A fábrica de fôrmas de sapatos
“O processo produtivo iniciava com a extração de toras de árvores, que depois de serradas eram torneados e serviam de modelos para a confecção de sapatos”
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sábado, 30 de março de 2019
“O processo produtivo iniciava com a extração de toras de árvores, que depois de serradas eram torneados e serviam de modelos para a confecção de sapatos”
Gerson Melatti - leitor da FOLHA 
Meu avô Francesco nasceu em 1902 em Fagundes Varela, cidade do interior do Rio Grande do Sul, sendo o segundo dos treze filhos dos imigrantes italianos Giuseppe Melati e Stefana Michelotti. Desde criança ajudava a família na lavoura e com quatorze anos tornou-se aprendiz de sapateiro.
Logo saiu de casa para viver por conta própria, pois a saída precoce dos filhos era comum naquela época. Quando se casou, aos vinte e cinco anos, havia juntado um patrimônio considerável: era dono de uma sapataria e de uma motocicleta Harley Davidson, modelo 1922.
Mesmo sem ter frequentado a escola nonno Francesco aprendeu a ler e escrever, fazer contas e cálculos complexos, além de ter sido um talentoso inventor de máquinas e equipamentos industriais. Foi empreendedor num tempo em que não existia essa palavra. Para sustentar seus onze filhos trabalhou muitos anos como sapateiro e depois teve vários negócios: transportadora de madeira, fábrica de cadeiras, produção de componentes para baterias automotivas e uma indústria de fôrmas para sapatos, localizada na cidade de Getúlio Vargas (RS), que foi o seu último empreendimento.
Essa indústria produzia modelos de sapatos, conhecidos como fôrmas. Trata-se de uma peça em madeira com o formato do pé humano, que servia como molde para sapateiros e indústrias fabricarem calçados. O processo produtivo iniciava com a extração de toras de árvores em propriedades rurais, que depois de serradas até resultarem em pedaços menores, eram torneados e serviam de modelos para a confecção de sapatos. A árvore mais utilizada era a “açoita cavalo”, uma madeira pesada, resistente e muito flexível, apropriada para a fabricação de móveis vergados e peças torneadas.
A firma empregava dez operários, sendo que os mais experientes faziam o serviço pesado utilizando motosserras e serras fitas, enquanto os jovens ficavam no setor de acabamento em tarefas menos perigosas como tornear, lixar, envernizar e lustrar as fôrmas. Meu avô dava oportunidade do primeiro emprego para seus filhos e netos e também aos filhos dos vizinhos, contratando-os como aprendizes. Naquele tempo não havia leis proibindo o trabalho de adolescentes e o fato de trabalharmos não impediu que tivéssemos uma juventude maravilhosa, com tempo para estudar e brincar.
A fábrica de fôrmas Melati & Cia funcionava no porão da casa da família e existiu de 1953 a 1975. Em períodos distintos, lá trabalharam meu pai, Adilo, meu padrinho Ercílio e meus tios Armando, Almirante, Miguel, Nelson e Beto, além de mim e dos meus irmãos Chico e Pancho. Trabalhador incansável, o nonno só parava a produção em dias santos, especialmente no dia 25 de novembro em homenagem à Santa Catarina, protetora das indústrias e dos operários.
Foi na fábrica que também tiveram a chance de começar a trabalhar, ainda menores de idade, meus amigos Paulo e Caio Tefili, Deonisio Knerek, Moacir e Rissieri Fontana. O nonno era o gerente e nos fazia cumprir horários e prazos, obrigando-nos a assumir tarefas e ter responsabilidades. Era exigente, metódico, porém extremamente íntegro e bondoso. Dava lições de confiança e honestidade, deixando que nós, rapazes de quinze anos, marcássemos numa pequena tábua a quantidade de horas extras realizadas; no final do mês somava as horas e, sem questioná-las, fazia o pagamento integral dos salários sempre colocando um pouco de dinheiro a mais para cada empregado.
O nonno faleceu em 1990, aos oitenta e oito anos, e quando converso com os amigos daquela época, constato que adquirimos experiência e conhecimentos, mas acima de tudo aprendemos dar valor ao trabalho e, seguindo o exemplo do nonno Francesco, procuramos nos tornar pessoas de bom caráter. E jamais esqueceremos que durante aqueles anos, felizes, contávamos com um lanche inusitado e saboroso que o Seu Bianchini, o simpático senhor que limpava a fábrica, nos ensinou a comer: pão com banana!

Gerson Melatti, leitor da FOLHA


