A fruticultura na terra do café
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 07 de agosto de 1998
Nilson Roberto Ladeia Carvalho 
Caso 1 A cerca de dois anos e meio, um pequeno produtor da região sul do município de Londrina, com uma área de 5,5 alqueires, endividado junto ao Banestado em função de frustações de safras na lavoura de algodão, não vendo outra alternativa para quitar seus financiamentos, resolveu vender parte da propriedade com medo de perdê-la na totalidade.
Resolveu vender 2 alqueires e quem acabou comprando foi um profissional de área agrônomica, decidido a cultivar frutas, iniciando com a cultura de poncã. O produtor, a primeira coisa que perguntou ao novo vizinho foi:
- Será que isto dá dinheiro?
O novo amigo respondeu:
- Acredito ser a fruticultura uma alternativa viável para pequenas áreas, desde que se tenha condições de produzir frutos de boa qualidade, pois em períodos de safra normal a oferta é grande e, portanto, para vender o produto é necessário produzir melhor que a maioria. Tenho certeza que dá mais que milho. Porém, vai demorar uns três anos para começar a produzir.
- E o senhor acha que eu poderia plantar? Será que vale a pena?
- Se você tiver condições para implantar o pomar, efetuar os tratos culturais, as adubações necessárias, o controle adequado de pragas e doenças, enfim, produzir com qualidade, lógico que vale a pena.
O produtor pensou, pensou, conversou com outros vizinhos a respeito e decidiu seguir o caminho do novo vizinho e plantou 500 pés de poncã. Faz tudo o que o vizinho faz e, como mora na propriedade, consegue até fazer melhor e na hora certa. Vem se mantendo com pequenas lavouras de milho, feijão e arroz, fazendo o suficiente para manter a família.
No mês de maio deste ano este produtor estava colhendo sua roça de milho quando chegou uma camioneta de onde desceu uma pessoa que ele não conhecia. Perguntou se era dele o plantio de poncã pois tinha interesse de comprar a fruta.
O produtor respondeu que as plantas, ainda novas, não tinham produção. O visitante, quando foi entrar na camioneta para ir embora viu no quintal da casa do produtor dois pés de poncã, já mais velhos, com frutas maduras, praticamente no ponto de colheita e questionou:
- E aqueles pés ali, você não quer vender as frutas? Eu pago R$4,00 a caixa de 23 quilos.
O produtor não pensou duas vezes:
-Pode apanhar, respondeu animado.
Os dois pés renderam oito caixas ou R$32,00. Passados alguns dias encontrou o vizinho agrônomo e lhe perguntou se 500 vezes R$16,00 dava mesmo R$8 mil.
O agrônomo respondeu que sim e quis saber o porquê da pergunta. O produtor, todo animado, contou o que havia acontecido.
- Acho que acertei minha plantação, disse o produtor.
Vendo a empolgação do produtor, que já fazia as contas de quantos alqueires de miho teria que plantar para fazer o mesmo dinheiro, o agrônomo chamou-lhe a atenção a respeito da safra deste ano que, por problemas climáticos, acabou tendo baixa produção, com demanda além da oferta e, mesmo produtos de qualidade inferior foram comercializados. O agrônomo disse ainda que, normalmente, o mercado é muito concorrido e por isso a importância de se produzir com qualidade.
Caso 2 Na mesma região, um produtor de uva foi visitado por um agrônomo, que passou a lhe indicar diversos produtos, com objetivo de melhorar a sua lavoura e produzir frutos de ótima qualidade.
Este produtor, com mais de 20 anos cultivando uva o questionou, querendo saber o quanto iria lhe custar tudo aquilo e se realmente seria viável economicamente, considerando os preços que se tem recebido pelo produto nos últimos anos.
A partir destes dois fatos verídicios, podemos perguntar: é viável cultivar frutas na Terra do Café?. Lógico que sim. Porém, de forma muito diferente da qual nossos avós ou pais implantaram as lavouras de café ou como alguns produtores, ainda hoje infelizmente, por falta de orientação, recursos para custeio e/ou investimentos, e até por comodidade em certos casos, tentam produzir sem um rumo adequado.
E quando se fala em produzir adequadamente torna-se indispensável a presença de profissionais da área agrônomica, com conhecimento e responsabilidade para oferecerem aos agricultores as orientações necessárias para obterem bons produtos e que sejam economicamente viáveis; respondendo assim aquele produtor de uvas, citado no segundo caso.
Provavelmente aquele produtor do primeiro caso não deverá ter maiores problemas para ter sucesso em sua lavoura. Porém, sempre que surge a pergunta - Onde e como obter a orientação adequada?, por parte de produtores que já cultivam frutas, ou dos que desejam iniciar o cultivo, verifica-se que na nossa região e, mesmo no restante do Estado, o número de profissionais com conhecimento da área ainda é pequeno.
Há também o esforço de alguns profissionais da pesquisa, outra área que fica a desejar, visto que os recursos e incentivos destinados aos estudos estão abaixo do necessário.
Quando se fala em fruticultura, se fala em investimento, necessidade de recursos para implantação e custeio até o início da fase produtiva. Hoje só é possível o cultivo com recursos próprios. As linhas de créditos bancários até existem, mas já faz um bom tempo que os recursos não aparecem para atender aos agricultores interessados.
Diante desta conjuntura os produtores são orientados a procurarem inicialmente a Emater-PR, cooperativas, empresas privadas e prefeituras que tenham profissionais que possam atendê-los num primeiro momento. A orientação sistematizada certamente só será possível a partir da formação de grupos por fruta ou associação de produtores, como vem ocorrendo com sucesso em algumas regiões do Norte do Paraná.
Um exemplo é o cultivo da uva em Marialva e na região de Cornélio Procópio; ou o morango, no Norte Velho e Londrina; a banana, em Andirá; o pêssego, em Santo Antonio da Platina; entre outros. Nesses casos há a contratação de uma assessoria técnica especializada que também facilita a comercialização da produção.
Mesmo com dificuldades, há caminhos férteis para a fruticultura. A melhoria na distribuição de renda da população, certamente trará uma demanda cada vez maior para as frutas de boa qualidade. O autor é engenheiro agrônomo, chefe do escritório local da Emater-PR, em Londrina.


