri, chamei a mamãe, aos gritos. Ela, vendo aquilo, pegou a camionete, colocamos o Beto e, mais que depressa, fomos para o hospital.

Minha mãe não percebeu que estava em alta velocidade e, quando descemos a Avenida Rui Barbosa, o guarda mandou parar. Toda aquela conversa de praxe, ia multar, mas quando viu o estado do menino, dispensou-nos e só pediu que ela fosse mais devagar.

Chegamos ao hospital, examinaram-no logo. Nada grave, não tinha machucado os olhos, graças a Deus! O Beto aprendeu a lição, nunca mais foi mexer com os cachorros.

Fico pensando nos animais de hoje, que apresentam doenças de pessoas. A causa não será a alimentação deles, a ração? Acho que é um caso para se pensar...

IDIMÉIA DE CASTRO, leitora da FOLHA

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